Surfistas discordam de medida que proíbe acesso ao mar durante quarentena

Sylvio Mancusi, por exemplo, defende que o surfe não exige contato e a prática deveria ser liberada pelas autoridades

Uma das medidas de restrição na Baixada Santista, durante o período de quarentena devido a pandemia do novo coronavírus, é a que diz respeito ao acesso às praias das nove cidades da região. A proibição, que serve tanto para o mar, quanto para a faixa da areia, e, agora, também para o calçadão, virou assunto entre os apaixonados por ondas. Inclusive, entre alguns surfistas profissionais que discordam do impedimento em época de pandemia.

Protagonista de séries do Canal OFF, o big rider Sylvio Mancusi, que vive em Guarujá, sente falta de cair na água, o que costumava fazer de três a quatro vezes por semana. Em conversa com ATribuna.com.br, ele criticou pessoas que estão descumprindo as determinações do governo estadual, prefeituras e autoridades sanitárias, e usou os exemplos do Havaí e da Austrália para julgar a medida que mantém surfistas longe do mar na região e, também, em praias do Litoral Norte.

"Os políticos daqui estão mais preocupados com palanque do que com o que é melhor para a população. Aqui em Guarujá, tem muito idoso. E eles estão por aí, em grupos, no calçadão da praia, em padarias, tomando uma cervejinha. Isso aí pode? E entrar no mar, não pode? No Havaí e na Austrália, está liberado o surfe. Você tendo que surfar a dois metros de distância de cada um", argumentou Mancusi.

Em Santos, por sinal, a prefeitura ordenou, nesta sexta-feira (3), a interdição do calçadão nos sete quilômetros de extensão da orla. Isso porque moradores da cidade não estavam respeitando o decreto da quarentena. Ao longo da última semana, pessoas foram flagradas em aglomerações nos jardins da orla santista, andando de bicicleta na ciclovia e aproveitando o bom tempo na praia, ainda que mantendo certa distância do trecho de areia e do mar.

Surfistas têm pranchas apreendidas na Praia do Boqueirão, em Santos (Foto: Carlos Nogueira/AT)

A fiscalização está de olho em quem ignorar o decreto da Prefeitura de Santos. A Guarda Municipal chegou a abordar, na manhã deste sábado (4), dois praticantes de surfe e apreender suas pranchas ao deixarem a água. A ação foi similar a uma em Guarujá, na última semana, em que uma mulher foi detida após furar bloqueio na Praia de Pitangueiras,

Exceção para surfistas?

Sylvio Mancusi propôs que houvesse uma exceção para surfistas e banhistas, desde que estes não esquecessem de adotar medidas de segurança, como o distanciamento. O profissional diz entender as medidas para evitar que pessoas se aglomerem por aumentar o risco de transmissão do novo coronavírus. No entanto, ele acredita que o surfe, por ser é uma prática e um esporte que não exige contato entre pessoas, não haveria problema em "liberar" o mar para praticantes.

Além de prejudicar surfistas da Baixada Santista que competem profissionalmente e estão em isolamento social na região, Mancusi defende que a proibição afetará a saúde também dos amadores e daqueles que surfam simplesmente por hobby. "Com certeza, os que estão podendo surfar vão se dar melhor que os que não estão. Mas acho que o caso é ainda mais abrangente. É um serviço de população mesmo. A quantidade de surfista que vai ficar com a imunidade mais baixa... Esse é um ponto", opinou.

O que pensam os competidores da elite

Quem concorda com Mancusi é outro surfista profissional: Deivid Silva, também de Guarujá. De quarentena na Prainha Branca, em Bertioga, o atleta tem vaga para o Circuito Mundial, a elite do surfe, pelo segundo ano consecutivo. As primeiras etapas, porém, foram suspensas devido aos milhares casos da Covid-19 no planeta. Mas, embora discorde da proibição ao surfe na região, Deivid afirma estar seguindo à risca as orientações das autoridades em saúde, prefeituras e do governo do estado, ainda que quisesse estar se preparando devidamente para as competições.

"Eu não concordo muito em proibir surfar, mas estou respeitando este momento e não estou indo. Estou procurando outros meios de treinar fora d'água. Em casa, por meio de vídeo, com meu preparador físico. Mas ficando em casa com a minha família durante este período", falou ele.

"Nós surfistas profissionais precisamos dar o exemplo, embora olhemos as ruas e vejamos crianças, idosos e jovens circulando. Isso nos deixa um pouco tristes por estarmos em casa sem poder trabalhar, mas estou fazendo a minha parte para que isso tudo acabe o mais rápido e a gente possa voltar a surfar e, principalmente, a competir", complementou Deivid Silva.

Deivid Silva, de Guarujá, compete na elite mundial do surfe (Foto: Reprodução/Instagram)

Outro guarujaense que está na cidade desde o início da quarentena é Caio Ibelli, semifinalista na etapa de Margaret River, na Austrália, no Circuito Mundial do ano passado. Em contato com ATribuna.com.br, o surfista disse entender a situação. "Sei que liberando o surfe, vai causar aglomeração na praia, que muita gente de São Paulo vai vir surfar aqui. Até quem não surfa vai querer sair de dentro de casa para ficar no mar. Então, entendo as medidas que foram tomadas", disse ele.

Ao mesmo tempo, Ibelli revela que gostaria de poder surfar no momento, mas compreende que não vivemos um contexto isolado no Brasil e que o com o mundo inteiro "está no mesmo barco". O atleta de Guarujá, contudo, não acha correta a abordagem da Guarda Municipal aos surfistas, tratando o caso como um crime, e defende a ideia de fechar a faixa de areia e só manter aberta a saída do mar. "Mas isso com fiscalização. Nada de ficar no calçadão ou na areia", propôs.

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