Rio Ribeira de Iguape foi apontado como "uma dádiva" por pesquisador (Reprodução/Preservalle) “Talvez o último rio vivo do estado de São Paulo”. É assim como o geógrafo Breno Schmidtke Rodrigues, de 25 anos, define o Rio Ribeira de Iguape, no Vale do Ribeira. O especialista é autor de um estudo recente no local que identificou, pela primeira vez, traços de césio-137 em um rio tropical brasileiro. Segundo ele, o achado reforça a importância científica e ambiental do rio, que sobrevive quase intacto em meio à urbanização e à poluição que marcam outros grandes cursos d’água do estado. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Ele é uma verdadeira preciosidade para o Brasil. Eu acho que as pessoas acabam não tendo essa visão”, diz Rodrigues para A Tribuna. Segundo o geógrafo, em um estado onde quase todos os grandes rios estão represados, ele é um lembrete vivo do que ainda pode e deve ser preservado, além de ajudar a explicar como os rios paulistas funcionavam antes da interferência humana. O Rio Ribeira de Iguape nasce no Paraná e corta o Vale do Ribeira, passando por cidades como Registro, Sete Barras e Eldorado, até desaguar em Iguape, no litoral de São Paulo. A região é reconhecida por suas cavernas, áreas de mata atlântica e biodiversidade – e, agora, também por abrigar um dos sistemas fluviais mais íntegros e cientificamente valiosos do Sudeste brasileiro. “Ele tem material e representatividade para explicar muita coisa. Nós o escolhemos porque conseguiriamos fazer esse estudo do século com o menor ruído de intervenção e mudança antrópica direta”, explica o autor do estudo. Ele também destaca que o Ribeira não tem grandes barragens, nem foi canalizado, além da bacia ter urbanização restrita. “Isso faz com que seus processos naturais estejam muito bem preservados”, conta. Rio é um possível marcador do Antropoceno De acordo com a teoria do Antropoceno, o qual é definido por Rodrigues como um novo período na história onde a sociedade se tornou o principal motor de transformações do planeta, marcadores ambientais – como metais pesados, plásticos ou radionuclídeos – funcionam como indicadores que comprovam a interferência humana sobre os sistemas naturais. Segundo o pesquisador, foram analisadas amostras de sedimentos coletadas em Sete Barras, que constataram a presença de césio-137 no rio. “Ele é um radioisótopo totalmente antropogênico. Ou seja, ele não existia na natureza anteriormente às nossas ações”, conta. “Ele é associado a testes de bomba atômica. A partir desses testes, ele foi disseminado globalmente por meio de precipitações repetidas, o que chamamos de fallout”, explicou. Apesar de o termo ainda não ser reconhecido oficialmente como uma nova era geológica, várias evidências – como a encontrada no Rio Ribeira – fazem o conceito ganhar força. “Temos os microplásticos aparecendo, desmatamento, extinção de espécies e por assim vai”, aponta o pesquisador. “Não é normal encontrar Césio em um rio. Assim como não é normal achar mais microplásticos do que peixes. [...] O trabalho serve como um sinal de alerta para entender a magnitude das nossas intervenções”, conclui. Prevenção de desastres naturais A preservação do Ribeira também o torna um verdadeiro laboratório natural para estudos sobre a dinâmica fluvial e os efeitos das enchentes. O grupo de pesquisa, coordenado pela professora Cleide Rodrigues, da USP, acumula mais de 20 anos de investigações na região e já analisou grandes cheias registradas em 1997 e 2011. Segundo o geógrafo, os estudos ajudam na prevenção e planejamento urbano em caso de desastres naturais, como o ocorrido em 2024 no Rio Grande do Sul. “Essas pesquisas ajudam a entender quais são as dinâmicas e as tendências desses eventos naturais em sistemas que têm menor grau de perturbação, que são mais conservados. Assim, conseguimos entender como a natureza vai funcionar, efetivamente”, explica.