(Adobe Stock) Carrego agendas comigo desde que descobri, ainda criança, que anotar os dias das entregas das lições de casa ajudava a me organizar e evitava que eu esquecesse qualquer prazo. Pegava folhas de caderno e acima escrevia o dia; abaixo, o que estava programado. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para isso, usava canetinhas de cores diferentes. Azul para segunda-feira, laranja para terça e assim por diante, sem aplicar qualquer regra cromática. Só seguia o instinto. Depois, grampeava as folhas, as dobrava em quatro e guardava na primeira gaveta do guarda-roupa, debaixo das camisetas (como se fosse um grande segredo). De volta da escola, pegava a agenda que confeccionara sem nem saber que assim se chamava e anotava tudinho. Uma deliciosa sensação de organização tomava conta de mim. Hoje, meu trato com os dias é um pouco mais sofisticado. Não, não se trata de qualquer tecnologia. Invisto em agendas do tamanho de livros, com capa dura, folhas bege, marcador em fita estreita de cetim. Cada página reservada a um dia, a não ser finais de semana, quando é dividida em dois. Há menos tarefas para anotar, afinal. Antes de chegar no mundo dos dias, semanas e meses, há muita página para rolar. Dados pessoais, minicalendários anuais do ano que passou, do que se está e do que virá. Lista de feriados, planejamento a longo prazo, minhas finanças. Uma vida em páginas. A capa foi escolhida a dedo, mais precisamente com o dedo indicador passeando pela internet no tablet. Assim que a vi, fiquei encantada. É uma reprodução da obra Mulher com Sombrinha (1875), do pintor impressionista Claude Monet. Na imagem, uma mulher (Camille Monet, esposa do artista) olha para a “câmera”, no caso os olhos do seu marido. Há em seu olhar uma intensidade enigmática. Olhos prontos para chorar e sorrir, a qualquer momento. Camille veste uma longa saia de babados brancos e segura uma sombrinha verde. O chapéu e o lenço cor lavanda compõem o figurino. Ao fundo, um menino, Jean, o filho do casal, se protege do sol com um chapéu “coquinho” e longas mangas. Um simples instante captado e transformado em arte. Também quero registrar meus instantes em 2026, nem com tanta beleza como a arte de Monet, mas com o preciosismo que minha memória e organização permitirem, pois à beleza quero que seja reservada os momentos inesperados da vida. Aponto o lápis e decido dar início à agenda, ao ano que, tudo indica, deverá ser o mais quente da história. Preciso me preparar comprando um ar-condicionado (anoto na página de finanças). É um ano em que tenho a meta de terminar de escrever meu segundo livro e preciso me empenhar para isso, afinal, a escrita de uma obra literária sempre acontece entre uma atividade e outra (como trabalhar, limpar a casa, ir ao mercado, escovar os gatos etc.). Vou até as páginas de planejamento mensal e registro meu plano. Será que consigo ou será como muitos planos que passam despercebidos pelas páginas da vida? Neste ano, quero muito conhecer o Peru. Vou até o final da agenda, onde estão páginas pautadas, e rabisco um breve roteiro da viagem, já sonhando com a energia de Machu Picchu. Aproveito e tento um desenho, nada tão belo quanto o de Monet, mas com a mesma tentativa de trazer vida ao papel, tentando traduzir em imagens a alegria que está por vir nesta tão sonhada viagem. Começo pelas montanhas deste país andino, o sol brilhante e logo passo para as cores vívidas das roupas dos moradores de lá. Pronto, um pouco do meu planejamento e do meu sonho já está registrado nessas páginas que carregarei ao longo de 12 meses. Os tecnológicos que me perdoem, mas ainda prefiro minha agenda de papel.