No Projeto Pink Zone Delas a proposta é unir esporte e empoderamento feminino, em uma aula que mistura técnica, postura e confiança, ajudando as mulheres a se sentirem preparadas mesmo fora da academia (Arquivo pessoal) O tatame tem se transformado em um espaço de acolhimento, força e resistência para mulheres em Praia Grande. Em meio ao aumento da violência contra a mulher no Brasil, academias da cidade registraram a abertura de turmas exclusivas de jiu-jítsu para grupos femininos, oferecendo não só preparo físico, mas também segurança, confiança e autodefesa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Treinei outras modalidades de luta, mas descobri na prática que nenhuma é tão eficiente para defesa pessoal quanto o jiu-jítsu”, reforça o professor da modalidade Érico Vinícius de Araújo Francisco. Ele, que criou o projeto Pink Zone Delas, promovido pela academia Green Zone, em Praia Grande, acredita que o aumento da procura pela modalidade é uma alternativa à falta de segurança no sistema de proteção e une esporte e empoderamento feminino. “Percebi que essa arte poderia ajudar muitas mulheres a se protegerem e a desenvolver sua autoconfiança”, conta ele, que é proprietário da academia que oferece aulas exclusivas de Jiu-Jitsu voltadas para mulheres. Para justificar esse movimento que ele classifica como tendência, Érico cita os números alarmantes da violência contra a mulher nos últimos anos. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o País registrou 1.492 feminicídios em 2024, o maior número desde que o crime foi tipificado, em 2015. Isso significa que, a cada dia, quatro mulheres perderam a vida vítimas da violência. O estudo também aponta que 20% das medidas protetivas concedidas não foram cumpridas. O professor explica que o método mistura posições do jiu-jítsu esportivo, voltadas a quem deseja competir, com treinos que simulam possíveis situações de risco. “A prática é constante e repetitiva, para que os movimentos de defesa se tornem quase automáticos”. Ele destaca ainda a importância de criar um ambiente acolhedor: “O tatame tradicional pode intimidar. A ideia é que todas se sintam seguras desde o primeiro treino.” Cada aula mistura técnica, postura e confiança, ajudando as mulheres a se sentirem preparadas mesmo fora da academia. A aluna Beatriz Silva Trinidad, de 27 anos, que já treinou em academias mistas, conta que encontrou no grupo feminino mais acolhimento e segurança. “Ganhei mais autoconfiança e minha saúde mental melhorou muito. Hoje me sinto mais focada e menos estressada”, afirma. Para ela, o maior ganho foi a sensação de segurança. “Sentir que sou capaz de me defender em algumas situações me trouxe muito mais tranquilidade para andar sozinha na rua”, completa. Quando questionado sobre o papel do esporte diante de um cenário tão alarmante de violência contra a mulher, Érico Vinícius não tem dúvidas da importância do jiu-jítsu. Para ele, mais do que ensinar a reagir, treinar em um ambiente seguro é fundamental para gerar autoconfiança, fortalecer corpo e mente e mostrar que as mulheres não precisam viver com medo. “O jiu-jítsu, nesse contexto, se torna não apenas uma arte marcial, mas uma ferramenta de liberdade e empoderamento, capaz de mudar histórias e oferecer esperança”, afirma. A escola For Christ Jiu Jitsu inaugurada recentemente já recebe novas alunas para a formação das turmas femininas. Por lá, eles combinam técnicas do jiu-jítsu com movimentos de krav maga, arte marcial israelense voltada para defesa pessoal (Arquivo pessoal) Outra iniciativa vem abrindo espaço para mais mulheres no tatame em Praia Grande. A escola For Christ Jiu Jitsu, comandada pelos professores Cristiano Donizeti Pinto e Carlos Ribeiro e Guilherme Fuzari, inaugurada no último dia 12, já recebe novas alunas para a formação das turmas femininas. Mesmo antes da abertura, as aulas para mulheres já acontecem às terças e quintas. A ideia é estimular a participação desde o início e garantir que, no dia da inauguração, os grupos estejam estruturados. Os professores trazem experiência de outros projetos, onde já havia forte presença feminina, inclusive em turmas mistas, e decidiram dar continuidade a esse trabalho em um novo espaço. O foco agora é ampliar o acolhimento e criar um ambiente seguro para quem deseja começar no jiu-jítsu. As aulas combinam técnicas do jiu-jítsu com movimentos de krav maga, arte marcial israelense voltada para defesa pessoal. O professor Cristiano conta que muitas mulheres já procuraram a escola em busca de autodefesa. “Diversas alunas vieram para aprender a se defender, pois passaram por situações e até casos de violência”, diz ele. Entre as alunas, algumas histórias mostram como o jiu-jítsu vai além do preparo físico. Edilaine Cerqueira dos Santos Pinto, 41 anos, faixa preta e praticante de artes marciais há nove anos, lembra do medo que sentia na adolescência por conta do assédio. “Já passei por situações de assédio, principalmente na adolescência, e isso gerava muito medo de andar na rua. Hoje, com o Jiu-Jitsu, me sinto mais preparada”, relata. Nem todas chegam ao tatame com anos de experiência. Para algumas, como Márcia Mendes Cordeiro, 56 anos, o jiu-jítsu surge como uma resposta direta a situações de vulnerabilidade vividas ao longo da vida. “Já me senti ameaçada. A luta ajuda a gente a se manter firme e até mesmo a se colocar diante de uma pessoa que venha na nossa direção com más intenções”, relata. Além das turmas exclusivas, a academia também mantém horários mistos, reunindo homens e mulheres no tatame. O objetivo é dar liberdade para cada aluna escolher o ambiente em que se sente mais confortável. REPORTAGEM FEITA COMO PARTE DO PROJETO LABORATÓRIO DE NOTÍCIAS A TRIBUNA - UNISANTOS SOB SUPERVISÃO DA PROFESSORA LIDIANE DINIZ E DO DIRETOR DE CONTEÚDO DO GRUPO TRIBUNA, ALEXANDRE LOPES