Artistas de Santos pedem mais oportunidades de trabalho na cidade

Pandemia agravou a precariedade de quem vive da arte no município.

A cultura está entre os setores mais afetados pela pandemia de Covid-19. Sem fonte de renda, artistas estão tendo que depender de incentivos do Poder Público para sobreviver. No entanto, a precariedade para quem trabalha com arte já era uma realidade antes mesmo da pandemia.

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Em Santos, uma das principais dificuldades está ligada à falta de oportunidades de emprego, segundo artistas da cidade ouvidos por ATribuna.com.br. O diretor e coreógrafo de dança Edvan Monteiro, 40 anos, destaca a dificuldade das companhias e dos grupos independentes de dança.

“Não há oportunidades para companhias e grupos independentes, exceto para aqueles que possuem uma trajetória profissional consolidada em matéria de pesquisa constante, daí você pode ter uma oportunidade melhor de mercado em instituições privadas, em editais, participar de mostras internacionais, bienais e ser convidado para abertura de festivais nacionais e internacionais, por exemplo”.

Segundo ele, a demanda em escolas e academias de dança é diferente, pois o profissional precisa dedicar muito do seu tempo dando aulas para receber uma renda que compense, o que o impossibilita de investir tempo na realização de novos projetos.

“Espero que muita coisa seja mudada em termos de incentivos públicos. Precisa melhorar os editais, por exemplo, dividindo por segmento com valores que respondam às demandas de cada linguagem artística separadamente; ter mais espaços físicos para desenvolvimento de pesquisa e formação continuada de artistas profissionais; e ter projetos de circulação de grupos e cias profissionais com cachê e estrutura adequada”, afirma.

Informalidade

Presidente do Conselho Municipal de Cultura de Santos, o ator e arte educador Junior Brassalotti destaca que quem trabalha com cultura normalmente está ligado à informalidade, exceto no caso de servidores públicos.

“Quem ganha dinheiro com cultura são funcionários públicos da cultura, gente que trabalha em algumas empresas relativas a isso”. Segundo ele, não há um mercado formal em Santos que garanta subsistência dos demais trabalhadores da cultura.

Para Brassalotti, é preciso investimento em políticas públicas estruturantes que garantam tanto o acesso do cidadão à cultura como o direito do munícipe de expressar sua arte e ter dela a sua fonte de renda.

“A gente precisa de administrações com visão que consigam entender as falhas históricas que nós temos e colocar essa cidade realmente para frente. Nada disso vai funcionar sem investimento estatal, sem o que o poder público invista nesses espaços, sabendo que investimento nisso não é em obras, precisa ser no ser humano”.

A produtora cultural Mariany Passos, de 33 anos, trabalha na área da música e conta que sua rotina - antes da pandemia - se resumia em se deslocar a outras cidades e realizar inúmeros projetos ao mesmo tempo para conseguir pagar as contas ao final do mês.

“Existem trabalhos informais que até geram renda, nos moldes de música ao vivo, barzinho, violão. Mas, para quem produz e cria, não há muito espaço de crescimento. E o que acaba ocorrendo é o artista ter que sair do seu território para conseguir viver da sua arte”.

Para ela, a expectativa é que o poder público elabore mais chamamentos, projetos e editais. “E que, principalmente, sejam acessíveis, que esses incentivos cheguem a artistas periféricos que produzem arte e cultura, que muitas vezes atuam como lideranças comunitárias, elevam valores e mostram caminhos dentro da sua comunidade e que são esquecidos e mantidos à margem por falta de incentivo, por falta de conhecimento e por falta de acesso”.

Quem também destaca que é difícil conseguir trabalhar com arte na cidade é a arte educadora circense Kelly Jandaia, 34 anos. “Na maioria das vezes temos

que ministrar oficinas, escrever projetos para chamamento de arte educadores, atividades extra curriculares em escolas particulares para garantir o salário do mês. Precisamos de mais incentivo para o fazer arte”.

Ela diz esperar que o poder público cumpra com as metas do Plano Municipal de Cultura. “Moramos numa cidade que possui o Selo de Cidade Criativa em Cinema. É de encher os olhos de qualquer um que trabalha no setor cultural, porém, percebo que os fazedores de arte não se sentem reconhecidos na pompa do selo. Não basta produzir comerciais, novelas, filmes e séries, mas o mais importante é gerar empregos às pessoas ligadas a esse segmento”.

Incentivo

Em nota, a Secretaria de Cultura (Secult) do município informa que tem desenvolvido diversas ações de apoio aos profissionais da cultura nos últimos meses, mantendo recursos dos termos de fomento para projetos da cidade.

A municipalidade também afirma que continua realizando o pagamento do Fundo Municipal de Assistência à Cultura (Facult), que corresponde à liberação de R$ 450 mil para os 30 projetos selecionados, e do 1º Concurso de Apoio a Produções Culturais de Curtas-Metragens.

A Secult informa que lançou em maio o edital do Hora da Cultura Digital, que selecionou 142 projetos. Por meio dele os artistas receberão R$ 650,00. A cidade conta, ainda, com a distribuição de 24 toneladas de alimentos a profissionais da cultura.

A secretaria ressalta que vem se preparando para atender as exigências da Lei Aldir Blanc, criada pelo governo federal, que prevê auxílio financeiro ao setor cultural. Na cidade, foi criada uma comissão que certificou mil artistas e espaços culturais da cidade. O montante recebido pela cidade é R$ 2.684.000,00.

Por fim, a Secult destaca que manteve, com apoio de emendas parlamentares oriundas da Câmara Municipal, recursos para a realização de festivais como o Santos Jazz Festival, Santos Film Fest, Semana do Choro, Semana da Cultura Caiçara e o Fescete, todos em formato online.

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