A jiboia-do-ribeira é uma espécie ameaçada e habita somente essa região do interior de São Paulo (Harisson/ iNaturalist) Uma das cobras mais raras do mundo voltou a chamar a atenção dos pesquisadores após ser encontrada viva no Vale do Ribeira, no interior de São Paulo. A jiboia-do-ribeira é considerada uma verdadeira 'joia' da fauna brasileira, porque quase não existem registros da espécie. Em mais de 70 anos, apenas poucos exemplares foram vistos, o que faz de cada novo encontro um acontecimento científico importante. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A cobra resgatada é uma fêmea adulta, com cerca de 1,70 metro de comprimento. Ela foi localizada em Juquiá, no Vale do Ribeira, e agora está sob cuidados especializados. O resgate reforça a importância da região para a conservação da espécie e aumenta as esperanças de que existam mais jiboias da espécie vivendo na natureza. A pesquisadora Daniela Gennari, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR), disse ao g1 Santos e Região que a serpente permanecerá em quarentena no Instituto Rio Itariri, em Pedro de Toledo. Depois desse período inicial, a jiboia deve ser levada para um viveiro semi-intensivo, preparado para simular o ambiente natural, com controle de umidade, chuva e variação de temperatura. Cuidados antes da soltura A jiboia ficará por alguns meses nesse espaço de adaptação antes de poder voltar definitivamente à mata. Nesse tempo, ela também passará por avaliação clínica para a implantação de um microchip. Esse procedimento é importante para que os pesquisadores consigam acompanhar a cobra no futuro, mas depende de exames detalhados e até de uma pequena cirurgia, feita em clínica especializada. Por causa dessas etapas, ainda segundo Daniela, não existe uma data definida para a reintrodução da cobra na natureza. Todo o processo é feito com cautela para garantir que a jiboia esteja saudável e tenha maiores chances de sobreviver após a soltura. Este é o primeiro exemplar vivo da espécie registrado em Juquiá. Até então, os poucos animais monitorados tinham sido encontrados em Sete Barras e Eldorado. Com isso, o município passa a ser considerado uma nova área estratégica para a ocorrência da jiboia-do-ribeira. Como a jiboia foi encontrada A descoberta está ligada a um avistamento feito em abril de 2025, quando uma jiboia-do-ribeira foi vista, mas não foi capturada. Depois disso, ações de educação ambiental ajudaram moradores a aprenderem como identificar a espécie. O exemplar resgatado agora foi encontrado no dia 22 de novembro, em uma estrada rural. Funcionários do vereador Thiago Barbosa (PP) localizaram a cobra e acionaram apoio especializado. Rafael Guimarães, da empresa PreserValle, auxiliou no resgate e no encaminhamento do animal ao Projeto Jiboia do Ribeira. Mesmo não sendo a mesma cobra vista meses antes, os pesquisadores explicam que o novo registro só foi possível graças à atenção despertada na população local após o primeiro avistamento. Na próxima semana, o Projeto Jiboia do Ribeira deve abrir uma votação nas redes sociais para escolher o nome da serpente. A ideia é aproximar a comunidade do trabalho de preservação e aumentar o interesse pela conservação da espécie. Projeto resgata espécie quase desconhecida O Projeto Jiboia do Ribeira completa 10 anos em 2026. Nesse período, três exemplares já foram monitorados e devolvidos à natureza: Esperança, Ribeiro e Dona Crô, sendo esta a primeira a ser acompanhada diretamente em ambiente natural. A jiboia-do-ribeira foi descrita pela primeira vez em 1953, pelo herpetólogo Alphonse Richard Hoge, do Instituto Butantan. Depois disso, a espécie passou mais de 60 anos sem nenhum registro de animal vivo. O reaparecimento só aconteceu em 2017, em Sete Barras. Em 2020, outro exemplar foi encontrado no Parque Estadual Intervales e ficou seis meses em cuidados antes de voltar à natureza, já com radiotransmissor para monitoramento. Em 2022, um macho foi registrado novamente em Sete Barras e solto no mesmo local onde havia sido visto anteriormente. Com os dois registros recentes em Juquiá, o avistamento de abril e o resgate de novembro, cresce a expectativa de que a espécie tenha uma população maior do que se imaginava. Cada novo encontro ajuda a entender melhor a jiboia-do-ribeira e a criar estratégias mais eficazes para sua preservação.