Com os netos crescidos, ela se mudou para um quarto e sala em frente à praia (Imagem ilustrativa/Pexels) “Essa semana é meu aniversário. Vamos comemorar?”. Essa seria uma pergunta ocasional de qualquer pessoa que aniversaria não fosse um detalhe muito importante: a aniversariante em questão está a dois anos de completar um século de vida. Nascida em Santos, em um dezembro quente e úmido de 1926, a Tia Madalena é a terceira dos quatro filhos que meus bisavós tiveram no Brasil, depois de partirem da Espanha cinco anos antes em busca de uma vida melhor na “terra nova”. Eram miseráveis como a grande massa migratória europeia que chegou ao nosso país e que conta as histórias de muitas de nossas famílias. Tia Madalena, minha tia-avó, perdeu a mãe ainda menina, falecida no resguardo do parto dos gêmeos. Sua morte mudou o rumo da vida de todos. Meu bisavô Francisco penava para trabalhar o dia inteiro - vendendo caranguejos e mariscos - com quatro crianças pequenas a tiracolo. A solução foi entregá-las aos cuidados de uma tia. Nos anos seguintes, da infância à adolescência, as crianças viviam com uma “madrasta”, que os maltratava, fazendo-os trabalhar como adultos. Eram tempos em que poucos viviam a infância. Mas tudo passou e outros ventos trouxeram novos desafios. Tia Madá se casou e foi mãe de muitos. Dos dois filhos, do sobrinho que perdeu a mãe cedo e dos dois netos, que também ficaram órfãos de mãe bem pequenos. Isso tudo sozinha, pois o marido foi embora ainda jovem em um acidente de carro, junto com o irmão dela. Com os netos crescidos, ela se mudou para um quarto e sala em frente à praia de onde saía para caminhar fielmente todos os dias, do Canal 6 ao Canal 1, ida e volta, cabeça erguida, pernas firmes, as mesmas que a mantém de pé até hoje, com a ajuda do andador. A fraqueza das pernas e a coluna corcunda não tiram sua altivez. Ouve pouco, lê muito. “Olha, guardei essa aqui pra você”, me disse entregando a crônica do mês passado, antes da feijoada do seu aniversário. Gosta de manter os cabelos curtinhos, como sempre usou. Brincos e maquiagem nela nunca vi. Dei-lhe de presente cinco revistas para ler inteirinhas, como faz com A Tribuna todos os domingos. Tia Madá não usa óculos e há pouco trocou as dentaduras sem se queixar de qualquer dor. Queixa, aliás, é uma palavra que não existe em seu vocabulário. Receita para viver uma vida longa, assim, saudável? Sem dúvida, comer bem e caminhar longos quilômetros diariamente colaboraram para sua boa saúde. Mas não se trata apenas disso. A mente ainda lúcida da Tia Madalena carrega uma consciência diferenciada sobre sua existência, que a faz encarar os desafios que a vida lhe impõe a partir de escolhas positivas, mesmo diante da pior de todas as perdas que enfrentou: seguir em frente após a partida de um filho. E assim Tia Madá encarou e continua encarando as surpresas e missões que a vida lhe entrega, abraçando a resiliência como uma boa companheira para as horas difíceis. Curiosamente, seu nome lhe caiu como uma luva. De origem hebraica, significa torre, uma excelente metáfora para representar uma mulher tão resistente e perseverante como a Tia Madá.