Parede de 9 metros, descoberta em 2012, foi erguida em meados do século XVI, no Bairro Gonzaguinha (Márcio Pinheiro/Prefeitura de São Vicente) O litoral paulista guarda segredos milenares que ajudam a compreender a história pré-colonial do Brasil. Muito antes da chegada dos portugueses, povos indígenas ocuparam extensivamente a região que hoje compreende municípios como São Vicente e Santos, deixando vestígios que permanecem até os dias atuais. Sambaquis são marcos arqueológicos da costa Entre os registros mais conhecidos estão os sambaquis, montes formados por conchas, restos de alimentos, artefatos e até sepultamentos. Esses sítios arqueológicos, espalhados por diferentes pontos da Baixada Santista, revelam práticas culturais, religiosas e alimentares de grupos indígenas que viviam da pesca, coleta de mariscos e agricultura de subsistência. Os sambaquis podem alcançar até 30 metros de altura e são considerados verdadeiros monumentos históricos, alguns com mais de 4 mil anos. Além de depósitos de descarte, muitos eram locais sagrados, utilizados em rituais e sepultamentos, guardando ossadas humanas que permitem estudos sobre características físicas, doenças e modos de vida desses povos. A Tradição Itararé no Sudeste brasileiro Na região também foram identificados vestígios da chamada Tradição Itararé, cultura indígena que se estendeu por áreas do Sudeste e Sul do Brasil entre 500 a.C. e 1.500 d.C. Fragmentos de cerâmica, ferramentas de pedra lascada e polida e vestígios alimentares indicam a presença de aldeias organizadas, com saberes próprios de caça, pesca, coleta e produção artesanal. As cerâmicas Itararé, geralmente sem pintura, eram utilizadas para armazenar alimentos e cozinhar, demonstrando domínio de técnicas que, segundo arqueólogos, se aperfeiçoaram com o contato entre diferentes grupos indígenas ao longo dos séculos. Escavações arqueológicas em obras urbanas Boa parte dos achados ocorreu durante escavações obrigatórias em processos de licenciamento ambiental para obras de infraestrutura. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) determina que qualquer intervenção potencialmente destrutiva em áreas com indícios arqueológicos seja precedida por estudos e resgates, garantindo a preservação dos vestígios. Em São Vicente, por exemplo, artefatos indígenas foram localizados em escavações no centro histórico, próximo à Casa de Martim Afonso, comprovando que a ocupação humana na região é muito mais antiga do que o período colonial. Memória nacional Segundo o Iphan, todos os vestígios arqueológicos encontrados no território nacional são bens da União e devem ser protegidos. Após análises laboratoriais e catalogação, muitas peças integram acervos de museus, tornando-se acessíveis à população e reforçando a importância de políticas de conservação do patrimônio cultural. Estudar os povos originários que habitaram o litoral paulista há milênios permite entender a formação cultural brasileira de forma mais ampla. Cada fragmento cerâmico, cada ferramenta de pedra ou concha encontrada é uma peça do quebra-cabeça que compõe a história viva sob nossos pés, conectando o presente ao passado distante.