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Quarta-feira

23 de Outubro de 2019

Zagueira da Seleção começou no atletismo e escolheu posição minutos antes de peneira

Natural de Mongaguá, Tayla é uma das 23 jogadoras que vão vestir a camisa do Brasil na Copa do Mundo de Futebol Feminino

Assim como sua companheira de zaga Kathellen, Tayla leva o nome da Baixada Santista à França, país-sede da Copa do Mundo de Futebol Feminino deste ano, que começa nesta sexta-feira (7). Natural de Mongaguá, a camisa 4 é uma das 23 jogadoras que vão vestir a camisa da seleção brasileira ao longo do torneio, no qual o Brasil estreia no domingo (9), frente a Jamaica.

Este será o terceiro Mundial de Tayla, que tem 27 anos, defende o Benfica, de Portugal, e construiu a base de sua carreira no Santos, por onde teve duas passagens. A defensora esteve presente na Copa do Mundo de 2015, no Canadá, e na Copa do Mundo sub-20 da modalidade em 2012, no Japão. Da última competição para cá, segundo Tayla, houve um grande amadurecimento por parte da jogadora.

"Em quatro anos, a gente evolui mentalmente, profissionalmente, e, claro, seguimos melhorando. Experiência conta muito, mas o empenho é o mesmo de 2015", disse a atleta em entrevista à Tribuna On-Line, antes de destacar a novidade que tem para esta Copa. "De diferente, tenho uma cirurgia, que fiz em 2016. Tive que me adaptar a ela e precisei me cuidar muito para este Mundial, mas estou bem", declarou.

A mongaguense é a camisa 4 da seleção brasileira feminina (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Há dois anos, a mongaguense sofreu uma grave lesão que a afastou dos gramados por um longo período. Antes dos Jogos Olímpicos do Rio, para os quais ela havia sido convocada para disputar a medalha de ouro inédita com o Brasil, ela teve uma ruptura de tensão calcâneo que a submeteu a uma intervenção cirúrgica. Foi quase um ano e meio de recuperação até a volta dela à Seleção, em junho do ano passado.

Esse tempo foi justamente quando ela retornou às Sereias da Vila após oito temporadas, e ela relembra com carinho essa volta em meio a uma fase difícil em seus anos de futebol. "Decidi me recuperar no Santos porque estaria próxima de casa, pela estrutura sensacional e porque sempre tive um bom relacionamento com o Modesto (ex-presidente do Peixe). Sempre me acolheram da melhor maneira, sempre", disse.

Mesmo após uma cirurgia delicada no pé e uma extensa recuperação, Tayla foi eleita a melhor zagueira do Campeonato Brasileiro e do Campeonato Paulista em 2018. Na competição estadual, ela ainda triunfou com o Peixe, sendo campeã. Em 2017, faturou o Brasileirão. 

Atleta do Benfica desde janeiro deste ano, com contrato de uma temporada e meia de duração, a zagueira não ficou sem título em 2019. Em Portugal, ela jogou a segunda divisão nacional, campeonato em que a equipe feminina do clube lisboeta, por ser recente, foi obrigada a competir e tirou de letra, conseguindo a taça e o acesso à elite.

"Escolhi a dedo ir para o Benfica. É meu primeiro clube fora do Brasil, e escolhi ir para um lugar em que se fala a mesma língua. Gosto de me sentir segura onde estou, e no Benfica tem muitas brasileiras. Embora seja Europa, a liga portuguesa ainda está em desenvolvimento. O projeto é super ambicioso, já montaram um time super forte", contou Tayla.

Tayla com seu prêmio de melhor zagueira do Paulistão 2018 (Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)

Das pistas de atletismo ao teste no Santos

No futebol, o começo de tudo para Tayla foi aos 15 anos. Caiçara que é, ela batia bola na areia da praia, jogava na rua, na quadra, mas nunca havia experimentado futebol de campo até fazer o teste no Santos, em 2008. "Escolhi a posição que ia atuar na peneira minutos antes dela acontecer, em uma lanchonete. Meu tio me ajudou e a gente escolheu lateral-direita. Para ele, era uma das posições mais fáceis. Ele me passou algumas coisas para fazer e acabou dando certo. Eu passei", relatou. 

Como antes de fazer do campo seu habitat ela se dedicava ao atletismo, o potencial físico, a altura (1,73m), as pernas longas e o perfil promissor chamaram a atenção do então técnico Kleiton Lima, conforme rememora Tayla. "Ele observou que eu era alta, forte, e me colocou na zaga, e lá eu me mantive. Na rua e na escola, sempre joguei de atacante. Era aquela coisa de pegar a bola e sair driblando todo mundo, coisa que todo jogador que está iniciando faz", recordou.

A camisa 4 começou nas Sereias da Vila em uma época que o Santos era uma extensão da seleção brasileira. Havia diversas atletas que atuavam pelo Brasil no elenco santista. Portanto, ela não teve tantas oportunidades e acabou jogando pouco até decidir ir para Foz do Iguaçu perseguir seu sonho de ter uma carreira consolidada no futebol.

Para isso, ela contou com o apoio sobretudo de sua avó, de quem ela fala com a voz que deixa transparecer saudade. "Saí de casa aos 17 anos. Foi bem duro. Eu tinha perdido minha mãe fazia alguns meses, muito novinha. Fiquei com minha avó. Ela tinha parado de trabalhar e eu precisava ajudá-la. Foi onde cresci como pessoa", relembrou.

No Paraná, Tayla atuou pelo Foz Cataratas, tradicional equipe de futebol feminino do país. "Foi lá que me destaquei, fiz amizades que vou levar para a vida inteira, fui convocada para a seleção brasileira sub-20", lembrou a defensora, ressaltando o momento de crescimento pessoal e profissional. 

Zagueira 'raiz' e vídeos na lan house

Tayla soma um gol pelo Brasil em todas as suas convocações. Foi na goleada por 6 a 0 sobre a Argentina, na fase de grupos da Copa América de 2014. A zagueira se preocupada mais em fazer o que se pede prioritariamente de uma boa beque central, que é defender, embora treine para ajudar também na frente, conforme ela conta.

"Não sou uma zagueira que faço muitos gols, infelizmente. São poucas as chances que a gente da zaga tem. O Vadão deixa a gente super livre. Ele fala que não quer um time estático, robótico. Ele dá até o exemplo de que se uma zagueira puder ser o elemento surpresa e subir, ele quer que faça", expôs ela, que está tendo a oportunidade de disputar mais uma Copa do Mundo ao lado de suas referências na infância. "Vi Marta, Cristiane e Formiga jogar quando eu era pequenininha. Eu ia na lan house ver vídeos delas. É o mesmo prestígio, a mesma admiração por elas".

Todas as partidas da seleção brasileira na Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019 serão transmitida, de maneira inédita, na TV aberta. A jogadora de Mongaguá diz que a expectativa é a melhor possível para o Mundial e que todas as atletas sabem da responsabilidade de representar o Brasil em rede nacional.

"Tem coisas muito boas acontecendo em relação a visibilidade. É um momento muito especial. Sempre rola um frio na barriga só de vestir a amarelinha. A transmissão é a cereja do bolo. A gente precisa da galera, precisamos do povo brasileiro com a gente", convocou Tayla, antes de avaliar que as seleções de 2015 se fortificaram e chegam com mais potência no torneio deste ano.

O Brasil está no Grupo C do Mundial. Depois da Jamaica, adversária na estreia, no domingo (9), às 10h30 (de Brasília), em Grenoble, as brasileiras enfrentam a Austrália na próxima quinta-feira (13), às 13h, em Montpellier. O último jogo da chave para a Seleção é contra a Itália. A bola vai rolar no próximo dia 18, às 16h, em Valenciennes.

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