O frisson musical é uma demonstração poderosa de como a música está profundamente conectada à nossa biologia e história emocional. (Divulgação / Freepik) É uma experiência quase mágica: você está ouvindo uma música e, de repente, sente um arrepio percorrer o corpo. Os pelos se eriçam, uma onda de emoção se espalha e por alguns segundos parece que tudo para. Esse fenômeno, conhecido como frisson musical, é mais comum do que se imagina — e há uma explicação científica fascinante por trás dele. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com neurocientistas, o frisson é uma resposta fisiológica real a estímulos emocionais profundos. Embora possa ocorrer em outras situações — como durante um discurso comovente ou um reencontro emocionante —, ele é particularmente intenso em resposta à música. Mas o que torna algumas canções tão poderosas a ponto de provocar reações físicas como calafrios, lágrimas e sensação de êxtase? A ciência por trás do frisson musical Estudos liderados por pesquisadores da Universidade McGill, no Canadá, descobriram que o frisson está relacionado à ativação do sistema de recompensa do cérebro, o mesmo envolvido em experiências prazerosas como comer chocolate, fazer sexo ou receber elogios. Quando sentimos calafrios com uma música, há uma liberação de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação. A equipe do neurocientista Robert Zatorre, um dos maiores especialistas no assunto, usou ressonância magnética funcional (fMRI) para observar o cérebro de pessoas enquanto ouviam músicas que consideravam emocionantes. O que eles encontraram foi surpreendente: as regiões cerebrais ativadas durante o frisson são as mesmas envolvidas em recompensas biológicas e vícios. Essas áreas incluem o núcleo accumbens, o hipotálamo e a amígdala, estruturas ligadas ao controle de emoções e ao processamento de estímulos afetivos. Em outras palavras, quando uma música “nos toca”, o cérebro responde como se estivesse recebendo uma dose poderosa de prazer emocional. Por que só algumas pessoas sentem calafrios com música? Curiosamente, nem todo mundo experimenta o frisson musical com a mesma intensidade. Um estudo publicado na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience mostrou que apenas cerca de 50% das pessoas relatam sentir calafrios com frequência ao ouvir música. Segundo a pesquisa, essas pessoas apresentam maior densidade de fibras nervosas conectando o córtex auditivo (que processa o som) ao córtex pré-frontal (ligado às emoções e tomada de decisões). Ou seja, existe uma diferença neurológica real entre quem sente calafrios e quem não sente. Além disso, fatores como personalidade, empatia, experiências de vida e até formação musical influenciam essa resposta. Pessoas mais sensíveis à arte, introspectivas ou com maior inteligência emocional tendem a ter reações mais intensas à música. O papel da surpresa e da expectativa Outro elemento importante é a violação das expectativas musicais. Quando uma música cria um padrão — seja com ritmo, harmonia ou melodia — e, de repente, o quebra de forma inesperada (como com uma mudança de tom ou entrada de um instrumento), o cérebro reage com intensidade. Essa surpresa pode causar um pico emocional e, consequentemente, o frisson. Músicas com crescendos marcantes, mudanças dinâmicas e vozes emocionalmente carregadas costumam ser as principais responsáveis pelos arrepios. Clássicos como Bohemian Rhapsody (Queen), Nessun Dorma (Puccini), Fix You (Coldplay) ou Adagio for Strings (Barber) são exemplos recorrentes citados por pessoas que sentem esse tipo de emoção física. O que isso diz sobre nós? O frisson musical é uma demonstração poderosa de como a música está profundamente conectada à nossa biologia e história emocional. Ela ativa memórias, provoca identificação, fortalece conexões sociais e até reduz o estresse. De fato, estudos da Harvard Medical School indicam que ouvir música que nos emociona pode reduzir os níveis de cortisol, hormônio do estresse, e melhorar o humor de forma significativa. Esse fenômeno também tem sido estudado como ferramenta terapêutica. A musicoterapia, por exemplo, já é utilizada em hospitais, clínicas psiquiátricas e centros de reabilitação para tratar depressão, ansiedade e traumas emocionais.