Faixa de areia se rompeu em 2018 (Google Earth) O que antes era faixa de areia e ponto de encontro de comunidades caiçaras, na Ilha do Cardoso, em Cananéia, no Vale do Ribeira, hoje é mar aberto. A transformação abrupta da Enseada da Baleia, ocorrida em 2018, redesenhou a geografia da região, engoliu casas, destruiu manguezais e alterou rotinas centenárias. A abertura de uma nova barra naquele ano, resultado da soma entre fenômenos naturais e ação humana, mudou para sempre a vida de quem dependia do estuário e desestabilizou um ecossistema vital. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Essa região é muito dinâmica e intensa, mas havia uma estabilidade dentro dessa dinâmica”, explica a professora Marília Lignon Cunha, do curso de Engenharia de Pesca da Unesp de Registro, no Vale do Ribeira. Segundo ela, que também é pesquisadora da região, o rompimento ocorreu em meio à passagem de uma frente fria forte, associada a uma maré de sizígia — quando há maior diferença entre maré alta e baixa. “Foi um momento em que a energia do oceano estava muito forte. Mas o processo não foi só natural. A ação humana também ajudou” Atividade humana Quando o avanço do mar se intensificou, o local passou a ser usado como ponto de descida de barcos, de onde visitantes observavam a transformação da paisagem. A professora explica que, ao se deslocarem em alta velocidade, barcos e jet skis geram pequenas ondas que se repetem constantemente em maior intensidade. “Essas ondas acabam retirando um pouco de sedimento”, explica. Além disso, ela aponta que, em uma área frágil como era a Enseada da Baleia, o simples ato de subir e caminhar sobre a área arenosa também acelerava o desgaste das margens. Outro motivo que pode ter desempenhado um papel indireto no processo foi a abertura histórica do Canal do Varadouro, na década de 40, entre Paranaguá (PR) e Cananéia. Ao permitir a conexão permanente entre os sistemas lagunares dos dois estados, a obra tornou os ambientes costeiros ainda mais instáveis e vulneráveis à erosão. -Avanço do mar Ilha do Cardoso Cananeia (1.476613) Impactos na fauna e na flora Após o rompimento e consequente surgimento da nova barra, que conecta o Canal de Ararapira ao Oceano Atlântico, a Enseada da Baleia deixou de existir como praia e parte da Ilha do Cardoso passou a se ligar ao continente do lado paranaense. Com isso, florestas de mangue-preto — espécies típicas de manguezais encontradas na região — foram soterradas pela areia e mortas pela salinidade oceânica que invadiu o estuário. Nos locais diretamente expostos à nova barra, quase 100% das árvores estavam mortas. “A salinidade, que normalmente é de 23%, chegou a 34%, praticamente o nível do oceano”, destacou a pesquisadora, ressaltando que “perder manguezal significa perder áreas que são berçário de uma série de espécies marinhas, incluindo diversos recursos pesqueiros”. Sem um ambiente propício para o desenvolvimento, peixes sensíveis ao sal migraram. Marília conta que a população de iriko – espécie de peixe muito parecido com pequenas manjubas e importante para a subsistência e a renda dos pescadores locais — se deslocou mais ao norte do estuário, obrigando a comunidade a percorrer maiores distâncias para manter a atividade. No entanto, enquanto trechos foram erodidos e perderam vegetação, novas áreas de manguezal começaram a se formar com o fechamento da antiga Barra de Ararapira, ao sul da Ilha do Cardoso. Barra se fechou mais ao sul (Google Earth) A especialista explica que essa alteração é natural, devido ao local ser um meandro de canal lagunar. “É como se fosse uma cobra andando num rio”, exemplifica. “Um lado erode e o outro deposita. São processos dinâmicos. A linha da costa é um trecho com muita energia e alteração de sedimento”, diz. Comunidades deslocadas A extinção da enseada também atingiu diretamente a vida de moradores tradicionais. Duas comunidades precisaram deixar suas casas. A da própria Enseada da Baleia conseguiu se antecipar ao avanço e se realocou. Já a da Vila Rápida resistiu até que a erosão chegasse às portas. Hoje, o território onde viviam já não existe mais. Imagens de satélite mostram a área onde havia uma comunidade, em 2016, e como ela está atualmente (Google Earth) “Se você olhar imagens de satélite e localizar os pontos onde ficavam essas comunidades, eles simplesmente não existem mais. O oceano tomou conta”, lamenta Marília. O que era um vilarejo, em 2016, foi apagado pelo avanço do mar (Google Earth) Espécies invasoras Outro efeito foi a proliferação de espécies exóticas, como a ostra tampinha (Saccostrea cucullata) e o mexilhão-verde (Perna viridis). Ambas competem com espécies nativas exploradas pelas comunidades. Segundo a especialista, a chegada dessas espécies está ligada ao despejo de água de lastro de navios. “Imagine um navio vindo da Ásia, que solta no estuário brasileiro a água usada para estabilizar sua navegação. Essa água traz larvas de organismos que não existem aqui. Algumas morrem, mas outras se adaptam e passam a se reproduzir”, explicou. Desafios e caminhos possíveis Especialistas defendem que, em áreas costeiras tão dinâmicas, as soluções não podem ser rígidas, como muros ou construções fixas. A saída, segundo Marília, é investir em soluções baseadas na natureza. “A melhor forma de conter processos erosivos é manter barreiras naturais: restinga segurando dunas, manguezais saudáveis atuando como amortecedores. Eles não impedem totalmente os impactos, mas reduzem e minimizam os efeitos de eventos extremos”, afirma.