Taxa de ocupação em UTI e interiorização de casos atrapalham retomada econômica na Baixada Santista

Nota técnica assinada pelos grupos de pesquisa Portal Covid e Ação Covid-19 indica que ocupação hospitalar na região supera a marca de 70% e que relaxar isolamento pode levar sistema de saúde ao colapso

O plano apresentado pelo governador João Dória (PSDB) para a reabertura do comércio paulista contradiz os dados do governo estadual. É o que afirma a nota técnica sobre o Relaxamento do Isolamento social no Estado, assinada pelos grupos de pesquisa Portal Covid e Ação Covid-19, reunindo professores da Universidade Federal do ABC (UFABC) e de outras instituições de ensino superior do país (leia aqui a nota técnica). 

Para os pesquisadores, a curva de infecções não está sob controle em São Paulo. O documento cita dois dados preocupantes: a elevada taxa de ocupação hospitalar por pacientes com sintomas da Covid-19 e a interiorização da pandemia. Com isso, as entidades afirmam que os sistemas de saúde público e privado podem entrar em colapso com a flexibilização do comércio. Eles também questionam a possibilidade de revisão do nível de atenção na Baixada Santista.

“Com o número de casos ainda em ascensão, sem uma clara política de testagem, com a expansão do contágio, das grandes metrópoles para o interior, e com um número ainda alarmante de ocupação de leitos, a redução prematura do isolamento social pode semear o caos no sistema de saúde", afirma o professor Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade em Ribeirão Preto e membro do grupo Covid-19 Brasil.  

Segundo ele o “esforço de três meses de isolamento seria desperdiçado, levando a uma perda desnecessária de vidas”. Isso porque a partir desta segunda-feira (1º), algumas regiões paulistas passam a ter a liberação para funcionamento controlado de atividades comerciais. O aval é estabelecido a partir de critérios elaborados por técnicos estaduais, como taxa de ocupação de leitos e velocidade de transmissão.

Para isso, o Estado foi dividido em áreas de acordo com as fases de abertura em que cada região administrativa foi enquadrada. As fases são representadas por cores: verde, azul, amarelo, laranja e vermelho, da maior abertura ao maior fechamento. A Baixada Santista permanece no mais rígidas das classificações (vermelha), podendo nessa semana ser reclassificada. Apesar de ainda não obter a liberação estadual, São Vicente reativará nessa segunda-feira (1º) setores comerciais. 

Usando dados da Secretaria de Saúde do Estado e outros dados elaborados por dois coletivos de pesquisadores (Ação Covid-19 e Covid-19 Brasil), o estudo mostra a Baixada Santista possui uma taxa de ocupação de UTIs acima de 70%. Desta forma, os pesquisadores indicam que as cidades locais não poderiam abrir o comércio, apesar da pressão de lideranças políticas para a reativação do setor.

"A escolha preliminar dos municípios para se recomendar a abertura de comércio, incluindo a abertura de shopping centers, foi feita sem levar em consideração a emergência e a gravidade da epidemia nesses municípios", afirma José Paulo Guedes, pesquisador da UFABC e membro do grupo Ação Covid-19.  

Os pesquisadores alertam que há um precedente perigoso de abertura precoce: em Blumenau, Santa Catarina, após a abertura do comércio e dos shopping centers, a quantidade de novas infecções saiu de controle.  

“O que a sociedade paulista precisa neste momento é trabalhar em conjunto para fazer com que a curva de transmissão seja drasticamente reduzida. Isso não será atingido abrindo o comércio das cidades", afirma a física Patricia Magalhães, da Universidade de Bristol e membro do grupo Ação Covid-19. Ela defende ser  preciso "intensificar o isolamento social. Para isso, é preciso dar condições para que a sociedade como um todo, considerando suas desigualdades sociais e outras especificidades, tenha condições de se manter isolada".

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