Os motorhomes despertam espírito de aventura de uma maneira especial (Vanessa Rodrigues/AT) Quando o empresário Jesus Javier Gaudeoso Moar, de 68 anos, e a esposa Telma Mendes Germano, de 58, aparecem com seu motorhome, a reação das pessoas é sempre a mesma depois de conhecer por dentro e tirar fotos: “Esse é o meu sonho!”. “Uma coisa que gosto é que, a cada parada, temos um quintal, um jardim ou uma praia diferente. E, para mudar, é só ligar o motor e seguir em frente. A experiência de conhecer pessoas de lugares variados, com histórias de vida interessantes, profissões diversificadas também é enriquecedora”, define. A ideia do empresário - nascido em Coruña, na Espanha, e radicado em Santos desde os 4 anos - de ter um motorhome veio por intermédio de um amigo que morava em Portugal, em 2017. “Acabamos comprando em sociedade um motorhome usado, mas em bom estado. Eu, minha esposa e minha filha (Luiza, a mais nova dos três filhos), fizemos uma viagem por Portugal e Espanha. Posteriormente, novamente esses países, além de Itália e França. Vendemos o veículo em 2020, quando meu sócio com o carro voltou a morar no Brasil”, relembra. Atualmente, Javier possui um Ford Transit com 6,50 m, ano 2012, com motor diesel e 60 mil quilômetros rodados, montado pela Vettura, uma fábrica especializada em motorhomes. A compra deste modelo aconteceu ao ver um anúncio. “Aqui no Brasil, viajamos por Minas Gerais e Interior de São Paulo. Por ainda estar trabalhando, não viajamos tanto, mas pretendo, em breve, diminuir o ritmo de trabalho e viajar mais. Temos planos de percorrer o Brasil e alguns países da América do Sul”, revela. Estrutura e mercado O motorhome do empresário possui cama de casal, uma mesinha que se transforma em um leito de solteiro, banheiro com chuveiro, aquecedor, fogão cooktop, frigobar, micro-ondas, televisor, climatizador, ar-condicionado, painel de energia solar, toldo lateral, cadeiras de praia e mesa desmontável. Para se ter uma ideia, um motorhome novo do mesmo tamanho — e o mais simples — custa em torno de R\$ 600 mil e pode girar até R\$ 1,5 milhão, este com mais equipamentos. Há modelos maiores que chegam a ter preço de R\$ 3 milhões. Segundo estudo técnico realizado pela Expo Motorhome, evento do setor realizado anualmente em Pinhais, no Paraná, estima-se que o mercado de campismo e caravanismo no Brasil movimentou cerca de R\$ 1,5 milhão em 2023, o que representa aumento de 30% em relação ao ano anterior. “O movimento de motorhomes é bem maior no Sul do que para São Paulo porque lá há mais estruturas e fábricas”, afirma Javier. No Brasil, existem vários campings, sendo que alguns contam com excelente estrutura, como piscina, lago para pesca, quadras esportivas, bar, restaurantes, quiosques com churrasqueiras, luz, água e área de descarte da água suja. “Embora quem está no motorhome não fique em hotel, consome na cidade, pois precisa ir a mercado, farmácia e lojas comprar alguma lembrancinha. É um incentivo ao turismo”, comenta. Regulamentações A legislação permite a transformação de diversos tipos de veículos em motorhome, desde que sejam respeitados os limites técnicos e as exigências legais. É comum o uso de vans (Mercedes Sprinter, Renault Master), ônibus e micro-ônibus, caminhões leves e médios, camionetas como a Kombi e picapes e SUVs com estrutura de campers. A transformação de um veículo em motor-casa (termo que a legislação de trânsito adota para o veículo) tem que seguir os ritos legais previstos nas resoluções do Conselho Nacional de Trânsito (Contran): solicitação de autorização prévia junto ao Detran; elaboração de projeto técnico, com foco nos sistemas elétrico, hidráulico, fixação de móveis, ventilação e instalação de gás; inspeção veicular em instituição técnica licenciada credenciada pelo Inmetro; emissão do Certificado de Segurança Veicular (CSV); e atualização do registro do veículo, que passará a constar como motor-casa no Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo (CRLV) e no Renavam. A Resolução 743/2018 determina ainda ventilação adequada para o ambiente habitável; fixação firme e segura de móveis, eletrodomésticos e botijões de gás; manutenção dos sistemas originais de freio, direção e suspensão, salvo quando houver comprovação técnica de segurança em modificações; e preservação de itens obrigatórios de iluminação e sinalização. A categoria da habilitação exigida depende do peso e da lotação do veículo ou conjunto. As regras principais são: Categoria B (motorhomes de até 3.500 kg e 8 lugares); Categoria C ou D (veículos entre 3.500 kg e 6.000 kg, conforme a lotação); e Categoria E (obrigatória para conjuntos com trailers acima de 6.000 kg). Para circular legalmente em vias públicas, o projeto deve respeitar os limites estabelecidos pela Resolução 882/2021: 4,40 m (altura máxima), 2,60 m (largura máxima), comprimento máximo (14 m — veículo isolado — ou 19,80 m — com trailer/reboque), e peso bruto total conforme capacidade técnica do chassi e aprovação do projeto. Fonte: Marco Fabrício Vieira, especialista em Direito de Trânsito e Transporte, e membro do Conselho Estadual de Trânsito de São Paulo (Cetran-SP)