O desrespeito ao espaço do pedestre é frequente nas grandes cidades (Divulgação) Apesar de ser uma infração de trânsito prevista no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), estacionar o carro sobre a calçada é uma cena comum nas ruas das grandes e pequenas cidades do Brasil. O que muitos motoristas não percebem é que, além da multa, esse gesto aparentemente simples carrega profundas implicações sociais, urbanísticas e até psicológicas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Pesquisadores da área de mobilidade urbana, direito urbano e neurociência do comportamento têm estudado os efeitos diretos e simbólicos desse tipo de transgressão cotidiana. O consenso entre os especialistas é claro: estacionar na calçada é um ato de desrespeito coletivo, que compromete a dignidade de pedestres, pessoas com deficiência, idosos e crianças — e revela muito sobre como entendemos (ou não) o que é viver em sociedade. O que diz a lei? De acordo com o artigo 181 do Código de Trânsito Brasileiro, é infração grave estacionar sobre calçadas, com penalidade de multa de R\$ 195,23 e 5 pontos na CNH, além da possibilidade de remoção do veículo. A calçada é parte integrante da via pública, destinada exclusivamente ao trânsito de pedestres, e não pode ser apropriada individualmente. Além disso, o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) reforça que qualquer obstáculo ao livre deslocamento de pessoas com mobilidade reduzida representa violação de direitos. O que a ciência comportamental diz sobre isso? Segundo estudos de neurociência social e psicologia do comportamento, atitudes como estacionar na calçada estão ligadas à normalização da transgressão. Quando um hábito ilegal se torna recorrente e não é punido com frequência, ele passa a ser visto como aceitável. Pesquisadores da Universidade de Groningen, na Holanda, demonstraram em um estudo clássico que a desordem visível (como pichações, lixo ou veículos mal estacionados) aumenta a chance de que outras normas sociais também sejam desrespeitadas. Quem mais sofre? Estacionar sobre calçadas atinge especialmente: Pessoas com deficiência visual ou física, que dependem de vias desobstruídas para circular com segurança; Idosos, que muitas vezes têm mobilidade reduzida; Crianças, que perdem a proteção do espaço reservado a pedestres; Mães e pais com carrinhos de bebê, forçados a andar no asfalto; Todos os pedestres, que representam cerca de 20% das vítimas fatais no trânsito urbano brasileiro, segundo dados do Ministério da Saúde. Além disso, o problema desestimula a mobilidade ativa, como caminhar ou usar bicicleta, contribuindo para o sedentarismo e o uso excessivo de automóveis. O impacto urbano: mais do que um problema pontual Especialistas em urbanismo afirmam que a ocupação irregular de calçadas distorce a função original do espaço público, tornando a cidade mais desigual e hostil para quem não está motorizado. Em São Paulo, por exemplo, a Secretaria de Mobilidade e Trânsito já identificou que um dos maiores obstáculos à ampliação de rotas caminháveis é justamente a presença de carros sobre calçadas e faixas de travessia. Segundo o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), uma cidade mais caminhável é mais segura, saudável, inclusiva e sustentável — o oposto do que práticas como essa promovem. Por que isso ainda acontece tanto? Entre os fatores que contribuem para a prática, estão: Falta de fiscalização consistente, especialmente em bairros residenciais; Cultura de privilégio do carro, ainda muito presente no Brasil; Desconhecimento da lei por parte de alguns condutores; Ausência de empatia com o outro — pedestres são vistos como “obstáculos”, não como cidadãos com direitos. Como mudar esse cenário? 1. Fortalecer a fiscalização: Campanhas conjuntas entre prefeituras e guardas municipais para aplicar multas e remover veículos. 2. Urbanismo tático: Uso de barreiras físicas, pinturas e mobiliário urbano para impedir a invasão de calçadas. 3. Educação no trânsito e nas escolas: Ensinar desde cedo a importância da convivência urbana e da empatia com o outro. 4. Denúncia cidadã: Plataformas como Colab, SP156 e apps de prefeituras permitem o registro de infrações com fotos e geolocalização. 5. Reformulação da política de estacionamento: Redução de vagas em locais críticos e ampliação de áreas de calçadas acessíveis.