Mecânico ficou à espera de uma transferência via Cross, mas não resistiu (Arquivo Pessoal) O mecânico Milton Ribeiro Dutra, de 57 anos, era dedicado à família, completamente apaixonado pela esposa e um avô ímpar. Morador do Jóquei Clube, em São Vicente, amava sua profissão. Hoje, ele representa lembranças e sua morte é motivo de indignação nos filhos. Ele morreu no último dia 15 de maio, enquanto aguardava transferência para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Pronto-Socorro Municipal de São Vicente, condicionada a uma vaga por meio da regulação do sistema Cross (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde). Esse era o cuidado necessário para quem vivia um quadro grave de insuficiência respiratória, conforme relato da enteada, a auxiliar de farmácia Nayane Santos, de 35 anos. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Na segunda-feira (12), meu padrasto foi levado ao PS de São Vicente com sintomas de gripe e com bastante dificuldade na respiração. Passou por consulta e foi liberado para casa, com receitas de diclofenaco, ambroxol e dipirona, sem qualquer exame, como uma radiografia. Voltou para casa, onde ficou suportando o desconforto respiratório, sem saber a gravidade do seu quadro”, relata. Dois dias depois, na quarta-feira (14), Milton não aguentou mais a falta de ar e pediu para ser levado ao hospital. Teve que lidar com a demora para o atendimento, mas contou com a solidariedade dos demais pacientes, que testemunharam a gravidade da situação. “Levaram ele para triagem, onde a pressão estava 12x7, com a taxa de glicemia acima de 400 e a saturação 90. Mandaram subir para o atendimento e avisar que era código laranja (muito urgente, necessita de atendimento rápido, com tempo máximo de espera de até 10 minutos). Quando o médico viu o estado, ficou indignado e disse que era uma emergência”, descreve a enteada. Apreensão, mobilização e adeus A partir dali, as horas para Milton e os familiares tinham uma sensação adicional: apreensão sobre como tudo terminaria. “Ele foi colocado no oxigênio, sentado em uma cadeira de plástico. Enquanto isso, o deixaram sozinho, dispensando acompanhantes. Só que, por volta das 23 horas, ele saiu da sala de emergência sozinho e foi até a recepção, onde pediu telefone e ligou para a esposa, pedindo para buscá-lo. Quando ela chegou, depois de 15 minutos, o encontrou sentado na calçada com uma falta de ar gigante e a fisionomia irreconhecível”, descreve Nayane. Levado de volta para a emergência, o mecânico viu sua situação se agravar, levando à intubação. No dia seguinte (15), os familiares foram ver Milton e receberam a notícia de que ele estava à espera de uma vaga na UTI. Começou a espera por algo imprescindível, mas que não aconteceu. “Ele estava desde às 5 horas aguardando vaga para a UTI. Corremos desesperadamente pedindo auxílio para liberarem essa vaga. Buscamos ajuda com vereadores e até a Secretaria de Saúde, e a resposta era a mesma: 'Estamos aguardando vaga no Cross'. Por volta das 19h20, nos ligaram do hospital, porque o médico queria conversar. Chegamos lá e tivemos a notícia do falecimento”. Segundo Nayane, “a médica nos mostrou radiografia com o pulmão tomado. Ou seja: se quando ele passou a primeira vez pela unidade de saúde tivesse recebido atendimento decente, talvez poderia ter esse quadro revertido. Para nossa família e amigos, perdemos uma pessoa amada demais. Para quem cuida da burocracia do Cross, é apenas mais uma estatística”, finaliza a enteada. Outro lado Em nota, a Prefeitura de São Vicente, por meio da Secretaria da Saúde (Sesau), informou que “o paciente Milton Ribeiro Dutra deu entrada no Pronto-Socorro Central no dia 14 de maio. Foi atendido e medicado às 19h na sala de emergência. Às 23h, o mesmo evadiu da unidade". Ainda conforme a secretaria, uma hora depois, o mecânico retornou ao PS, acompanhado da filha, com queixa de desconforto respiratório, foi acolhido e passou por exames laboratoriais, raio X e eletrocardiograma. Após a análise do quadro clínico, constatou-se suspeita de infarto agudo do miocárdio. Milton foi entubado, à 1h30. "Após a entubação e a estabilização do quadro grave do paciente, às 4h40, ele foi inserido na vaga Cross - do Governo do Estado, na qual, a secretaria recebeu a comunicação que não teria vaga para recebê-lo. Às 19h17, foi constatado o óbito”, observou a Administração Municipal. Já a Secretaria de Estado da Saúde (SES/SP), também por meio de nota, afirma que "A Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross) lamenta o ocorrido e informa que realizou a busca de leitos com prioridade para a transferência do paciente M.R.D., conforme a atualização do caso pela unidade de origem. A Cross ressalta que não possui a função de criar leitos, mas de promover o acesso por meio da identificação de uma vaga no hospital mais próximo, seja ele municipal, estadual ou filantrópico, e apto a cuidar do caso".