Situação extrema marca profissão de médico

No dia desses profissionais, comemorado neste domingo (18), histórias de quem passou por momentos intensos

Quando os primeiros pacientes começaram a chegar na unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Ana Costa, em Santos, no início da pandemia de coronavírus, o médico intensivista Edwin Koterba, de 58 anos, sabia que a equipe enfrentaria um furacão. Um dos coordenadores da UTI, ele lembra que as projeções não eram animadoras.  

“Foi um pavor, porque as notícias de eram de muita gente doente, morrendo, funcionários dos hospitais pegando a doença. A conta era muito dura. Se 15% dos pacientes seriam internados e 4% morreriam, era praticamente um morto a cada quatro pessoas”. 

Formado em 1986, ele jamais havia passado por uma experiência tão intensa. “Era estranho, o paciente estava conversando com a agente e em uma, duas horas caía muito a oxigenação e era necessária a intubação. Não sabíamos quem teria boa resposta, as primeiras semanas foram duras”. 

Koterba lembra do drama de ter cuidado de pessoas conhecidas, parentes de colegas e funcionários do hospital. E das muitas perdas. “A gente se frustrou com cada pessoa que morreu. Alguns a gente aceitava melhor, porque já tinham muitas doenças, mas nem todos”.  

Ele mesmo foi contaminado e precisou ficar seus dias na UTI, com uso de máscara de oxigênio, mas não foi intubado. “Perdi oito quilos, cheguei a ter 80% de saturação. Estava cansado, mas não tinha falta de ar. Minha crença ali é que tudo estava sob controle. Quando a barrinha (do oxímetro) saiu do vermelho e foi par ao verde, pensei: bom, agora eu estou bem”.  

No meio das histórias tristes, houve momentos de felicidade. “Para um dos primeiros rapazes que fui intubar, falei que colocaria o aparelho para ele descansar uns quatro dias e que depois ficaria bem. Falei para que ele ficasse tranquilo, mas não sabia se seria grave, se ficaria 10, 15 dias. Mas em cinco dias ele tirou o tubo, ficou bem. A esperança nunca nos abandona, começamos o tratamento imaginando que a melhora é possível”.  

Para Koterba, ser médico é lidar com pessoas nos momentos em que elas precisam de ajuda, e fazer o melhor. “Não conseguimos sempre a cura, mas consigamos melhorar as coisas. Esse é o nosso objetivo. E assim como uma boa vida, uma boa morte faz parte da Medicina. Eu tenho que pensar que, às vezes, eu tenho que dar isso ao paciente. Que seja da forma menos dolorida”.  

Perdas e reencontros 

O médico intensivista e pneumologista Nilson Moura Gambero, de 40 anos, coordena a UTI da Santa Casa de Santos. Lembra da angústia de lidar com uma nova doença, sem remédio eficaz, e de passar por situações muito estressantes. 

"Tivemos de dar a notícia para um filho que o seu pai havia falecido e, dentro de alguns dias, ligar para a mesma pessoa e comunicar que a sua mãe havia falecido. Essa doença levou vários membros de uma mesma família rápido. Uma grande dor”  

Gambero explica que durante o período de internação na UTI Covid os familiares não podem visitar os pacientes. Os reencontros emocionam. “Após os 14 dias de internação, com melhora do quadro, os pacientes saem do isolamento e os familiares podem ir na UTI. Este é sempre um momento gratificante".  

Ser médico, diz ele, não é só salvar vidas. “Isso não podemos fazer sempre. Ser médico é cuidar de pessoas, aliviar angústias, reduzir a dor. É dar conforto para o paciente e seus familiares. Esse foi o nosso grande papel nesta pandemia.  Não conseguimos salvar todos, mas cuidamos de todos”.  

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