João Fenerich: "Os reconhecimentos que chegam agora têm tudo a ver com a liberdade que encontrei" (Lucas Gatto/Divulgação) Há personagens que ficam na tela e há aqueles que continuam reverberando depois do corte final. João Fenerich pertence ao segundo grupo. Em um momento especialmente simbólico de sua trajetória, o ator celebra os 19 prêmios conquistados pelo longa Consequências Paralelas e completa dez anos de carreira com a maturidade de quem trocou a busca por certezas pela curiosidade radical do processo. Entre festivais lotados, personagens atravessados pelo caos e escolhas artísticas que carregam compromisso social, como Betinho do Fome Zero, Fenerich fala sobre fragilidade, presença, memória e a responsabilidade de fazer da atuação um gesto de afeto, risco e consciência. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Consequências Paralelas já soma 19 prêmios. Em que momento você percebeu que o filme tinha alcançado uma dimensão maior do que todos imaginavam? Eu acho que percebi isso quando estávamos no Fantaspoa, que é um dos maiores e mais importantes festivais de cinema de gênero da América Latina, realizado em Porto Alegre (RS). Tivemos duas sessões lotadas, com gente voltando para casa sem ingresso. No final, as pessoas vinham conversar com a gente sobre as teorias e desdobramentos do filme. Ali, percebi que tínhamos um filme que performaria bem em festivais. O mais engraçado é que no set, no meio das gravações, eu falei para o Gabriel (um dos diretores), que estávamos fazendo um filme para ganhar prêmio em festival. Boca santa! Seu personagem, Pedro, tem nuances complexas: um galã com fragilidades que se ampliam diante do caos. Como foi a construção desse papel? O maior desafio na construção do Pedro foi entender que, por trás do arquétipo do galã, existia um homem desorganizado por dentro. Ele é alguém que tenta manter uma imagem de controle enquanto tudo ao redor está desabando e o mais difícil foi justamente entrar nesse espaço de contradição sem julgar o personagem, permitindo que as fragilidades dele aparecessem de forma bem bruta e desconfortável. Acho que o caos que o personagem causa só funciona porque ele vem de um caos interno e eu acho que encontrar essa medida foi um dos trabalhos emocionais mais intensos e profundos que já fiz, tanto que eu demorei umas duas semanas para voltar depois das gravações. As gravações aconteceram em apenas seis dias, numa única locação. Como essa intensidade influenciou a dinâmica do trio principal? Ajudou a criar uma intensidade que sublinhou completamente o nosso trabalho. E também o fato de estarmos presos ao mesmo espaço e de o filme respeitar a cadência natural dos acontecimentos — o tempo do filme sendo o tempo da vida — fez com que tudo ganhasse uma urgência muito verdadeira. Além da nossa preparação de elenco ter sido muito profunda e fundamental para que o nosso trabalho funcionasse da melhor maneira possível. Era como se a história estivesse acontecendo diante de nós pela primeira vez e isso aproximou muito todos do elenco, como uma unidade. A gente conseguiu criar um estado de presença, de tensão e principalmente de confiança, que também se deve ao fato de sermos amigos fora da tela, algo que dificilmente surgiria em um processo longo e fragmentado. Você está completando dez anos de carreira em um momento de reconhecimento importante. O que aprendeu nessa década que mudou sua relação com a atuação? Acho que esses dez anos me ensinaram, acima de tudo, a correr atrás dos questionamentos, e não das certezas. Sobre a não necessidade de se provar algo. Para ninguém. Hoje, entendo que, na verdade, buscamos exatamente o contrário: estar disponível, aberto, curioso ao processo. Aprender a não dominar uma forma nem nada relacionado. Acho inclusive que esses reconhecimentos que estão chegando agora têm muito a ver com essa liberdade que tenho encontrado. O curta Escolhidos trouxe seu primeiro prêmio de Melhor Ator. O que mais te tocou na história desse filme e na parceria com a atriz Mariana Faloppa? Esse filme me toca muito porque coloca em conflito direto aquilo que a religião, hoje, costuma apresentar como valores morais inquestionáveis e o peso real das situações que acontecem longe desse discurso farsesco. Para mim, o filme escancara essa fricção entre o que se prega e o que se vive. Artisticamente, a parceria com a Mariana Faloppa foi essencial para eu chegar nesse lugar. Já nos conhecíamos há anos, mesmo sem termos trabalhado juntos antes, e eu gosto de destacar que o ponto de virada do nosso processo foi o fato de ela ter compartilhado uma experiência que viveu. Conversei com a Mariana antes da entrevista e, com a autorização dela, posso dizer que ela foi vítima de violência doméstica e abuso psicológico em um relacionamento e essa troca foi muito importante para me ajudar a entender a régua emocional dessa situação. Gosto de compartilhar esse prêmio com ela, porque foi muito generoso da parte dela e fez toda diferença na minha construção. Você já interpretou vários personagens LGBTQIA+. Como enxerga a responsabilidade e a importância de dar vida a essas narrativas, especialmente no nosso País, que conta com níveis alarmantes de violência contra essa parcela da população? Eu, de verdade, acho que têm sido experiências que ultrapassam uma certa dimensão artística. Veja, num país onde a violência contra a comunidade LGBTQIAPN+ ainda é brutal, acho que dar vida à essas narrativas é uma forma de disputar o imaginário do público, de abrir uma certa fenda de humanidade onde tantas vezes existe um apagamento. Eu, como ator, me sinto profundamente responsável e honrado de colocar meu corpo a serviço dessas histórias. Acredito que contar essas histórias também representa um gesto de afeto e de compromisso. É preciso ampliar a conversa, provocar reflexão e, consequentemente, contribuir para um país mais justo e mais sensível. Esse sim é o papel da arte, é o motivo de eu ter escolhido fazer o que eu faço. Ao olhar para Betinho: No Fio da Navalha, que retrata um momento tão sensível do País, o que ficou para você daquele trabalho em termos de consciência histórica e pessoal? Isso me atravessou de um jeito muito particular. Revisitar aquele período em que se destacavam a força dos movimentos sociais, a dor da epidemia de HIV/aids, a luta diária pela dignidade, despertou em mim uma consciência histórica muito mais viva. Entender o que aquelas pessoas enfrentaram e, mais do que isso, como elas escolheram reagir com coragem e organização, é a prova de que existe um caminho. No campo pessoal, movimento em memórias minhas. Eu perdi um amigo por aids, faz muito tempo, por simples medo de abrir o exame. Então, interpretar o Cláudio também foi um exercício de fazer as pazes com essa memória. Acho que eu levo desse trabalho a sensação da responsabilidade com o futuro. Qual é o tipo de história ou papel que ainda falta na sua trajetória e que você gostaria muito de interpretar? Tenho muita vontade de fazer um projeto fora do Brasil, não por uma ideia de ‘síndrome do vira-lata’, mas para colocar meu trabalho em diálogo com outras cinematografias, outras formas de contar histórias, aproveitando o fato de eu falar outros três idiomas com fluência. Também gostaria de viver um grande protagonista ou antagonista na televisão. Mas, além disso, sinto vontade de interpretar personagens que me coloquem em terrenos que ainda não explorei e ir para lugares onde eu ainda não sei quem sou.