Oo cérebro das crianças passa por uma espécie de “reformulação interna” nesta fase (Divulgação / Freepik) Se você tem uma criança em casa por volta dos seis anos, talvez tenha notado um comportamento mais questionador, agitado ou até dramático — junto da tradicional perda dos primeiros dentes de leite. O que pouca gente sabe é que essa fase, apelidada por alguns especialistas de “puberdade do dente mole”, marca uma transformação profunda e invisível: a reorganização do cérebro infantil. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo estudos da neurociência do desenvolvimento, por volta dos 5 a 7 anos de idade, o cérebro das crianças passa por uma espécie de “reformulação interna”, semelhante — guardadas as proporções — à puberdade da adolescência. É um período de transição neurobiológica que impacta emoções, cognição e comportamento, ao mesmo tempo em que o corpo começa a se despedir dos primeiros sinais da infância. “Essa fase é marcada por um salto neurológico importante. O cérebro começa a amadurecer áreas ligadas à autonomia, ao controle emocional e à construção da identidade social”, explica a neuropsicóloga Isadora Bechara, do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein. O que muda no cérebro aos seis anos? Aos seis anos, o cérebro da criança ainda está em formação acelerada, mas agora começa a fazer poda sináptica — um processo em que conexões neuronais menos usadas são eliminadas para tornar o sistema mais eficiente. Além disso, áreas relacionadas à atenção, linguagem, tomada de decisões e regulação emocional passam a se comunicar de forma mais eficaz. É também quando começa o fortalecimento de conexões entre os hemisférios cerebrais e o lobo frontal, responsável por habilidades como planejamento, empatia e controle de impulsos. Dente mole é só o começo A perda dos dentes de leite — que costuma iniciar entre os 5 e 7 anos — é o sinal externo mais evidente dessa transformação interna. Ela coincide com o início da fase operatória concreta, segundo o modelo cognitivo de Jean Piaget, em que a criança começa a pensar de forma mais lógica e organizada, mas ainda limitada ao que pode ver ou manipular diretamente. Essa é a idade em que elas: Questionam regras com mais frequência; Querem entender o mundo com mais profundidade; Demonstram mais independência (mas ainda precisam de suporte emocional); Se comparam aos colegas e se preocupam mais com o que os outros pensam. “Mini-adolescência”? Sim, mas com muito afeto É comum que pais e educadores relatem que a criança de seis anos “mudou o jeito de ser”. Segundo especialistas, esse comportamento não é regressão nem rebeldia, mas uma resposta ao turbilhão de conexões cerebrais e novas demandas emocionais. O papel da escola e da família nessa fase Aos seis anos, muitas crianças estão iniciando o Ensino Fundamental. Isso exige novas posturas cognitivas e emocionais, como manter a atenção por mais tempo, lidar com frustrações, adaptar-se à avaliação e à convivência com colegas. Nesse contexto, é importante que pais e professores: Validem os sentimentos da criança, sem minimizar; Ofereçam rotina e previsibilidade, mas com espaço para expressão; Evitem punições severas diante de reações emocionais; Estimulem a autonomia com supervisão; Observem sinais de ansiedade ou sofrimento que ultrapassem o esperado. O que dizem os estudos científicos? Pesquisas publicadas no Journal of Child Psychology and Psychiatry indicam que o período entre os 5 e 7 anos é um “ponto de inflexão no desenvolvimento emocional e social”. O estudo mostra aumento da atividade no córtex pré-frontal e mudanças hormonais sutis que afetam humor e comportamento. Outro estudo, conduzido pela Universidade de Harvard, revelou que crianças entre 6 e 7 anos apresentam maior sensibilidade ao julgamento social e iniciam processos de formação de valores morais, como empatia, justiça e cooperação. Como apoiar a criança nesse momento? Escute sem julgamento Proporcione segurança emocional e rotina Evite rótulos (“preguiçoso”, “teimoso”) Celebre pequenas conquistas Dê liberdade com supervisão Pratique a paciência: essa fase vai passar — e é fundamental para a vida