A Eldorado aplica um controle biológico das pragas das árvores, ao criar predadores naturais (Alexsander Ferraz/AT) O papel que você usa em casa, seja um guardanapo, um caderno ou uma folha para imprimir, pode ter nascido em um laboratório. Muito antes de chegar às florestas, as árvores de eucalipto que dão origem à celulose passam por um processo de pesquisa e desenvolvimento. Na Eldorado Brasil Celulose, tudo começa no Eldtech, um Centro de Tecnologia Florestal inaugurado em outubro deste ano em Andradina, Interior de São Paulo. O espaço tem 728 m2, sete laboratórios e uma equipe multidisciplinar. Nele nasce parte das árvores que serão plantadas nas florestas da empresa em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. “Dois deles são de biotecnologia, como a sala de micropropagação (para multiplicação in vitro), onde conseguimos multiplicar árvores até a partir de uma folha, fazendo clonagem”, afirma Sharlles Dias, gerente de Pesquisa e Tecnologia Florestal da Eldorado. O Eldtech ampliou o programa de melhoramento genético da Eldorado, iniciado em 2012. Esse programa já selecionou e registrou sete clones próprios de árvores de eucalipto e busca constantemente desenvolver plantas mais produtivas, resistentes e adaptadas às mudanças climáticas. O processo começa com o plantio de árvores puras, ou seja, sem modificações, cuja genética é avaliada para identificar as melhores. “Selecionamos árvores no campo e clonamos. Essas árvores são cruzadas para que os descendentes herdem as melhores características de cada uma. Por exemplo, se uma árvore cresce rápido, mas é suscetível a doenças, e outra tem crescimento mais lento, mas é resistente, cruzamos as duas e testamos os resultados em campo”, detalha Dias. O centro tecnológico tem um banco de germoplasma (material genético das plantas), que preserva a diversidade genética necessária para o desenvolvimento de novos clones. A capacidade é para até 40 quilos de sementes, o equivalente a aproximadamente 20 milhões de materiais genéticos. “Esse banco é essencial para garantir uma base genética sólida. Ele nos permite trabalhar com materiais diversificados, que podem gerar árvores adaptadas a situações diversas. É importante para enfrentarmos os desafios climáticos e as necessidades do futuro”. Além disso, o Eldtech utiliza técnicas avançadas como a seleção genômica ampla, que reduz significativamente o tempo necessário para o desenvolvimento de novos clones. “Antes, era preciso esperar que a árvore crescesse para avaliar seu desempenho. Agora, conseguimos ler o DNA de cada indivíduo e prever suas características. Isso economiza anos de testes e recursos”. Atualmente, a Eldorado realiza apenas cruzamentos naturais, o que dispensa a necessidade de autorizações especiais. “Esse tipo de cruzamento não tem restrição”, explica Dias. No entanto, ele aponta que mudanças estão a caminho. “Em até dois anos, pretendemos começar a produzir transgênicos. Aí, sim, será necessário obter autorizações específicas, pois será preciso manipular diretamente o DNA da planta. Estamos trabalhando para certificar o laboratório em biossegurança no próximo ano”. Um processo de seleção de árvores de eucalipto é feito ainda no campo, para aproveitar o melhor das características de cada uma, a partir da clonagem (Alexsander Ferraz/AT) Análise da madeira O Eldtech também faz pesquisas na área de tecnologia da madeira, onde são realizadas análises que ajudam a identificar clones com as melhores características para produção de celulose. Utilizando tecnologias como a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS), o centro realiza análises avaliando fatores como densidade e resistência da madeira. O eucalipto O eucalipto, árvore que ocupa um papel central na produção de celulose no Brasil, é um exemplo de como ciência e tecnologia podem moldar a indústria. Embora o Brasil não tenha o eucalipto como espécie nativa – ele foi introduzido na década de 1970, da Oceania –, a planta se tornou fundamental graças às suas características. “O eucalipto tem mais de 600 espécies, mas cerca de nove ou dez se adaptaram bem ao Brasil”, explica Sharlles. A razão para o uso predominante do eucalipto está diretamente relacionada ao desempenho na produção de celulose. “Para o processo de celulose branqueada, usada em papéis para imprimir, escrever e absorver, o eucalipto é a planta que cresce mais rápido e cujas fibras têm as propriedades que precisamos”. Ele compara com o pinheiro, outra opção para produção de celulose, mas com aplicações limitadas. “Você faz celulose de pinheiro, mas é o que chamamos de fibra longa, usada para produtos como caixas de papelão, que exigem resistência. O pinheiro cresce mais devagar – pode levar de 15 a 20 anos –, enquanto o eucalipto está maduro em seis ou sete anos”.