Setor da cultura pode ser chave para retomada da economia de Guarujá

No pais, segmento movimento R$ 170 bilhões. Além da questão econômica, o setor é responsável por gerar empregos diretos e indiretos e a capacitação e formação de crianças, jovens e adultos

O próximo prefeito de Guarujá pode encontrar na cultura um ponto de geração de renda e empregos, caso promova investimentos e fomentos acertivos ao setor. Ou, também, pode ser um desafio cheio de embates, pelas cobranças que sofrerá, dos produtores culturais da cidade, já que muitos tratam a cultura como um ponto não tão necessário e importante para a sociedade.

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Nesse momento de isolamento social, algumas pessoas tem na cultura o único ponto de fuga, entretenimento em tempos de pandemia. Seja um filme, uma novela ou uma música, muitas pessoas estão conseguindo passar momentos de lazer por conta de produções culturais.

No Brasil, a cultura movimenta cerca de 2,6% do PIB, o equivalente a R$ 170 bilhões. As atividades culturais e criativas são responsáveis por mais de um milhão de empregos formais diretos, segundo estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN), com base em dados do IBGE. Há no setor cerca de 250 mil empresas e instituições que trabalham tanto para produzir arte quanto para formar artistas. Um setor desse porte pode ser tanto um aliado para o próximo prefeito quanto um catalisador de embates, entre a classe artística e o poder público.

Movimento combativo na cidade

Artistas que fomentam a cultura da cidade reclamam da necessidade de políticas públicas voltadas para o setor. O movimento teatral historicamente sempre está na linha de debate com o governo, sempre propondo melhorias e lutando por conquistas. Em Guarujá, a cultura é um movimento fortalecido em vários segmentos, como teatro, dança, música, e que participam atuantemente nos conselhos municipais reivindicando melhorias para os artistas.

Marcelo Wallez, um dos sócio fundador da Casa 3, está há dois anos participando do conselho municipal da cultura. Conforme foi participando desse universo que são as políticas públicas, ele foi enxergando o quanto o setor é carente de investimentos por parte da prefeitura. Além dele, outros artistas também estão pleiteando junto ao governo um edital de projetos de apoio cultural que seja permanente aos moldes do que acontece em Santos. Um projeto desses garante anualmente uma injeção de dinheiro para produtores independentes realizarem projetos que muitas vezes são gastos em cachês, no que impacta diretamente em trabalhos formais e informais. O que acaba por fim movimentando o consumo na cidade.

“Queremos um fomento que trabalhe com os coletivos que já tem um histórico de formação. Nesse momento de pandemia é imprescindível. Estamos fechando escolas, trabalhadores culturais arranjando outros tipos de empregos. Se não houver um olhar atento para os trabalhadores e fazedores da cultura, teremos um terreno, daqui para um ano, deserto para a cidade. Somos muitos e cabe ao governo, enquanto possibilitador de políticas públicas, esse olhar atento e facilitador”, conta Marcelo.

O setor da cultura, como muitos outros, é um dos mais prejudicados. Não se sabe quando poderão voltar e acabaram por ser um dos primeiros a parar. Sempre relegados como segunda, terceira, quarta escolha ou invisibilizados, os artistas estão planejando uma sabatina com os postulantes à prefeitura para entender melhor o plano de governo para a cultura que todos estão planejando.

Para o ano que vem, é de extrema importância que o novo prefeito entenda o ponto central da arte como geradora de oportunidade e de renda. Além disso, ela precisa ser descentralizada, chegar às comunidades para de fato ter o real impacto positivo que pode ter sobre as pessoas.

Marcelo explica que o planejamento é para um permanente acesso dessas pessoas à cultura. “Oferta de cursos culturais para todos também é muito importante, a arte tem que chegar nessas pessoas e não está chegando. O potencial transformador da arte só será possível se tivermos um governo que saiba utilizar as ferramentas de incentivo à cultura. Não aceitamos mais a balela de que não há dinheiro para saúde, educação e cultura, mas para os acórdãos sempre há. Não podemos nos abater e deixar que as coisas fiquem como estão. É embate todos os dias e arte todos os dias, novos tempos virão com um novo pensamento de qual é o nosso papel nessa estrutura”, finaliza Marcelo.

E os formandos pela arte?

Eduardo Bordinhon, 33, é um clássico exemplo de como a cultura transforma vidas. Fez parte do projeto casa 3 e hoje está cursando doutorado e mestrado em artes. Formado em artes cênicas em faculdade pública, continuou com o contato dos artistas de guarujá e com as produções da cidade. Ele mora hoje em São Paulo, mas em 2015 conduziu um projeto na cidade de formação livre em artes com uma verba de fomento à cultura. Em 2016, ele ganhou uma bolsa de aprimoramento para realizar um projeto no Guarujá e desde lá atua como co-produtor na casa 3.

“A cidade tem aquele enfoque na experiência do fazer artístico e pouco intercâmbio no aprofundamento do conhecimento dos artistas da cidade. Sempre muito pontual ou iniciante, não há uma política pública voltada tanto para a formação quanto a instrumentalização dos artistas que já estão na carreira. Pensar no uso radical dos mecanismos de participação popular dá um peso e uma importância muito grande ao conselho municipal da cultura. Ouvir os artistas e estar em diálogo constante por reuniões e conferência, é um passo importante que vai delinear uma política que está atrelada ao que o artista precisa", diz Eduardo.

Em médio prazo, um estreitamento cultural com as outras cidades da região e do estado tende a melhorar as experiência de desenvolvimento cultural da cidade. "Emancipando os artistas a fazerem arte, haverá uma maior distribuição democrática tanto do dinheiro, quanto das experiências que serão levadas a públicos que nunca puderam ir a um teatro, por exemplo”, finaliza Eduardo.

A arte como um dos pontos de transformação da sociedade é fundamental. Mas em tempos que cada vez mais pessoas estão na informalidade ou procurando uma oportunidade, gerar a possibilidade de que cidadãos construam projetos que atendam comunidades e gerem empregos, é um dos desafios da próxima gestão.

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