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Quarta-feira

26 de Junho de 2019

Vanessa Cristina se revigora através do esporte após acidente: 'Me traz liberdade'

Paratleta de Santos conta sua história de superação por meio do atletismo adaptado depois de ter tido a perna amputada, há cinco anos

Vanessa Cristina é um nome para se guardar na memória e acompanhar de perto no esporte regional. A paratleta ganhou notoriedade no cenário do atletismo adaptado no fim do ano retrasado, quando foi campeã da Corrida Internacional de São Silvestre. Desde então, ela vem empilhando conquistas, colecionando medalhas, se superando e batendo recordes e mais recordes.

A santista tem 29 anos, representa a equipe Unimes/Fast Wheels/Fupes e compete na categoria feminina para cadeirantes desde 2016. Em entrevista à Tribuna On-Line, ela, que é amputada de perna e usa prótese, rememorou com afeição a primeira vez que sentou em uma cadeira de rodas para treinar. "Foi uma sensação de liberdade. Eu me apaixonei, apesar de morrer de medo de cair", contou ela, cuja classe no paratletismo é a T54.

O primeiro encontro entre ela e a cadeira aconteceu oito meses após o acidente que mudou sua vida, ocorrido em 2014. Vanessa, na época, com 24 anos, estava indo de moto para o trabalho quando, em um cruzamento, se chocou contra um carro. E isso a apenas 500 metros de seu serviço. "Meu pé necrosou, eu sentia muita dor, e tive que fazer uma cirurgia de emergência para amputar a perna porque estava correndo risco de vida", relatou.

"Um tempo depois que ganhei minha prótese, um professor me viu em um ponto de ônibus e me perguntou se eu conhecia o esporte adaptado. Foi quando eu fui apresentada ao projeto Fast Wheels. Todos me receberam com muito carinho e faço parte dele até hoje. Meu técnico, o Eduardo Leonel, eu conheci lá", disse ainda ela, que teve o primeiro contato com o atletismo paralímpico na modalidade de arremesso, mas seguiu para as provas de velocidade.

A primeira cadeira adaptada

Já estabelecida nas pistas e treinando com as cadeiras oferecidas pela Fast Wheels, a necessidade de ter uma cadeira de rodas ajustada para ela surgiu conforme seu rendimento no esporte foi aumentando. "Precisava de uma cadeira sob medidas para ter melhor desempenho. Então, com o dinheiro que eu estava guardando para comprar minha casa junto com arrecadações em uma 'vaquinha' online, consegui comprá-la", falou.

Isso foi em 2017, antes de uma da Meia Maratona do Japão, na qual ela estrearia seu novo instrumento. No entanto, a competição em solo japonês acabou sendo cancelada, já que, naquele período, um forte tufão atingiu a região em que ela estava. "Fiquei meio frustrada pela prova não ter acontecido, mas muito feliz de ter buscado minha cadeira lá no Japão".

Os excelentes resultados não demoraram para ser alcançados por Vanessa a partir do momento em que sentou em sua cadeira de rodas. Um mês depois de te-la trazido para o Brasil, a santista foi campeã da São Silvestre pela primeira vez. Daí em diante, os êxitos não pararam de andar ao lado da paratleta, vencedora da Meia Maratona de Lisboa em 2018, convocada duas vezes para representar a seleção brasileira no mesmo ano, no Grand Prix, na Suíça, e na Maratona do Japão, e bicampeã da São Silvestre.

Antes e depois do esporte

Transformador. É assim que Vanessa descreve o impacto que o esporte teve e tem em sua vida. "Eu só tenho a agradecer pelo meu acidente. Hoje, se me perguntar qual vida eu prefiro, se é com ou sem a perna, com certeza é sem. O esporte me traz liberdade, alegria, e, lógico, me faz ficar cada vez mais forte, porque todos os dias eu procuro superar meus limites", confessou.

'Mulheres conseguem'

A paratleta declarou que, quando começou a competir em provas de rua, as pessoas costumavam confundi-la com um homem. "O pessoal pensava que eu fosse homem. Nunca pensavam que era uma mulher ali correndo. Ficavam falando 'vai, garoto!', e eu ficava muito brava e chateada. Hoje em dia, minha cadeira é rosa e meu capacete também para que ninguém confunda e que saibam que não é só homem que corre e que vence, e que mulheres conseguem", falou.

E como conseguem. Vanessa já provou que é uma forte candidata a conquistar uma vaga para os Jogos Paralímpicos de 2020, em Tóquio, no Japão. Conseguir o índice e, consequentemente, garantir o passe para o maior evento multiesportivo do planeta é, no momento, o maior desejo da paratleta.