Uma indústria que movimenta cerca de R\$ 200 bilhões por ano, mas com penetração baixa no mercado global – de cerca de 2%. E que tem desafios, como a política de preços do Governo Federal e o combate à automedicação. A Tribuna conversou com o presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como é o panorama atual da indústria farmacêutica no Brasil? Ela começou a se desenvolver efetivamente em 1996, quando entrou em vigor a lei de patentes. Tivemos a criação da Anvisa em 2003, com uma série de regras que melhoraram a qualidade dos nossos produtos. Então, lá atrás, entre as dez maiores indústrias farmacêuticas no País, a gente encontrava uma brasileira. Hoje, você encontra oito brasileiras. A nossa indústria está estabelecida no Brasil. Subimos a régua regulatória e aquelas empresas que não tiveram capacidade de se adaptar às novas regras saíram do mercado. A gente vem tendo nos últimos anos um crescimento muito bom, no mínimo de 10% ao ano. Para este ano, a previsão de crescimento é de 12%. Quais as razões para estes números? Ele se reflete em comparação com o mercado global? Primeiramente, a população tem mais acesso ao medicamento, que teve seu preço médio um pouco mais barato, e isso ajudou a termos um maior mercado. Mas, quando você olha em termos mundiais, aí nós temos um grande problema. O Brasil representa algo perto de 1,9% do mercado mundial. Então, nós somos grandes aqui dentro do Brasil, mas quando a gente olha para o mundo, não somos tão grandes assim. Por que isso acontece? Um dos problemas, por exemplo, é a produção de matéria-prima, o chamado IFA (ingrediente farmacêutico ativo). Nós não temos uma produção de IFA no nosso País, infelizmente, desde o início da década de 1990. Porque são produtos feitos em toneladas para serem vendidos em miligramas, então você precisa ter um mercado consumidor grande. Quando a gente tem 1,9%, 2% do mercado mundial, não consegue ter essa indústria, que é cara. Qual o efeito do envelhecimento da população na indústria farmacêutica? Em 1960, a população tinha uma expectativa de vida na casa de 40 anos. Hoje, a expectativa de vida é em torno de 72 anos. E tem aquelas doenças crônicas, como hipertensão arterial e diabetes. Todas as questões relacionadas à idade que você começa a tratar ampliam o mercado. Quando a população fica mais velha, você precisa de mais saúde. Quando você precisa de mais saúde, você precisa de medicamentos. Então, houve uma evolução nos tratamentos médicos a na própria indústria farmacêutica. Em volume de dinheiro, quanto a indústria farmacêutica movimenta atualmente? Hoje, no mercado privado, a gente tem alguma coisa perto de R\$ 200 bilhões, sendo que R\$ 70 bilhões são compra pública e R\$ 130 bilhões, compra de farmácia. É um mercado muito importante, que tem hoje, entre diretos e indiretos, um milhão de trabalhadores. E com relação aos medicamentos genéricos? Já temos um padrão de qualidade totalmente comparável aos de marca? Não há dúvidas quanto à qualidade dos genéricos. Nós temos no Brasil um mercado que hoje, em caixinhas produzidas, representa de 35% a 38%. E quando a gente fala em valores, está algo perto de 15% a 18%. Então, é um mercado que está crescendo, o mercado genérico está crescendo. Aqui temos grandes empresas, que estão se desenvolvendo muito. E o programa Farmácia Popular? Como impacta na indústria farmacêutica? Precisa de alguma alteração? É um grande volume, mas financeiramente é um valor muito pequeno, não chega a ser 5%. Estamos falando de 2,5% de impacto no volume total da farmácia popular. É um programa extremamente exitoso, mas que não deveria ser totalmente gratuito. Em todos os lugares do mundo que tem esse tipo de programa, há o copagamento. Também deveria ser um programa voltado para pessoas que têm uma receita SUS. O que pensa sobre a política de preços do Governo Federal? Nós temos uma regulação de preços, com reajuste uma vez por ano. Invariavelmente, esse reajuste de preços é abaixo da inflação. Em alguns produtos, você consegue trabalhar isso bem porque tem uma boa margem. Em outros, começa a ficar muito apertado. E o que acontece quando a margem começa a ficar apertada ou vira margem negativa? A indústria para de produzir aquele produto. Então, tem alguns medicamentos, que seriam os medicamentos mais antigos, que seriam ainda extremamente úteis à população e que você já não encontra mais. Aí, o cliente vai para produtos mais caros, que traz mais rentabilidade. Nós precisamos ganhar dinheiro, e a indústria farmacêutica é de alto risco, mas vive de investimentos. Por isso, precisamos de segurança jurídica e previsibilidade. O Brasil é um país que sofre muito com a questão da automedicação. Como é que isso bate na indústria farmacêutica? Nós temos um grupo de produtos que pode ser comprado sem receita médica, que não tem a tarja. São os medicamentos isentos de prescrição. Mas, quando você possui um tarja vermelha, tem que apresentar uma prescrição médica. Se você compra ou vende um remédio sem prescrição médica, isso não é bom para a indústria.