Felipe Morgado: "A melhor saída é fazer no canteiro de obras a formação profissional" (Divulgação) De acordo com o último Mapa do Trabalho Industrial do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), a construção civil precisa de mais de 4,4 milhões de vagas até 2027. No entanto, a falta de trabalhadores qualificados ainda preocupa o setor. Mudar esse quadro é uma das preocupações do superintendente de Educação Profissional e Superior do Senai, Felipe Morgado. Em entrevista para A Tribuna, ele explica medidas para tentar reverter essa carência, como o recém-lançado Plano Nacional de Capacitação para a Construção Civil. O senhor apresentou recentemente alguns números, de que 94% das construtoras enfrentam escassez de mão de obra, 36% revisam prazos de obras por falta de trabalhadores e 60% dos profissionais nunca fizeram curso de qualificação formal. Como se chegou a esse quadro? A indústria da construção é muito sazonal, então tem toda uma dinâmica de execução. E o setor não retomou o número de trabalhadores de antes da pandemia. Outro ponto está relacionado à juventude, à atratividade para o setor, que vem caindo. Essa queda faz com que aumente a dificuldade de encontrar nova mão de obra qualificada. Com o Minha Casa, Minha Vida em evidência, a carência de mão de obra qualificada é ainda mais sentida? Ainda sobre os jovens, chegamos a ter, entre 2012 e 2013, que também teve um pico da construção, um índice de 18% dos trabalhadores com até 24 anos na construção. O último dado disponível de 2023 estava em 11,9%. São seis pontos percentuais de queda. Outro fator é a informalidade. O setor tem 66% dos profissionais atuando de maneira informal, sendo que, comparado o primeiro trimestre de 2019 ao terceiro trimestre de 2024, houve um crescimento dos ganhos dessa informalidade de 12%. Assim, a reflexão fica sobre como o setor precisa se preparar para essa nova realidade. Com esse diagnóstico em mãos, quais são os principais obstáculos que o senhor entende que precisam ser resolvidos? O Plano Nacional de Capacitação para a Construção Civil é uma das respostas que o Senai está dando para ajudar o setor, e é de extrema importância investir em comunicação. Existe ainda um desconhecimento do quanto o trabalhador da construção está bem remunerado, tem uma carreira mais sólida e de rápido crescimento. E como foi a criação do projeto de capacitação no canteiro de obra? Como funciona? A gente identificou alguns fatores que precisávamos atacar de imediato. O primeiro é a questão do deslocamento. O trabalhador ou estudante não tem condições de se deslocar até o local do estudo. Então, a melhor saída é fazer no canteiro de obras a formação. O segundo aspecto está relacionado a ter um estímulo, um incentivo para que essa pessoa possa conseguir estudar e ajudar a família. O estímulo é a contratação por parte do setor, já como ajudante de obras. Vai trabalhar ajudando naquela obra e, durante uma hora por dia, no horário do trabalho, vai participar da formação e, uma hora após o horário de trabalho, de forma voluntária, ele também continua a formação. Ou seja: a pessoa recebe uma remuneração, e a empresa já contrata com carteira assinada. Isso reduz a evasão e a dificuldade de contratar. Qual é o público-alvo? As pessoas que têm interesse em trabalhar na construção. O foco é atrair as empresas e os trabalhadores em atividades onde existe maior demanda, que são o pedreiro de alvenaria, o carpinteiro de obras, o pedreiro de acabamento e execuções de revestimento de argamassa e o armador de ferragem. Para os próximos anos, de acordo com a demanda do setor, a gente vai trazendo outros cursos com essa mesma metodologia. Nos canteiros onde é executado, já é possível perceber o impacto concreto desse programa? A gente fez pilotos desse programa para poder testar a metodologia. Agora, a escala vai acontecer. As empresas que tiverem interesse em participar do programa vão ter que contratar o ajudante, e esse curso vai acontecer dentro do canteiro de obras. A gente espera ter esse impacto quando conseguir uma escala maior. O Senai, ano passado, atendeu mais de 90 mil matrículas para a indústria da construção. A gente quer ampliar esse número por meio desse programa e ir conectando com o emprego, que é o desejo de todos. O programa também possui uma ação para mulheres, o Elas Constroem. Como funciona? Ele tem um formato diferente. É uma turma exclusiva para mulheres nas unidades do Senai. As empresas também ajudam a pagar o deslocamento, o transporte, uma ajuda de custo para essa mulher que tiver interesse em estudar. E o Senai faz a formação e a preparação da empresa para que essas mulheres possam ter uma maior atratividade, uma maior aceitação no setor. Então, existe um esforço muito grande também de mostrar para as mulheres a possibilidade de ir para a indústria da construção e se destacar também.