Biólogo explica presença de tubarões no litoral brasileiro (Liv Williamson/Passioiventa) A presença de tubarões no litoral de São Paulo, inclusive nas praias da Baixada Santista, é natural, antiga e não representa risco significativo aos banhistas, segundo explica o biólogo marinho Eric Comin, especialista em ecologia marinha, mergulho científico e conservação de elasmobrânquios. Comin reforça que esses animais habitam a região há milhões de anos e cumprem um papel essencial para o equilíbrio do ecossistema costeiro. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O biólogo destaca que os tubarões existem há 450 milhões de anos e sempre frequentaram o litoral de São Paulo. “A nossa área faz parte de uma rota de migração de algumas espécies e também é habitat natural desses predadores marinhos. Eles sempre estiveram aqui”, afirma. Segundo o especialista, as águas da Baixada Santista funcionam como berçário para muitas espécies, devido à presença de estuários e à grande concentração de cardumes — o que atrai tubarões para alimentação e reprodução. A Fundação SOS Mata Atlântica, o Instituto de Pesca de São Paulo e o Projeto Elasmobrânquios da Unifesp já registraram a Baixada como área de presença regular de tubarões de pequeno e médio porte, especialmente espécies costeiras. Entre as espécies registradas no litoral paulista, Comin cita os tubarões-martelo, frango e galha-preta. A maioria delas é considerada inofensiva para humanos. “Os tubarões que ocorrem aqui não têm interesse em nós. O ser humano não faz parte da dieta desses animais”, explica Comin. Dados do Instituto Paulista do Mar e do Shark Research Institute confirmam que ataques no estado de São Paulo são extremamente raros: foram 11 registros em 100 anos. Apesar do aumento populacional nas praias, o número de incidentes permanece baixo. Segundo Comin, neste período, dos 11 casos registrados na região, nenhum foi fatal. Em comparação, Recife concentra o maior número de ataques do Brasil devido à perda de manguezais, obras portuárias, despejo de resíduos de pesca e circulação de grandes tubarões, como o tigre e o cabeça-chata — cenário muito diferente do litoral paulista. Tubarões são considerados predadores de topo, fundamentais para o equilíbrio ecológico. “A presença deles indica um ecossistema saudável. Eles controlam outras populações marinhas e ajudam a manter o ambiente em equilíbrio”, explica o biólogo. Comin lembra ainda que muitas vezes filhotes são capturados e vendidos como “cação” — nome usado comercialmente para carne de tubarão. O consumo, além de prejudicar as populações da espécie, traz riscos à saúde humana. “Tubarões acumulam metais pesados, como mercúrio e chumbo. Consumir carne de cação significa ingerir essas substâncias, que afetam o sistema nervoso central”, alerta. A Anvisa, a Fiocruz e estudos da USP também apontam níveis altos de metais pesados em espécies predadoras. Para o biólogo, a popularização de vídeos e relatos sem contexto nas redes sociais contribui para pânico desnecessário. “O imediatismo permite que imagens se espalhem sem verificação. Isso pode reforçar estereótipos e apresentar o tubarão como monstro, quando na verdade ele é vital para o ecossistema”, afirma. Ele destaca que a falta de informação gera percepções distorcidas e prejudica a conservação desses animais, já ameaçados pela pesca predatória e pela remoção das barbatanas, prática comum no mercado asiático. Comin, que também é instrutor de mergulho técnico, ressalta que tubarões são tão valiosos que mergulhadores do mundo inteiro pagam caro para encontrá-los. “Eu já mergulhei com tubarão-baleia na Laje de Santos. Outras espécies são mais difíceis de ver — muitos brasileiros viajam para o exterior só para conseguir essa experiência.” A Laje de Santos é uma das unidades de conservação marinhas mais importantes do país e reconhecida pelo ICMBio como habitat de tubarões-baleia em algumas temporadas. Segundo o especialista, os tubarões continuam presentes na Baixada Santista porque o ambiente é adequado, há oferta de alimento, eles utilizam a região como rota e berçário, e não há grandes espécies agressivas circulando com frequência. “A quantidade de tubarões é baixa e não existe atrativo para que eles se aproximem demais da costa. Nós também não fazemos parte da cadeia trófica deles. Por isso, o índice de incidentes é muito baixo”, diz.