Humanizar em excesso pode gerar estresse no animal (Divulgação) Dar bom-dia ao cachorro, conversar com o gato como se ele fosse um filho, comemorar aniversário com bolo pet, usar roupinhas, chamar de “bebê”, colocar no carrinho de passeio ou dormir juntos na cama. Esses comportamentos que parecem exagerados para uns, para outros são apenas expressão de amor. Mas o que a ciência tem a dizer sobre tratar animais de estimação como crianças? Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O fenômeno, chamado por pesquisadores de antropomorfização afetiva, está longe de ser apenas uma moda. Trata-se de um padrão emocional crescente, especialmente nas grandes cidades e entre pessoas que vivem sozinhas ou adiam a parentalidade humana. De acordo com um estudo da Universidade de Chicago, mais de 60% dos tutores de cães e gatos nos EUA e Brasil consideram seus pets como “filhos”. Esse índice vem crescendo à medida que as famílias se tornam menores e os vínculos emocionais com os animais aumentam. O que está por trás de tratar o pet como um filho? Segundo a neurociência social, o cérebro humano é programado para estabelecer vínculos afetivos profundos com seres que dependem de nós — e isso se estende a cães e gatos. Um estudo publicado na revista científica Anthrozoös revelou que a liberação de ocitocina (o chamado “hormônio do amor”) ocorre tanto ao olhar para um bebê quanto ao interagir com o pet. É por isso que, ao acariciar, cuidar ou conversar com o animal, o tutor sente conforto e conexão emocional. “Os animais de estimação ocupam hoje um espaço simbólico muito semelhante ao de uma criança pequena: exigem cuidado, atenção e devolvem afeto de maneira espontânea. Isso ativa circuitos cerebrais muito parecidos com os usados na parentalidade humana”, explica o neurocientista Paul Zak, da Claremont Graduate University. Benefícios emocionais para os tutores Tratar um animal com afeto intenso não é, por si só, prejudicial — ao contrário. A literatura científica aponta diversos benefícios emocionais para quem estabelece esse tipo de vínculo: Redução da solidão e sintomas de depressão Aumento da empatia e da sensação de propósito Diminuição do estresse e da ansiedade Estímulo à rotina e responsabilidade “A relação com o pet pode funcionar como suporte emocional real. É um tipo de vínculo de apego seguro, especialmente importante para idosos, pessoas em luto ou que vivem sozinhas”, afirma a psicóloga comportamental Beatriz Segal, da UFRJ. Mas e os riscos? Embora a humanização dos animais de estimação tenha efeitos positivos, os especialistas alertam que exageros podem causar sofrimento para o próprio pet. Segundo a American Veterinary Medical Association (AVMA), comportamentos como colocar roupas o tempo todo, impor dietas “humanas”, não permitir contato com outros animais ou evitar que o pet fique sozinho por minutos podem gerar: Problemas de comportamento, como agressividade ou ansiedade de separação Dificuldades de socialização com outros animais e humanos Estresse por privação de comportamentos instintivos, como farejar, rolar no chão ou cavar Risco nutricional, se a dieta não for adequada à espécie “Não se trata de amar menos, mas de entender que amor real também respeita os limites da espécie. Um cão não é um bebê humano — ele precisa viver como cão”, alerta o médico-veterinário Fernando Wagner, especialista em etologia animal. Gatilhos emocionais: a projeção do humano no pet Muitos dos comportamentos de humanização são motivados por carência afetiva, culpa ou necessidade de controle. Segundo a psicologia, tutores que passaram por perdas, traumas ou se sentem solitários podem projetar em seus animais necessidades emocionais não resolvidas. “É comum que o pet assuma o lugar de um filho não tido, de um companheiro ausente ou de uma válvula de escape emocional. Isso não é errado — mas precisa de consciência para não sobrecarregar o animal”, diz a psicóloga Marina Lôbo, da PUC-SP. E o pet sente tudo isso? Sim. Pesquisas mostram que os cães, em especial, conseguem perceber o estado emocional dos humanos, reagindo a mudanças de humor, estresse e até palavras com entonação afetuosa. Um estudo da Universidade de Viena apontou que cães que vivem em ambientes com afeto e previsibilidade têm menor nível de cortisol (hormônio do estresse) e maior capacidade de aprendizado. Ou seja: afeto é bem-vindo, mas com respeito à linguagem, limites e necessidades da espécie.