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Terça-feira

11 de Agosto de 2020

Violência contra idosos no Brasil aumenta 400% em maio

Órgão federal aponta que casos quintuplicaram no País entre os meses de março e maio; isolamento social tem peso nessa escalada

A violência contra idosos no Brasil quase quintuplicou entre os meses de março e maio deste ano. Segundo a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, foram 3 mil denúncias registradas no País em março e quase 17 mil mês passado. Para o órgão federal, isso ocorreu devido ao isolamento social, por conta do convívio intensificado desses idosos em casa com parentes – principais agressores. Em 2019, familiares foram responsáveis por 83% dos casos de violência.

A explosão de ocorrências desse tipo chama ainda mais atenção quando há o confronto com os dados dos últimos anos. De 2011 a 2018, a média de crescimento das denúncias não chegou a 20% entre os meses de março e maio. Já em 2020, a alta foi de cerca de 400% no mesmo período. Na Baixada Santista, muitas cidades dizem não ter sentido a alta – ao menos ainda. Não há números regionais sobre o assunto.

Panorama

As denúncias na região são atendidas por diversos canais - muitas vezes, vários deles atuam conjuntamente. Delegacia do Idoso, Distritos Policiais, Disque 100, Ministério Público, aplicativo Direitos Humanos Brasil, Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos e os Conselhos do Idoso dos municípios são algumas das opções para o registro das queixas.

Profissionais da Baixada que atuam nas secretarias de Assistência Social e acabam lidando diretamente com o tema acreditam que a alta pode ocorrer depois da pandemia. 

Um deles é Felipe Galvão, chefe de gabinete da Secretaria de Assistência Social de São Vicente e coordenador da Diretoria de Média Complexidade, que cuida de violação de direitos da população idosa na Cidade, explica que, com o isolamento social, é possível que as denúncias só cheguem depois.

“Várias violências que surgirão vão demorar para refletir no serviço público, porque quem faz essas denúncias é um vizinho, um amigo, já que 97% dos casos de agressão são intrafamiliares. Como as pessoas não estão fazendo visitas, eu temo que a alta ocorra depois”.

Em terras vicentinas, os casos de violação de direitos com violência física ou psicológica chegaram a 11 em 2018, 13 em 2019 e três de janeiro a maio deste ano.

Reflexo tardio

A coordenadora do Centro de Referência Especializado em Assistência Social de Cubatão, Celeide Silva, concorda com essa tendência.

“O isolamento social traz esse problema. A gente não tem o mesmo acesso às famílias e nossos acompanhamentos se tornaram menores em números. Não dá para visitar a casa de um idoso para ver como ele está e acredito que muitos parentes também não estejam fazendo isso – o que pode afetar os números”.

Em Cubatão, 2019 chegou ao fim com 35 denúncias atendidas pela Assistência Social. Já entre janeiro deste ano e a última quinta-feira, foram 16 registros.

Acompanhamento

O secretário de Desenvolvimento Social de Santos, Carlos Mota, lembra que a Prefeitura não recebe denúncias, mas acompanha casos de forma multidisciplinar. Na Cidade, em 2019, 105 foram assistidos pela Assistência Social, de janeiro a maio. Este ano, no mesmo período, 85. 

Nas outras cidades, Guarujá informou que acompanha atualmente 47 casos e Bertioga presta assistência a seis vítimas. Os demais municípios da Baixada Santista não enviaram dados comparativos.

Onde pedir ajuda

Bertioga
Os telefones 0800-7706187 e 3317-4867 recebem denúncias para investigação ou mandam acompanhamento especializado

Cubatão
As denúncias podem ser feitas pelo telefone 3361-6874 ou pessoalmente, no Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas), que fica na Rua Salgado Filho, 227, Jardim Costa e Silva

Guarujá
Segundo a Prefeitura, há diversos serviços multidisciplinares que acompanham as denúncias feitas pelo Disque 100

Praia Grande
Recebe denúncias pela Ouvidoria Municipal, por meio do telefone 3495-1527, no site da Ouvidoria ou no aplicativo Ouvidoria Praia Grande, para celular

Santos
Tem oito Centros de Referência de Assistência Social (Cras), oferta o Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (Paif), além dos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), Centros de Convivência do Idoso Isabel Garcia e Vida Nova, Vila Criativa Sênior e serviços de acolhimento de curta e longa permanência. Mais informações no site da prefeitura.

São Vicente
As unidades dos Cras da Cidade atendem e orientam a população. Informações sobre o endereço mais próximo pelo telefone 3569-2294

Disque 100
Funciona em todo o País, tem ligação gratuita para o número 100 e a denúncia pode ser anônima. Não é preciso ter todas as informações. Há ainda um serviço exclusivo para atender idosos em situação de isolamento social decorrente da pandemia do coronavírus. Ao entrarem em contato, os idosos receberão informações sobre a pandemia e contarão com acolhimento social

Cartilha
O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos lançou a Cartilha de Combate à Violência, com informações sobre os tipos de violência. Ela pode ser acessada pelo link.

Atenção e respeito podem ajudar a mudar o cenário

A violência contra idosos só diminuirá no País se houver atenção e respeito de todos. Não se trata apenas de deixar de cometer violência, seja física, psicológica ou financeira, mas também de aprender a enxergar e denunciar as atitudes ruins, mesmo que elas não sejam claras. A opinião é da geriatra Alcineide Siqueira Correia.

Segundo a médica, não é porque o idoso tem mais vivência que consegue passar por cima das agressões que viveu com facilidade.

“Pelo contrário. O idoso é mais frágil tanto física quanto psicologicamente. Porque a pessoa primeiro perde o posto de provedor da família quando se aposenta, depois não é mais quem dá ordens e, de repente, suas opiniões perdem a validade. É um processo difícil para ainda ter que lidar com isso”.

Como perceber

Muitos idosos, já fragilizados pela violência, se calam ou têm medo de verbalizar o que sofrem – o que pode culminar num processo depressivo e piorar a situação. 

Porém, mesmo em casos de vítimas com maior debilidade cognitiva ou com doenças mentais, é possível identificar sinais de agressões, diz a geriatra.

“A pessoa fica mais quieta ou tem hematomas não explicados. Perde a liberdade de conversar sobre algo ou alguém, se mostra mais triste ou agressiva. Se a gente tivesse uma visão com foco mais sutil e respeitoso em relação ao idoso, seria mais fácil notar”.

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