Médico brasileiro marcou a ciência ao revelar todos os aspectos da Doença de Chagas (AdobeStock) O rigor na pesquisa científica, marca da medicina nas últimas décadas, com certeza deve muito a Carlos Chagas. Apesar de morrer jovem, aos 55 anos, sua obstinação foi decisiva para a descoberta da Doença de Chagas. Mas não apenas isso: ficou marcado por mapear uma doença infecciosa completa (seu agente causador, o transmissor, o ciclo da doença e suas manifestações clínicas). Virou um exemplo para gerações de estudiosos. “Ele foi indicado duas vezes para o Prêmio Nobel de Medicina, mas não chegou a ganhar. Tinha questões políticas na época – ser um cientista brasileiro, e o Brasil ainda era muito pobre do ponto de vista de cultura científica. Os países europeus lideravam (França, Alemanha, depois Inglaterra), mas ele foi muito importante na época”, descreve o professor de infectologia da Unifesp e diretor técnico do Hospital São Paulo, Eduardo Medeiros. O médico infectologista e professor da Unisanta, Evaldo Stanislau, também elogia o legado de Carlos Chagas. “Pela importância do que ele fez, até caberia a briga por um Nobel póstumo. Se tem um brasileiro que merecia esse prêmio, é ele. Que a gente não perca de vista a magnitude da figura dele”. A descoberta Medeiros cita que Chagas viveu em um momento de efervescência nas pesquisas científicas ligadas à medicina, onde também se destacavam o francês Louis Pasteur e o alemão Robert Koch. No entanto, as circunstâncias que cercam a descoberta do brasileiro são mais complexas e retratam uma época de pobreza e recursos escassos. Foi em um vagão de trem onde o seu trabalho começou a ganhar forma. “Chagas foi designado pra ir pra uma cidade no norte de Minas, chamada Lassance, e estava em construção uma grande estrada de ferro. Chagas era muito interessado em malária – tanto que sua tese foi sobre essa doença. E se abrigou num vagão de trem para fazer seus estudos”, descreve. A ideia inicial era descobrir por que os trabalhadores daquela obra contraíam malária. Foi quando alguns deles começaram a levar ao médico insetos grandes, os barbeiros, que os picavam durante a noite, amanhecendo com o rosto inchado. “Chagas tinha microscópio e observou um parasita dentro do intestino do barbeiro. Então, resolveu fazer um experimento com um macaco, colocando-o próximo do mosquito. O animal acabou doente e, ao colher seu sangue, viu o protozoário. Foi a primeira relação da transmissão”, descreve Medeiros. Mas não parou por aí. Uma menina de 2 anos foi ao encontro de Chagas e foram relatados sintomas como febre e rosto inchado. O exame na pequena atestou a presença do protozoário, diagnóstico confirmado pelo Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. “Ele descreve a doença nas suas anotações, à luz de lamparina, no vagão do trem. Consegue ter todo esse trabalho, de fechar o ciclo da Doença de Chagas”, acrescenta. Detalhe: o ano era 1909. Precocidade Carlos Ribeiro Justiniano Chagas, que nasceu em 1879, formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1903, aos 24 anos. Seu orientador, Oswaldo Cruz, nasceu sete anos antes dele, em 1872. “Oswaldo Cruz, por exemplo, entrou na Faculdade de Medicina com 15 anos, dez anos antes de Chagas, e foi orientador dele. Esse ambiente era rico de pessoas que abordavam a área de doenças infecciosas na época, foi muito estudada, criou muitas pessoas”. Hoje, a Doença de Chagas segue com milhões de pessoas infectadas, sobretudo na América Latina. Mas, para Evaldo Stanislau, a força de Carlos Chagas segue presente. “É uma figura absolutamente essencial, não só no Brasil, mas na medicina do mundo”, complementa. Mesmo sem o Nobel, médico brasileiro marcou a ciência ao revelar todos os aspectos da Doença de Chagas.