Combate à poluição marinha requer investimento na causa do problema em Santos

ONGs de Santos apontam que as principais fontes de poluição do mar vêm de rios e estuários em que as margens são ocupadas por submoradias

Bitucas de cigarro e embalagens de plástico estão entre os itens mais encontrados nas praias de Santos durante a alta temporada. Mas, quando o assunto é poluição do mar, esses não são os únicos vilões.

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De acordo com Organizações Não Governamentais (ONGs) da cidade, as principais fontes de poluição do mar vêm de rios e estuários em que as margens são ocupadas por submoradias.

Por se tratar de áreas de ocupação irregular, os chamados aglomerados subnormais não contam com coleta de lixo nem esgotamento sanitário - em Santos e outras cidades da região, essas áreas são caracterizadas pela presença de palafitas.

“Estamos em pleno século 21, com uma crise climática gravíssima comprometendo a vida de toda a humanidade. É inaceitável que ainda existam pessoas e corporações que descartam seus dejetos na natureza sem o correto encaminhamento ou tratamento”, diz o presidente da ONG Santos Lixo Zero, André Tomé.

Ele destaca que há dezenas de milhares de pessoas que moram em Santos, São Vicente, Guarujá e Cubatão em áreas de ocupação irregular, onde não há saneamento básico.

“(Nessas áreas) os resíduos são descartados no estuário e chegam às praias com a variação das marés. Essa é a origem da grande maioria do lixo. Pagamos uma fortuna para a empresa contratada passar um trator diariamente e coletar os resíduos que chegam à areia, mas nada é investido na causa do problema. O que as limpezas de praia pegam é apenas o microlixo que passa pelos garfos do trator”, diz.

Embaixador do Instituto Lixo Zero Brasil, André afirma que é preciso que o poder público invista em ações efetivas na causa do problema que leva à poluição marinha.

“É preciso investir em habitação, educação, abrir um diálogo sério e corajoso sobre o uso de produtos plásticos de uso único, discutir o orçamento municipal com a população, o que deve ser estimulado através de isenção fiscal, para além de uma gestão de resíduos moderna e alinhada às necessidades de reduzir a queima de combustíveis fósseis e conter o aquecimento global”.

Importância dos manguezais

Presidente do Instituto EcoFaxina, o biólogo marinho William Rodriguez Schepis também reforça que as principais fontes de poluição do mar vêm de rios e estuários em que as margens são ocupadas por submoradias.

“Hoje, estudos já mostram que os rios e estuários de países onde há a desigualdade social de submoradias em margens, sem tratamento de esgoto e coleta de lixo, são os maiores contribuidores para a poluição marinha”.

Ele conta que os resíduos depositados nesses locais têm como característica a origem domiciliar, como embalagens de produtos, de alimentos, fármacos e pinos de cocaína, além de hastes de cotonetes e de pirulitos. “Com a movimentação da maré esses resíduos são transportados. Duas vezes por dia a maré desce e carrega esses resíduos e o esgoto para a Baía de Santos”.

Como as áreas de moradia irregular não contam com serviços de coleta de lixo nem esgotamento sanitário, William destaca que a educação ambiental não funciona.

“Já é um costume, tem até uma forma de dizer para descartar na maré que a maré é um lixeiro. Só que essa maré é um lixeiro que não tira o resíduo, ele só

leva para outro lugar, que são as praias e os manguezais onde o resíduo se espalha e fica por muito tempo”.

Para o biólogo, é preciso que os municípios valorizem os manguezais porque eles têm inúmeras funções, e uma delas é atuar como um filtro biológico que regula a qualidade da água. “Se não houvesse os manguezais aqui, a gente teria uma balneabilidade muito pior”, destaca.

“O manguezal tem muita importância para a faixa de proteção costeira. Muitas famílias dependem do manguezal para subsistência, para pesca, e eu acho que é essa consciência que a população tem de ter, e não tratar o manguezal como uma área propícia para jogar resíduo, desmatar, ocupar”, finaliza.

Lixo nas praias

O presidente da ONG Ecomov, Rodrigo Azambuja, destaca que os tipos de resíduos descartados nas praias variam de acordo com a época. “Os impactos dos resíduos na época de baixa temporada muitas vezes vêm de itens do consumo doméstico, como resíduos de produtos de higiene, de limpeza e alimentos”.

Já no verão, ele conta que é mais comum encontrar resíduos de produtos consumidos nas próprias praias, como garrafas pet, tampas de garrafa, lacres de latas de alumínio e bitucas de cigarro.

Segundo ele, os chamados microlixos, como tampinhas e canudos, são os mais encontrados nos estômagos de animais na época de alta temporada. “Se você fizer uma varredura da Ponta da Praia até o Emissário, vai ver que 90% desses materiais são de origem de consumo local”.

“O que se prevê daqui para o futuro é um trabalho de mais intervenções nas praias e campanhas de conscientização”, diz Rodrigo, que destaca a importância da mobilização da sociedade civil.

Prefeitura

Em nota, a prefeitura de Santos destaca que em setembro deste ano foram instaladas 12 barreiras flutuantes nos canais de água pluvial que cortam a cidade, cujo objetivo é reter os resíduos descartados indevidamente que acabam indo para os canais e, consequentemente, para as praias.

A municipalidade informa, ainda, que estão sendo realizadas reuniões com a comunidade do Dique da Vila Gilda, em parceria com o Instituto Arte no Dique, para definir novas formas de coleta de resíduos em palafitas e ações de educação ambiental, com o engajamento de jovens da comunidade.

A prefeitura reforça que o município conta com diversos programas em relação ao combate à poluição marinha e ao descarte de lixo nas praias, como o Programa de Identificação das Fontes de Resíduos Marinhos; Santos pelo Oceano; Areia Limpa; e o programa Pesca Fantasma.

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