Série sobre a compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga foi exibida pela Globo em 1999 (Reprodução) No museu de grandes novidades que é o universo da internet e dos streamings, revi, por estes dias, trechos da série sobre a compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga, exibida pela Globo em 1999. A experiência complementou uma visão que tive ao ler Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre, sobre como foi difícil e penoso para as mulheres sobreviverem e conquistarem sua autonomia em um país tão patriarcal e machista como o nosso. Há ecos disso até hoje, mesmo com tantas conquistas. A masculinidade tóxica ainda é presente e, silenciosa ou ruidosamente, ainda se faz presente no cotidiano. Ruidosa nos relatos diários de violência contra as mulheres e silenciosa no cotidiano, como, por exemplo, nas famílias, onde se delega à mulher todas as responsabilidades. Chiquinha Gonzaga surge, então, não apenas como personagem histórica, mas como síntese de uma ruptura. Mulher separada, musicista profissional, maestrina num mundo de homens, desafiou um sistema que, como bem descreve Freyre, organizava a sociedade brasileira a partir da autoridade masculina, da casa-grande como centro de poder e da mulher confinada ao espaço doméstico e moralmente vigiado. A transgressão feminina, naquele contexto, era tratada como desvio de caráter, nunca como gesto de autonomia. Chiquinha pagou caro por isso: o afastamento da família, o julgamento público, o estigma. O que inquieta é perceber que, embora o tempo tenha avançado, a lógica não desapareceu, apenas se sofisticou. A masculinidade que sustenta a desigualdade hoje nem sempre grita; muitas vezes cochicha. Está nas expectativas invisíveis, na divisão “natural” das tarefas, na ideia de que o cuidado é vocação feminina e a provisão, dever masculino. Quando essa masculinidade se sente contestada, explode: nas estatísticas de feminicídio, nos casos de violência doméstica, nos discursos que tentam deslegitimar conquistas históricas como se fossem excessos. JJ Bola, na obra Seja Homem: A Masculinidade Desmascarada, ajuda a deslocar o olhar. Ao mostrar que a masculinidade é uma construção social baseada no controle, na negação da vulnerabilidade e na dominação, revela que esse modelo não oprime apenas as mulheres. Ele aprisiona os próprios homens. Ensina-se desde cedo que sentir é fraqueza, que cuidar é coisa de mulher, que poder é sinônimo de imposição. O resultado é um ciclo de frustrações, silêncios e violências que se retroalimentam. Talvez por isso revisitar Chiquinha Gonzaga hoje seja mais do que um exercício de memória: é um espelho incômodo. Ela evidencia que as mulheres sempre resistiram, mesmo quando o custo era alto demais. E nos obriga a reconhecer que a igualdade não se constrói apenas com leis ou discursos progressistas, mas com a revisão profunda dos papéis que naturalizamos no cotidiano. Questionar a masculinidade tóxica é, antes de tudo, questionar hábitos, privilégios e silêncios herdados. O passado não está encerrado em arquivos ou séries de época. Ele atravessa a sala de estar, a mesa do jantar, as relações mais íntimas. Mas, como mostrou Chiquinha, fissuras são possíveis. E talvez o verdadeiro avanço esteja menos em celebrar exceções heroicas e mais em criar um presente onde nenhuma mulher precise ser exceção para simplesmente existir com autonomia.