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Sábado

23 de Março de 2019

Rose Volante fala sobre combate com Katie Taylor: 'O cinturão não tem dono'

A pugilista encara a irlandesa na próxima sexta (15), na luta que será o maior desafio de sua carreira profissional

Onze anos após começar a praticar boxe para mandar a obesidade à lona, Rose Volante tem o maior desafio da carreira profissional. Na sexta-feira (15), a paulistana e a irlandesa Katie Taylor colocarão três cinturões em jogo no combate marcado para a Filadélfia, nos Estados Unidos.

Campeã mundial da categoria peso-leve (até 61 kg) pela Organização Mundial de Boxe, Rose The Queen Volante (Memorial), de 36 anos, encara a irlandesa, 32, dona dos cinturões peso leve pela Associação Mundial de Boxe e pela Federação Internacional de Boxe. Um embate que além dos títulos envolve duas boxeadoras invictas. Volante tem 14 vitórias em 14 combates, oito delas por nocaute. Em 12 lutas, Taylor tem 12 triunfos, cinco por nocaute.

Do início no esporte, quando a meta era ver o ponteiro da balança baixar dos 105 quilos, Rose tomou gosto pela nobre arte. Destaque no boxe amador, foi à Olimpíada de Londres como reserva, em 2012, quando sua hoje oponente conquistou a medalha de ouro.

Profissional desde 2014, The Queen sonhava com o título mundial, que veio em 2017, contra a argentina Brenda Carabajal. Primeira brasileira campeã do mundo no boxe, Rose quer mais. Em conversa com A Tribuna, ela falou sobre a sua vida e os seus objetivos.

O que mudou nesses 11 anos de boxe, quase seis deles como profissional?

R: No começo era só uma luta pra eu ter a sensação de subir no ringue. Em 2014, fiz a estreia (profissional) no Rebouças e dei o primeiro passo rumo ao título do mundo, conquistado na Argentina em 2017. O meu amor e a minha vontade de lutar permanecem os mesmos. Agora a gente busca algo novo. Essa luta tem um peso maior, são três cinturões em jogo, a ansiedade, a adrenalina, a vontade estão a mil.

Como é encarar esse desafio que vale por três?

R: Estão cogitando a luta como a mais esperada do boxe profissional feminino. É uma luta dura para as duas campeãs do mundo. Ela tem uma carreira grande no amador, eu comecei mais tarde, mas também tive uma história no amador. Estou treinando bastante pra voltar pra casa fazendo história, como a gente fez na Argentina. Uma vez que o cinturão está em jogo, ele tá na mesa, não tem dono. A luta vai ser decidida em cimadoringue. 

Você disse em uma entrevista que o cinturão é como um filho. Como é colocar um filho em disputa?

R: É, ele (o cinturão) fez um ano agora, é o meu bebê (risos). E ele já vai estar em jogo, mas eu vou voltar com ele e os dois irmãozinhos.

Por falar em filhos, você pensa em ser mãe?

R: Comecei a carreira tarde e tem mulheres que lutam até os 50 anos. Eu pretendo lutar mais, de acordo com a minha saúde e os meus treinamentos. Ser mãe não é uma coisa que eu queira, nem futuramente. Tenho seis sobrinhos, ajudei a cuidar, acho que já deu, né?

Tem idade para parar?

R: Eu não tenho uma data, assim como também comecei sem data. Enquanto eu estiver bem, tiver colhendo os resultados, quero colher os benefícios do esporte.

Você vai lutar na semana do patrono irlandês, São Patrick, uma motivação a mais para a KatieTaylor.

R: Como na Argentina. Era dia do aniversário da cidade de Jujuy, a festa também era pra Brenda (Carabajal). O ginásio tava lotado, 6 mil pessoas, todo mundo gritando o nome dela. E lá (nos Estados Unidos) vai ser a mesma coisa.

Então você está preparada para esse clima adverso.

R: A capacidade do ginásio lá é de 10 mil pessoas. Aí entra a realização do sonho de lutar nos Estados Unidos, com a casa lotada, porque eu via isso na TV.

Como você está estudando a KatieTaylor?

R: Conheço ela do amador. No Mundial da China, em 2011, pude acompanhar a luta dela, embora eu fosse de uma categoria acima. Ela era 60 kg e eu, 64 kg. O que a gente tem mais treinado é a estratégia da luta. 

Qual o ponto forte dela?

R: É a velocidade, vai ser um choque contra o que eu tenho de bom, a agressividade e a vontade de lutar. Vai ser uma grande luta.

Como está o seu inglês?

R: Meu inglês é que nem o do Joel Santana: the book is on the table (risos). Vamos com alguém que saiba falar pra ajudar a gente.

Se falasse inglês, o que diria para a gringa?

R: Acho que vou falar com os punhos, é o meu melhor idioma, porque o meu inglês é péssimo.

Como é a vida fora do boxe? O que você gosta de fazer?

R: Vou ao cinema, teatro, parque, programas tranquilos. Nunca fui de balada.

Gosta de outros esportes?

R: Gosto de assistir vôlei, basquete e futebol. Sou palmeirense.

Em termos financeiros, o que mudou em sua vida como boxe profissional?

R: Eu não conseguia viver do esporte, tinha que trabalhar bastante, dava muitas aulas, treinava com muita dificuldade em São Paulo. Sou de uma família humilde, meu pai é pedreiro, minha mãe é do lar, tive que conciliar isso. Depois que vim pra Santos mudou muita coisa, porque recebo patrocínio da Memorial. Comecei a só treinar e, com o que ganho, consigo me manter e ajudar minha família. O dinheiro das lutas eu sempre deixo guardado.

Em algum momento pensou em desistir do boxe?

R: Em setembro de 2017 ia parar, porque não tava conseguindo conciliar, tava cansada. Falei com o Felipe (Moledas, técnico) que faria a última luta. Ele disse que conversaria com o seo Pepe (Altstut) pra me trazer pra Santos. ‘Você moraria aqui?’, perguntou. ‘É lógico!’, eu disse. Vim em outubro e em dezembro fui pra Argentina (onde foi campeã mundial).

Como a família vê a sua carreira?

R: Minha mãe ama luta, me acompanhou desde o começo. Mas ela não assiste lutas minhas, só a última que passou pelo SporTV (defesa do título mundial contra a colombiana Yolis Marrugo, em setembro passado, vencida por Volante). Ela me motiva, me ajuda muito.

E o seu pai?

R: Tem um pouco de medo, mas gosta também, tira foto com luvas de boxe. Meus dois irmãos também, sempre tive o apoio deles.

Como é conviver com os ídolosdo boxe brasileiro?

R: O Eder Jofre virou amigo. Se eu fosse menino, meu nome seria Eder. Todo evento que eu vou ele está, é a realização de um sonho você conviver com uma pessoa que sempre admirou.

O que você fazia antes de se tornar boxeadora?

R: Quando comecei no boxe estava fazendo faculdade de Direito e era estagiária, mas tranquei no quarto ano, em 2008. Não consegui conciliar, porque não tinha mais como pagar e perdi o estágio. Trabalhava no Subway de madrugada até as 6 horas e ia direto pra academia. Dormia no banco da academia até as 8 horas, treinava e ia pra casa ajudar minha mãe, depois ia trabalhar de novo.Trabalhei em pizzaria, de garçonete. Depois, no boxe amador, tinha o bolsa atleta, mas era pouco dinheiro, aí comecei a dar aula de boxe. 

Já teve que usar da força física em alguma situação na sua vida pessoal?

R: Uma vez um rapaz me empurrou no metrô em São Paulo e derrubou tudo o que eu tinha na mão. Pensei ‘por que eu vou...’. Saí andando, sou bem da paz.

Não pensou em dar uma bordoada nele?

R: Não, isso (vontade de bater) só desperta quando eu vou lutar mesmo.

Você é evangélica. A religião ajuda no esporte?

R: Acho que toda religião que te impulsiona a buscar Deus, seja o Deus que a pessoa crê, a ser uma pessoa melhor e fazer o bem, é válida. No meu caso ajuda a ter mais controle e sempre fazer o bem, independente do que acontecer.

Você tem um ritual em dia de luta?

R: Em luta e em treino faço sempre a mesma coisa. Oro pra que Deus me proteja e me guarde, que não me machuque e que ninguém que esteja comigo se machuque, porque é umtrabalho como qualquer outro que envolve riscos.

Mas para ganhar a luta você tem que machucar a adversária, não?

R: Pode ser por pontos, que não haja nada grave.

Você já se machucou seriamente no ringue?

R: Quebrei o nariz em um treino na Olimpíada de Londres, em 2012. Operei quando voltei ao Brasil, tirei os cornetos nasais. Foi bom, porque não sabia que tinha desvio de septo, hoje respiro que é uma beleza.

A sua categoria é de até 61 kg. Consegue manter o peso facilmente?

R: Chego a ficar dois, três quilos acima. Costumo dizer que pra quem perdeu 40 quilos, o que é perder quatro? (risos).

As pessoas te reconhecem na rua?

R: Aqui em Santos bastante. Às vezes tô correndo na praia e falam: ‘Vou emagrecer e ficar que nem você!’ ‘Vai lá e quebra essa gringa!’.(risos).