Jovem de 16 anos vende estoque de loja de roupas durante live de oito horas em São Vicente

Nicolly Soares vendeu cerca de 1,5 mil peças em transmissão ao vivo pelas redes sociais

Por: Ágata Luz  -  29/10/22  -  08:56
Atualizado em 31/10/22 - 07:00
Pais de Nicolly são os principais incentivadores da jovem e comércio virou trabalho de toda a família
Pais de Nicolly são os principais incentivadores da jovem e comércio virou trabalho de toda a família   Foto: Matheus Tagé/AT

Durante as restrições impostas pela pandemia de covid-19, os comércios tiveram que suspender o atendimento nas lojas físicas. Neste cenário, muitos encontraram na transmissão ao vivo pelas redes sociais, conhecida como live, a ‘salvação’ para vendas. Com apenas 16 anos, uma jovem de São Vicente decidiu apostar na prática e se surpreendeu com o resultado: teve o estoque da loja de roupas zerado em uma transmissão com oito horas de duração.


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Em entrevista para A Tribuna, Nicolly Soares Pires Esteves conta que vendeu cerca de 1,5 mil peças na live que começou às 19h do dia 13 de setembro e terminou por volta das 3h do dia seguinte. O segredo para o sucesso, segundo a jovem, está na interação com o público. “Não me ligo só pelo fato de vender, gosto bastante de atender. A gente interage, brinca, coloca música”.


Além disso, Nicolly também faz sorteios de brindes de patrocinadores. Ela confessa que o trabalho é cansativo, mas garante que “a hora passa rápido”. Foi assim desde a primeira transmissão, que aconteceu no ano passado e durou o mesmo tempo.


 Nicolly vendeu todo o estoque de sua loja em uma live
Nicolly vendeu todo o estoque de sua loja em uma live   Foto: Arquivo Pessoal

“De tanto ver o povo fazendo live na pandemia, decidi fazer a minha primeira sem roteiro e sem experiência, apenas sendo eu mesma, cheia de erros e defeitos. Foi mais confuso porque a gente não tinha preparado a loja antes e não imaginava a proporção”, ressalta.


Segundo a jovem, as vendas foram boas levando em consideração a falta de experiência. Por isso, decidiu fazer a segunda em setembro. “Mas não esperava novamente a proporção. Não foi nada elaborado, era para ser só uma promoção para as clientes porque queria trazer coleção nova de primavera, mas precisava vender o estoque parado para conseguir o dinheiro”.


O resultado foram 300 pessoas assistindo e interagindo. “Se me perguntar como consegui segurar esse povo todo, nem eu sei explicar. Acho que foi fundamental fazer tudo com muito amor, carinho e sendo eu mesma”, relata.



A loja

O sucesso de Nicolly, porém, começou muito antes das lives. Desde criança com o espírito empreendedor, ela começou a vender roupas com 13 anos. Em pouco tempo, cresceu o pequeno negócio que virou a loja ‘Nick Modas 013’.


De acordo com ela, o pontapé inicial do comércio foi o mais natural possível, quando foi chamada para tirar fotos como modelo de uma mulher que vendia roupas em Praia Grande. “Eu nem a conhecia e ela falou que eu era ideal para as fotos dela. Até cheguei a pensar que fosse golpe”, relembra. Em troca das fotos, a garota de 13 anos recebeu algumas das peças.


Para ajudar a comerciante, Nicolly postou as imagens nas redes sociais e começou a ter um retorno inesperado. “Muitas meninas ficaram perguntando os valores e tamanho das peças, mas eu mandava mensagem e ela (comerciante) não me respondia, demorava dois ou três dias para responder. Tinha a faca e o queijo na mão, mas parecia que não era aquilo que ela gostava de fazer e as meninas achavam que eu que não queria vender”.


A grande demanda despertou na adolescente o desejo pelo empreendedorismo no mundo da moda em outubro de 2019. Ela recebeu apoio dos pais, que foram seus investidores. “Meu pai perguntou se realmente era o que eu queria fazer e eu disse que sim. Ele tinha uma moto parada em casa, vendeu e me deu R$2 mil”, ressalta, dizendo que foi ao Brás, região de comércio popular em São Paulo.


Segundo Nicolly, as primeiras peças compradas foram praticamente de uma única medida. “Minha mãe só deixava comprar roupas do meu tamanho porque caso a minha loucura não desse certo, pelo menos não perderia o dinheiro”, explica.


Nicolly vendeu todo o estoque de sua loja em uma live
Nicolly vendeu todo o estoque de sua loja em uma live   Foto: Matheus Tagé/AT

Ela ainda lembra que quando chegou em casa, os pais a aconselharam a descansar para depois tirar fotos e colocar preços nos produtos, mas a garota esperou os pais dormirem para fazer um ‘provador’. “Sem iluminação e experiência de nada. Então já comecei a postar, sempre pedindo pelo amor de Deus para as meninas repostarem”.


Para a surpresa da adolescente, a procura foi grande entre colegas da escola, vizinhas e amigas. “De imediato, no mesmo dia, já tinham entregas”. Mas o começo foi difícil, pois a jovem tinha que se desdobrar para conciliar as vendas.


“Saía embaixo de sol fortíssimo e chuva para fazer entrega andando ou de bicicleta. Muitas vezes eram trotes, eu chegava ao endereço e não era lá. Geralmente eram meninas da minha idade mesmo que ficavam zoando, mas agradeço cada uma delas por tudo isso que me deu mais força de não desistir. Já chorei muito, mas sei que foi preciso para me tornar quem sou hoje”.


Do quintal de casa ao novo espaço

Com a demanda, Nicolly passou a colocar duas mesas plásticas no quintal da própria casa para vender. “Quando queriam experimentar as roupas, entravam no banheiro da minha casa”. Essa dinâmica aconteceu por meses, até que a jovem conquistou um “provador improvisado”, ainda no quintal.


“Todo dinheiro que pegava era para tentar aumentar o estoque. Meus pais nem acreditavam o quanto a ‘brincadeira de criança’ foi longe”, enfatiza. O pequeno negócio começou a mudar de rumo em 2020, com a pandemia de covid-19. “Com todas as lojas fechadas, meu movimento duplicou, pois as clientes sabiam que eu atendia em casa e uma foi falando para outra”.


No entanto, a movimentação na residência da família começou a preocupar os pais de Nicolly, que tiveram receio de receber tanta gente. “No começo eram só pessoas conhecidas, depois surgiu gente de tudo quanto é lugar da Baixada Santista”. Desta forma, os pais da jovem cederam o espaço da tabacaria que tinham (que fechou por conta da pandemia) para a loja da filha.


 Jovem começou a vender no quintal de casa com mesas de plástico e um provador (à esquerda) e depois passou a atuar em um ponto alugado (à direita)
Jovem começou a vender no quintal de casa com mesas de plástico e um provador (à esquerda) e depois passou a atuar em um ponto alugado (à direita)   Foto: Arquivo Pessoal

“Foi tenso, não sabia se ia ou não dar certo, mas era a única opção que tínhamos no momento, até por falta de dinheiro. Então levamos tudo para o ponto que já estava locado”, relembra a jovem sobre a mudança para uma avenida movimentada, que aconteceu em maio de 2020.


Porém, o novo surto de casos de covid-19 fez com que Nicolly fechasse as portas do comércio. “Novamente trouxemos tudo para casa, mas desta vez a clientela era maior e eu não podia mais atender no quintal, era somente online com entregas”, diz Nicolly, que neste período teve a ideia de desistir da locação do espaço e investir em uma loja na garagem de casa.


Apesar da insegurança de trocar uma avenida movimentada por uma rua mais tranquila, Nicolly contou com o apoio dos pais para reformar a garagem. As obras começaram no início de 2021 e o espaço foi inaugurado no dia 24 de julho do mesmo ano. “Graças a Deus não me falta vendas. Por que ficar pagando aluguel sendo que desde o começo só precisei da internet?”.


Atualmente, a loja da adolescente coleciona quase 60 mil seguidores no Instagram e envia mercadoria para todo o Brasil. O comércio ainda virou trabalho de toda a família. A mãe de Nicolly atua com ela nas vendas, já que a jovem de 16 anos também estuda. Enquanto isso, o pai faz as entregas pela Baixada Santista.


“Às vezes perco festas com as amigas ou praia por estar sempre trabalhando, mas esse é meu hobby: vender. Me sinto muito realizada em servir de inspiração para várias adolescentes do meu bairro. Cada dia que passa, a minha vontade só aumenta de crescer honestamente no que faço”, finaliza.


Jovem começou a vender no quintal de casa com mesas de plástico e um provador e depois passou a atuar em um ponto alugado
Jovem começou a vender no quintal de casa com mesas de plástico e um provador e depois passou a atuar em um ponto alugado   Foto: Matheus Tagé/AT

Doações

Com os seguidores da loja e do perfil pessoal, Nicolly também usa a internet como instrumento para trabalhos voluntários no seu bairro. “Não tem dinheiro que pague”, afirma, explicando que começou a fazer doações de roupas de frio e cobertores no inverno deste ano após receber o pedido da comunidade carente próxima de sua casa.


“Pensei em fazer uma campanha, mas ninguém respondeu. Então comecei a comprar itens usados. O pessoal viu que eu realmente queria comprar pra ajudar e começou a me dar”, diz a jovem, que também conta com apoio de seus patrocinadores.


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