(Arte) Ter uma conta e usar redes sociais é, para muitos, como tomar banho ou escovar os dentes: um hábito. A grande quantidade de horas no mundo digital é que pode complicar. Por isso, é preciso muito cuidado para que essa prática não se torne um problema. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Em primeiro lugar, o formato das redes sociais faz com que nosso cérebro libere dopamina, um dos hormônios responsáveis pela sensação de prazer, de forma muito rápida e instantânea, fazendo com que os jovens tendam a viciar nessa sensação e deixem de buscar outras fontes que também poderiam trazer prazer, mas de uma forma mais lenta e trabalhosa”, explica a psicóloga Elaine Santa Maria. Comparações prejudicam A profissional também acrescenta que as redes sociais fornecem a percepção de inserção em um mundo que, na realidade, não existe, impedindo que o jovem tenha experiências reais no seu universo pessoal e social. Em meio a isso, acontecem as comparações. “Nas redes sociais, a maioria das pessoas postam apenas um recorte de suas vidas, geralmente positivo, e isso pode fazer com que o jovem acredite que todos são felizes e bem sucedidos e amados e aceitos e levam uma vida divertida sem olhar o lado difícil da vida que todos nós temos”, lembra. As comparações, segundo Elaine, também podem prejudicar o desenvolvimento da autoimagem. “Isso pode levar o jovem a um estado depressivo por se sentir inferior. O uso excessivo de telas também pode prejudicar na retenção da atenção, haja vista que os conteúdos são expostos em uma velocidade muito rápida”, justifica. As comparações, segundo Elaine, também podem prejudicar o desenvolvimento da autoimagem (Divulgação) Consumo com equilíbrio Elaine Santa Maria observa que não é necessário apenas um detox de exclusão de acesso às redes, mas principalmente consumo de conteúdos com equilíbrio. O motivo é simples. "Ao fazer o jovem ficar totalmente restrito das redes, podemos obter o efeito contrário quando ele tiver acesso novamente, tornando assim seu uso compulsivo”, afirma. O que fazer Importante ter limites de acesso a redes sociais e à tecnologia em geral, como celulares, tablets, TVs e videogames. Estipular horários e locais e, além disso, evitar acesso antes de dormir e ao acordar; Incentivar mais o convívio em sociedade, como com amigos de escola, clube, condomínios; Incentivar também a pratica de esportes e de leitura, que darão a sensação de prazer ao invés do uso das tecnologias; Ao notar um comportamento de isolamento, fuga de contato social ou até mesmo deixar de sentir prazer em atividades que antes sentia e se interessava, é importante buscar ajuda profissional. Ricardo Pupo toma uma série de providências quando o assunto é manter a saúde mental longe do universo digital (Divulgação) Cinco práticas Sócio-fundador da empresa T2S, especialista em desenvolvimento de sistemas, o engenheiro de computação Ricardo Pupo Larguesa tem 45 anos e trabalha na área desde 1998. O contato constante com o mundo digital faz com que ele adote cinco práticas aprendidas com o passar do tempo para manter a saúde mental. Como primeira providência, Larguesa pratica diariamente um exercício de respiração guiada. “Há vários na internet, mas eu gosto dos exercícios do Wim Hof (palestrante motivacional e atleta holandês que criou a técnica). Este tipo de exercício serve como meditação e é também um exercício de concentração, cuja prática regular oferece vários benefícios para a saúde como um todo”, conta. Fazer atividade física regularmente é outra medida adotada pelo profissional. “Principalmente no caso de pessoas que trabalham sentadas e fazendo uso de computador, a prática de atividade física ajuda na prevenção de inúmeros problemas de saúde e é altamente recomendável”, afirma. Larguesa também usa frequentemente o recurso “Não perturbe”, presente tanto no smartphones, em smartwatches e no computador. “Ele é valiosíssimo. Você pode habilitá-lo e configurá-lo para que apenas contatos favoritos toquem, o que já é suficiente para evitar inúmeras distrações”. Desabilitar notificações desnecessárias no smartphone também faz parte da lista de práticas muito utilizadas pelo profissional. “Uma vez que, hoje em dia, o uso fica banalizado por uma chuva de notificações irrelevantes de quase todos os aplicativos, eu mantenho habilitadas apenas notificações de apps relevantes para mim. No Android, basta clicar na primeira notificação irrelevante de um aplicativo novo e manter pressionado que vai aparecer uma mensagem perguntando se quer desabilitar todas as notificações do app”, explica. O uso de um to do list para registrar tarefas que surgem fora do expediente de trabalho é mais uma medida adotada por Larguesa. “É comum receber mensagens eventuais de trabalho ou ter ideias que queira colocar em prática, mas o receio de esquecer nos deixa preocupados e ansiosos. O que faço é usar algum app para registrar o que surge fora do horário de trabalho em uma lista que eu possa consultar e revisar quanto retomar o expediente. Há vários aplicativos que fazem isso, mas eu gosto de usar o Google Keep. O importante é que seja um app que permita fazer esse registro de forma rápida, prática e sem estar conectado”, detalha. Disciplina Pai de dois filhos - Maria Eduarda, de 15 anos, e José Ricardo, de 12 -, o Ricardo Pupo Larguesa considera uma grande preocupação esse contato deles com o mundo digital. Ele não proíbe, mas ensina-os a desenvolver disciplina. “Há aplicativos de controle familiar e eu os uso apenas para poder medir o uso dos aplicativos por eles de forma que eu possa mostrar a eles quanto tempo esses apps roubam no dia a dia e discutir estratégias para evitar as distrações prejudiciais”, afirma. Geralmente a conversa é suficiente, segundo Larguesa, mas é algo que precisa ser constante. “Acredito que, se uma criança ou adolescente desenvolver disciplina, estará preparado para lidar com quaisquer tipos de distrações que tragam prejuízo. É difícil porque crianças tendem a se influenciar muito facilmente a estes estímulos, e há muita coisa ruim na internet. Mas praticando disciplina e ensinando-os a reconhecer o que é bom, é de grande valia”, recomenda. Relacionamento de Fernanda e Guilherme melhorou ainda mais com o chamado detox digital. (Arquivo pessoal) Unidos também no detox digital Há cinco anos juntos e morando em São Vicente, o relacionamento do programador Guilherme Magno, de 21 anos, e da estudante Fernanda Cavalcante, de 22, melhorou ainda mais com o chamado detox digital. Guilherme costuma fazer isso nos finais de semana e feriados, evitando acessar o Instagram e o X. “Acredito que esse tempo longe das telas me ajuda a estar mais presente nas interações com meus amigos e familiares, aproveitando os momentos de encontro sem distrações. Além disso, consigo aproveitar o tempo livre com atividades mais agregadoras como praticar exercícios físicos, ou ler um livro”, conta. A ideia veio justamente de Fernanda, que começou a prática no mesmo período há três semanas, inspirada por duas influenciadoras que segue. “Não fico totalmente fora do celular no detox porque deixo o WhatsApp para me comunicar com as pessoas mais próximas, mas já me sinto muito mais leve por consumir um conteúdo que realmente me conecta com as pessoas importantes da minha vida. Apesar de só ficar longe das redes sociais aos fins de semana, desativei todas as notificações do meu celular e estou mais focada em atividades que me conectam com a vida como ler, escrever, ver quem eu amo e fotografar”, explica. Guilherme acredita que esse hábito o deixa mais presente na vida como um todo e mais autoconsciente de quanto tempo é perdido nas redes. “Percebo que essa mudança só me trouxe benefícios e fazer esse movimento com o Guilherme é muito mais fácil porque nós dois nos motivamos”, complementa Fernanda.