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Sábado

20 de Julho de 2019

Transexualidade: Sexo do corpo, sexo da alma

Controversa, a transexualidade desafia a Biologia e esbarra em padrões morais, especialmente, quando se trata de crianças

Aos 9 anos, Edson*, que mora na região, passou por um processo de transformação. As roupas, brinquedos e a vida de garoto deram lugar à personalidade feminina, guardada até então. Assim, Edson passou a ser Melissa*. Casos como o dela são exemplos de crianças que se identificam com gênero diferente do biológico. O tema provoca debates, dúvidas e ainda faz com que as crianças sofram com o preconceito.

Segundo a mãe, os hábitos do filho já indicavam alguma coisa diferente. Mas foi no dia em que, aos prantos, o garoto disse que não queria ser mais um menino, que a família se viu tendo que apoiá-lo na transição, pois Edson estava sofrendo.

Alexandre Saadeh é psiquiatra e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (Amtigos) do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP. O equipamento abriu as portas inicialmente para atendimento da população adulta. No entanto, desde 2011, passou a receber apenas crianças e adolescentes (até 16 anos) com questões de gênero, sendo pioneiro no Brasil a oferecer esse tipo de acompanhamento à população.

Segundo Saadeh, a transexualidade ou transgeneridade acontece quando uma pessoa não se identifica com o sexo biológico atribuído a ela. “A identidade de gênero não é congruente com a genitália. A pessoa busca de maneira consistente mudanças corporais e sociais para se adequar à identidade de gênero com a qual se reconhece”, explica ele sobre situações como as de Melissa.

Para Saadeh, caso sem que a transexualidade manifesta os primeiros sinais ainda na infância são incomuns, mas os dados do próprio ambulatório revelam que eles acontecessem mais do que boa parte das pessoas pode supor. “Hoje, acompanhamos cerca de 80 crianças de todo o Brasil. O atendimento se dá por marcação da triagem inicial. Hoje, temos uma lista de espera de 140 crianças e adolescentes”.

Na maioria dos casos, conforme Saadeh, essa incompatibilidade entre como se sentem e o sexo biológico é mostrada de forma discreta, até por receio. Aos 7, 8 anos de idade, a criança pode esconder o que sente e vivencia, guardando para ela essa questão, o que pode causar sofrimento.

Às vezes, porém, pode deixar os sentimentos e o quanto sofre virem à tona. No caso de Melissa, foi o choro. Em outra situação, uma criança que se reconhecia menino fez um pedido à psicanalista e especialista em diversidade de orientações sexuais e identidade de gênero, Edith Modesto: “a senhora pode avisar a minha mãe que eu não sou uma menina?”. A criança tinha 4 anos.

*Nomes fictícios

Sofrimento, ou a falta dele, é a medida do auxílio

“Apesar de existirem teorias socioculturais e biológicas para explicar a transexualidade, não estou convencida e não tenho uma resposta fechada. O fato é que eu acredito nos meus pacientes e muitos dizem sofrer”, diz Edith.

Por isso, cada caso é analisado de uma forma. Naqueles em que é possível dar tempo ao tempo, isso é feito, afirma ela. Outras vezes, as crianças ou jovens se mostram mais firmes e insistentes ou o sofrimento torna-se mais intenso. “Aí, temos a possibilidade de entrar com hormônios para bloquear a puberdade ou mesmo para modificar questões físicas”.

Seja como for, o apoio da família é fundamental, dizem os especialistas. E aí, é preciso dar liberdade para a criança simplesmente ser. “Não censurar, nem incentivar. O importante é deixar a criança viver sua verdade de maneira tranquila. Quanto mais apoio e afeto a criança tiver dos pais, associados à compreensão e aceitação, melhor adequação e inserção social terá”, considera Saadeh.

O psicólogo e mestre em Psicologia Clínica, Rafael Cossi, concorda. “A criança pode estar brincando, se testando, mostrando identificação com algum adulto ou outras questões não relacionadas à transexualidade. É observar”.

Agora, se o comportamento é repetitivo ou existe algum indício de tristeza ou sofrimento por conta da situação, é interessante a família procurar uma ajuda profissional. Neste caso, aponta Cossi, não tem nada a ver com tratar a transexualidade, mas para ajudar a criança e a família a entenderem a situação e viverem melhor.

“Essa liberdade de ser é importante porque até mesmo a transexualidade na infância é discutida. As crianças são fluidas e podem brincar de qualquer brincadeira, independe das imposições sociais. Porque na infância essas nomenclaturas mais atrapalham do que ajudam”, avalia.

Para ele, é preciso ter um olhar mais crítico sobre essa discussão ainda na infância. “Interromper a produção hormonal na criança não é uma ação sem consequência. Não temos que criar pais ultramodernos e heróis para sempre incentivar a situação [de transição] na infância. Temos casos de pessoas que se arrependem da transição. Pessoas que fazem, inclusive, mudança de sexo e se arrependem”, afirma o psicólogo.

Para ele, é importante que a infância tenha menos rótulos e a sociedade se desenvolva menos violenta com adultos transgêneros e mais aberta ao que é diferente do socialmente imposto.

Entenda

Identidadede gênero é a maneira como a pessoa se vê. Pessoas cujo sexo biológico, ou seja, os genitais, estão de acordo coma forma como elas se veem são consideradas cisgênero. Quando o genital está em desacordo com a identidadede gênero, é transexual ou transgênero. É importante não relacionar a transexualidade com orientação sexual. Ao contrário da identidade de gênero, que não tema ver com a sexualidade, a orientação sexual diz respeito ao sexo pelo qual a pessoa se sente atraída.