(Disponível em/Freepik) Naquele dia, acordei no horário de sempre, às 7 horas, pela pata da Iolanda, minha gatinha. Despertei diferente, porém nauseada. A refeição de ontem ainda adormecia no estômago. Energia zero para treinar, como faço de costume. São os efeitos dela, a maledita caneta a que me rendi. Quem diria, logo eu, avessa aos modernismos, às químicas, às receitas milagrosas, logo eu, que pouco sobrepeso tenho. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O que me fez mudar de ideia foi a recomendação da médica que me acompanha há quase uma década: “Há cinco anos, você ganha um quilo por ano, está com muito mais gordura que músculo. Como pretende chegar aos 60?”. Eu quero chegar bem, muito bem. Quero poder continuar fazendo trilha, com força e fôlego, não quero piorar minhas dores constantes na coluna, nem no joelho, quero estar bem de saúde, doutora, respondi frente ao cenário catastrófico. Veja, eu bem poderia ter disciplina, acordar diariamente às 6 horas, até aos domingos, andar de bicicleta naquelas academias feitas só para isso, depois poderia malhar na academia do meu prédio, sei lá, levantar uns pesos e em seguida só comer proteína e salada. Eu poderia, sim, mas nunca consegui, essa é a realidade. A vida social não ajuda, minha preguiça só me arrasta para o sofá. Por que não? Concordei em iniciar um tratamento curto, porém com acompanhamento semanal, dieta sem gordura, bastante ovo e frango, muita água, álcool e açúcar zero, muscu-lação três vezes por semana, no mínimo. Pois é, nada de “um brigadeirinho para adoçar a boca”, ou “sexta-feira não vou à academia”. Não, nada disso. Mas se tem uma coisa que nunca pôde faltar em casa é “algum docinho”. O açúcar perambula pela minha vida desde que meu pai, uma formiga em ação, comprava todo mês algumas caixas de doces diversos. Tinha chocolate, doce de abóbora (daqueles de festa junina), goiabada e marrom glacê. A dependência e a associação do açúcar com conforto emocional começaram cedo. Estava decidida, porém. “Não chegarei aos 60 com dez quilos a mais!”. Então, no dia seguinte àquela simples “canetada”, uma revolução se abatera no meu estômago, fazendo com que eu deixasse água tônica na moringa da mesa de cabeceira a semana toda. Melhorei com o passar dos dias, aderi ao “um grelhado e uma salada” no almoço, no café da manhã, dois ovos mexidos, no jantar, whey protein batido com água e morangos. Resultado: 2,3 quilos a menos em duas semanas, um milagre para uma mulher 50+ que não se priva de nada na cozinha e só há poucos anos decidiu inserir atividade física na rotina. E, quem diria, uma caneta faria esse milagre! Criada só para que pudéssemos colocar no papel nossos pensamentos, palavras, comunicações para que nossa voz ficasse eternizada; agora ela é sinônimo de arma contra obesidade ou, no meu caso, contra o início do sobrepeso, atuando como o extermínio de um vírus antes que se espelhe pelo corpo e transforme 55 quilos em 70 em coisa de dez anos. Claro, me animei com os resultados, mas a redução da comida e das gulodices me afeta, já que há alguns anos comer deixou de ser sobrevivência para virar prazer; resultado de uma cultura de alimentos industriais e processados, com ingredientes nocivos e que causam dependência (não escapei). Duas semanas e meia depois, porém, pouco antes da consulta, passei pela melhor doceria do bairro, lembrei na hora da banoffee leve, fresca e com doce de leite caseiro. Num rompante, estacionei sem pensar; o motorista de trás até buzinou. Saí do carro e pedi minha banoffee favorita. Lembrei da amiga que me aconselhou séria, como uma freira que manda rezar o terço todas as noites: “Não se esqueça de evitar doces nesse período, são muitos calóricos!” O olhar instigava a culpa que eu já sentia. Olhei para a banoffee, mergulhei o garfo lotado boca adentro, o mesmo açúcar que me encharcara de energia e prazer desde a infância passeou pelas papilas gustativas se dissolvendo como gelo no sol. Peguei um guardanapo, uma caneta (não daquelas) e anotei: próximo doce agora só domingo que vem.