Jessie Buckley e Paul Mescal protagonizam drama denso sobre o luto em Hamnet (Divulgação) O silêncio a revelar a dor em carne viva, aquela que não tem remédio, que corre como um rio por todo o seu ser. O silêncio que brota da pior experiência sensorial da existência: o luto. Ele é tão consistente e denso que parece ganhar forma, presença, como se falasse em pensamento, ganha espaço e se conecta a tudo, à natureza, à vida que não para, ao universo que segue tecendo sua teia de acontecimentos em uma velocidade surpreendente enquanto você, em luto, desacelera. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O silêncio é o argumento principal do enredo de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, cuja narrativa esmiúça o processo de luto de Agnes e William Shakespeare após a perda do filho. No entanto, ele também surge no breve tempo da troca de olhares do casal, quando o amor acontece, para dar lugar ao canto dos pássaros e ao farfalhar das folhagens beijadas pelo vento na floresta, na cumplicidade dos irmãos gêmeos, na ambientação da Inglaterra do século 16. Quando a cena não tem trilha sonora, tudo parece real e envolvente em Hamnet. Afinal, no nosso dia a dia, nós vivemos bons e maus momentos sem música de fundo e é isso que torna Hamnet tão especial em diversos momentos. Dirigido pela chinesa Chloé Zhao, que escreveu o roteiro em parceria com a norte-irlandesa Maggie O’Farrell, autora do romance Hamnet (2020) no qual o longa-metragem foi baseado, o filme é, por falta de adjetivo melhor, arrebatador. Não é para entender, mas para sentir. Hamnet não explica o que não tem explicação, mostra o luto como ele é, nu e cru, sem espetacularização, e é por isso que dói. Em Hamnet, cada um reage de um jeito ao luto, ora se apoiam, ora as diferenças parecem irreconciliáveis e os distanciam. A dor faz isso, separa o que o amor juntou, felizmente, não por muito tempo. Agnes é instinto puro, quintessência da feminilidade. A mulher bela e sensual, a mãe dedicada, a senhora da cura, da intuição e da sabedoria, da conexão com a natureza e com as criaturas que dela se nutrem. É Jessie Buckley, atriz irlandesa de 36 anos que se veste de Agnes como se a personagem tivesse sido criada sob medida para ela. Sem necessidade de ajuste. O que se vê na tela grande é um esplendor. É uma entrega que nenhum idioma no mundo consegue descrever. Qualquer vocabulário é pobre em predicados que qualifiquem com exatidão a atuação de Jessie. Por sua vez, se Agnes é sentimento, William Shakespeare é razão. O ator irlandês Paul Mescal, de 29 anos, interpreta o dramaturgo e poeta inglês, entregando uma de suas performances mais sofisticadas. Em contraponto a Agnes, William dá vazão à dor criando a peça A Tragédia de Hamlet. A obra não é propriamente uma homenagem ao filho morto, mas a forma que o pai, não o dramaturgo, encontrou para atravessar o luto. Na peça, Shakespeare questiona se a alma encontra um caminho, um lugar quando o corpo colapsa, chegando ao ocaso da vida. Isso é dramatizado com sensibilidade e sofisticação técnica jamais vista no cinema. Conecta a peça à vida pessoal de Shakespeare, a reação de Agnes ao drama encenado no palco e tudo isso interligado à memória do filho ou sua aparição etérea. A conexão entre eles é construída num espetáculo cinematográfico tão rico, denso e belo, com trilha sonora de Max Richter, que é impossível segurar a emoção. Vale destacar que se sabe bem pouco sobre a vida de Shakespeare e sua família, então, o filme é basicamente uma ficção. A figura do dramaturgo fica em segundo plano, abrindo espaço ao pai enlutado, tanto que o seu nome é dito uma única vez em duas horas e cinco minutos de filme. Hamnet é surpreendente, comovente, arrebatador. É cinema no estado da arte! Boa semana.