Volta às aulas vira um problema na Baixada Santista

Opiniões divergentes, cenário atual do Plano São Paulo e angústia de pais, alunos e professores complicam cenário já problemático

Voltar ou não às aulas presenciais? Eis uma questão desafiadora que a pandemia da Covid-19 está impondo à sociedade e ao Poder Público. Após quase um semestre com aulas remotas, a possibilidade do retorno às salas de aula a partir de 8 de setembro, conforme projetado pelo Governo de São Paulo, acabou se transformando em um dilema. É o momento ou não de avançar essa etapa?

Nesta sexta-feira (7), o secretário de Educação do Estado, Rossieli Soares, deve apresentar um novo calendário escolar com base no Plano São Paulo de flexibilização de atividades na quarentena. A expectativa é de que se decida se o retorno às aulas presenciais, ainda que em fases, acontecerá de fato no mês que vem. Para que isso ocorra, 80% do Estado deve estar na fase amarela na atualização desta sexta-feira. Percentual que precisa chegar a 100% até o dia 21.

Enquanto isso, não há consenso. Uns enxergam na volta um perigo à saúde pública, enquanto outros acreditam que já é chegado o momento de retomar as atividades de forma presencial para minimizar riscos pedagógicos e sociais decorrentes do distanciamento das escolas. A Tribuna ouviu pais, professores, especialistas em Educação e autoridades que se dividem. A única certeza é que, a cada dia que passa, um consenso fica cada vez mais difícil.

Depoimentos

“O retorno às aulas presenciais no meio de uma absoluta falta de controle da Covid-19 no Brasil demonstra que as questões importantes para o governo são políticas e supostamente econômicas. A vida dos trabalhadores não é considerada. Não me sinto segura para voltar, ainda mais porque, após mais de dez anos de trabalho em escolas públicas, convivo diariamente com a falta de estrutura básica, como papel higiênico, água, sabonete e até eletricidade. Tenho familiares idosos que dependem do meu cuidado. Voltar ao trabalho presencial significa não só expô-los ao risco de contaminação, mas torná-los ainda mais frágeis psicologicamente. Uma questão importante é que se fala muito sobre os professores, mas não somos os únicos funcionários de uma escola. Inspetores, merendeiras e, principalmente, funcionários da limpeza estarão ainda mais expostos ao risco de contágio. Nós não fomos consultados sobre esse retorno".
Paula D'Albuquerque
38 anos, professora do Ensino Fundamental em Cubatão

“Sou contra a volta porque sabemos como são as crianças. Vão querer abraçar, brincar, dividir material e em algum momento se descuidarão. Também sabemos como funciona a escola. Mal tem papel higiênico no banheiro. Você acha que vai ter álcool em gel? É um perigo porque sabemos que há famílias que não estão se protegendo em casa, enquanto outros vivem loucas para evitar o vírus. Eu não vou mandar meus filhos. Aqui em casa, nós tomamos cuidado, até porque convivemos com meus pais idosos, que são do grupo de risco. Prefiro evitar. Ainda mais porque temo que a cidade não tenha capacidade hospitalar suficiente, caso haja contaminação em massa nesse retorno”. 
Ester Rosângela dos Santos
44 anos, desempregada, mãe de dois filhos em idade escolar, moradora de Itanhaém

“A volta às aulas em meio à pandemia suscita uma questão: responsáveis legais que se negarem a encaminhar seus filhos às escolas respondem por abandono intelectual? Eu entendo que eles podem até responder a inquéritos policiais e procedimentos na Vara da Infância e Juventude, mas conseguirão justificar que a pandemia e a inexistência de vacinas e remédios, juntamente com a falta de estrutura das escolas, representam justas causas. Além das possíveis contaminações de crianças e adolescentes, esse movimento pode gerar contaminações a pais, mães e avós. Outro ponto é que, conforme a lei, as escolas precisam comunicar os conselhos tutelares sobre faltas reiteradas de estudantes e casos de evasão escolar. Dessa forma, se houver a ausência de alunos, seus pais poderão ser notificados pelos conselhos tutelares”.
Ariel de Castro Alves
advogado, especialista em políticas públicas de Direitos Humanos e Segurança Pública. Membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos de São Paulo 

“Sabemos e entendemos que têm pais preocupados com a saúde e temem mandar as crianças às escolas. Mas também existem milhares de pais que precisam trabalhar e não têm com quem deixar os filhos. A história está repleta de exemplos e mostra que, sempre quando há repressão a uma atividade, prolifera a clandestinidade. Aproveitando-se do desespero dos pais, já apareceram as “tomadoras de conta” de crianças, sem nenhuma formação pedagógica nem condições de segurança e de saúde. Se Estado e municípios não se prepararam adequadamente para a volta, que ao menos não aumentem a tragédia das famílias, permitindo aos pais decidirem se seus filhos retornam à escola ou não, assumindo essa responsabilidade. Por acaso um “clandestino da Educação” tem melhor condição do que uma escola particular?"
Benjamin Ribeiro da Silva
presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo, que representa entidades particulares

“Recebemos relatos de alunos que não conseguem realizar as tarefas em casa e estudantes que vivem em um ambiente tóxico. Uma situação que, com a pandemia, tem piorado. Alguns deles estão entrando em depressão. Nós protegemos os alunos da Covid-19, mas e das outras ameaças sociais? A escola também cumpre um papel social e eu não estou falando da família que a mãe está em home office, mas consegue dar atenção ao filho. Falo de crianças que precisam da escola não apenas pela questão pedagógica. Eu sou professora e mãe. Se as aulas presenciais voltarem, também terei que voltar. Mas estou olhando para uma camada social que não é vista".
Professora da rede estadual em Santos que não quis se identificar

“Estamos estudando a possibilidade de, na 1ª etapa, darmos aos pais a opção sobre o retorno ou não. E os profissionais com alguma comorbidade não precisarão voltar agora. Eles ficarão em teletrabalho. É natural termos medo. Estamos há meses falando para as pessoas ficarem em casa. Então, agora que começamos a sair, precisaremos conviver com esse novo normal. O Estado teme que, se demorarmos a voltar, aumente a desistência na Educação. Todos os estudos apontam para isso. O abandono escolar será maior quanto mais a gente demorar a voltar. Eu respeito decisões contrárias, especialmente de municípios, mas sou completamente contra posicionamentos de que determinada localidade não terá aulas esse ano. Se tivermos condições, nem que seja por dez dias, é importante voltarmos. O que não conseguirmos fazer agora não iremos recuperar. Apesar de todos os esforços que os professores estão fazendo para chegarmos aos alunos, nada substitui as aulas presenciais. Não defendo a volta de qualquer jeito. Mas é preciso não minimizar outros prejuízos pedagógicos. Sem falar de depressão e de outras doenças que estão acometendo nossos jovens e professores".
Rossieli Soares
secretário de Educação do Estado de São Paulo

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