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Sexta-feira

23 de Agosto de 2019

Educadores físicos relatam como o esporte muda a vida de crianças e adolescentes autistas

Professores contam como adaptam o muay thai e a natação para alunos com espectro autista, e como a prática esportiva promove a inclusão e é aliada no tratamento do transtorno

O esporte é uma das mais importantes ferramentas de elaboração de qualidade de vida. Quando se trata de crianças e adolescentes com espectro autista, a prática esportiva ganha ainda mais relevância. Afinal, além de ela ser uma grande aliada no tratamento do transtorno, ainda promove a inclusão.

Pensar nos benefícios da atividade física à pessoa autista levou o professor de muay thai Otavio Ungaretti, gestor da Academia Ungaretti Fight Center, em Santos, a criar um projeto voltado para crianças, jovens e adultos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Se chama Muay Thai Azul, nome em alusão à cor que representa o autismo.

Na data em que se comemora o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, nesta terça-feira, 2 de abril, o educador físico recorda como surgiu a ideia de incorporar a arte macial aos recursos terapeuticos para autistas, e destaca como o esporte pode acolher socialmente e gerar uma certa independência.

"Tudo começou em outubro de 2017. As sócias-proprietárias do Grupo de Avaliação Diagnóstica e Intervenção [GADI] entraram na minha academia para praticar a modalidade. Fiquei sabendo do trabalho delas, fui acompanhando, e elas me convidaram para levar alguns pacientes na academia. Fomos experimentando e, em novembro, tivemos nosso primeiro aluno", contou Otavio à A Tribuna On-Line.

Hoje, o projeto atende 24 alunos dentro da iniciativa, sendo a maioria adolescente. Todos eles passam por tratamento no GADI. De acordo com o professor, o trabalho realizado no ringue é complementar e potencializador da terapia pela qual eles passam no consultório, com os treinos acontecendo gradativamente, em três estágios: individual; depois com uma turma com outros alunos com TEA do GADI ou com alunos regulares, mas sendo guiado por um professor; e, por último, sem a tutela do educador.

Um dos contemplados pelo projeto é Carlos Alberto Jorge Junior, o Caco, de 20 anos. Ele começou a praticar a luta macial no Muay Thai Azul há mais de um ano e, segundo Otavio, a principal evolução de seu aluno de lá para cá foi no que diz respeito à inclusão e autonomia.

"Foram resultados em pararelo aos do GADI. Ele participa das aulas, ajuda e se preocupa com os colegas. Apesar de ele ter entrado na academia com a intenção de ficar mais forte e para ficar próximo de seus amigos, hoje em dia ele está envolvido com o esporte e pensa nas próximas graduações do muay thai. A autoestima dele também melhorou muito, além de ter ganhado mais independência para cuidar de dinheiro, andar de ônibus e até conversar melhor", ressaltou.

Do ringue para a água

Outra atividade física procurada por pais e responsáveis de crianças e adolescentes com espectro autista é a natação. Isso porque a modalidade oferece possibilidades de estímulos e desenvolvimento necessários à pessoa que possui o transtorno, e é muito indicada por psicólogos e psiquiatras.

Foi uma recomendação profissional que fez a relações públicas Valeria Ratto matricular seu filho de Nicolas Nobiling, hoje com 15 anos, mas na época com dois, nas aulas de natação. Ele havia sido diagnosticado como autista não-verbal há pouco tempo, e a mãe optou pelo esporte como um dos métodos terapêuticos.

De lá para cá, a modalidade, adaptada para quem possui TEA, vem sendo uma parte fundamental de seu tratamento. A mãe conta que, nos dias em que ele está na piscina, ele dorme melhor. "Quando ele nada, ele vai para a cama mais cedo e tem um sono mais pesado", afirmou ela. 

Nicolas é aluno da educadora física Amanda Godoy, idealizadora de um projeto de natação para pessoas com espectro autismo, que é realizado na Academia Integral Core, em Santos.  

"A iniciativa surgiu da necessidade de alguns alunos autistas que eu tinha precisarem de um atendimento individualizado por conta das crises e comportamentos. Hoje, eles são em 12. Cada um tem uma necessidade especial, e as aulas são geralmente em horário em que a piscina está sem barulho e sem muita gente. A natação é o esporte mais completo que existe neste caso", explicou a professora.

Entre os cuidados tidos por ela durante o trabalho, está o de não falar alto. "Muita agitação pode acabar com a aula deles", esclareceu ela. Na piscina, ela realiza exercícios de estimulação com brinquedos e de hidroginástica com seus alunos, com a modalidade sendo adequada conforme as limitações e necessidade dos jovens.

"A Amanda usa cores, animais e etc na aula, sempre com objetivo. Fica parecendo tanto uma aula de natação quanto uma terapia. Ela pega dicas com os terapeutas e acompanha o tratamento", disse Valeria.