A família de Nayara, moradora de São Vicente, alega que o diagnóstico foi tardio (Reprodução / Redes sociais) Sete meses de incertezas e idas frustradas a hospitais antecederam a morte de Nayara Alves Meng, de 28 anos, que não resistiu após uma infecção pulmonar evoluir silenciosamente até atingir o coração. A jovem, moradora da Área Continental de São Vicente, teve a vida interrompida no dia 19 de novembro e agora a família busca respostas para entender como a falta de diagnóstico preciso contribuiu para o desfecho trágico. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os laudos finais apontam que o coração de Nayara entrou em falência após uma grave infecção pulmonar e a ação de uma superbactéria resistente, quadro que, para a família, foi agravado pela demora na realização de exames e pelo uso contínuo e desordenado de antibióticos receitados ao longo de meses. Quem narra esses fatos é a irmã por parte de pai, Talita Leôncio Meng, que aceitou falar com A Tribuna a pedido da mãe de Nayara, incapaz de dar entrevistas no momento. “A gente só quer justiça. Nós não podemos deixar que isso aconteça com outras famílias”, afirma. Começou com tosse e febre Talita relata que a correria da irmã começou em março, quando Nayara, até então saudável, passou a apresentar febre, tosse persistente e falta de ar. Ela chegou a fumar cigarro eletrônico (vape) eventualmente em festas, mas parou assim que os sintomas surgiram. Entre março e setembro, segundo a família, Nayara buscou auxílio na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Zona Noroeste, no Pronto-Socorro (PS) Central de Praia Grande e no Hospital Municipal de São Vicente. Em todas as ocasiões, os diagnósticos mudavam, mas o tratamento não. “Disseram que era gripe. Depois, princípio de pneumonia. Depois, suspeita de tuberculose. Até asma diagnosticaram e deram bombinha”, lembra Talita. “Os médicos perguntavam qual antibiótico ela tinha tomado antes para prescrever outro. Eram receitas e mais receitas, mas ela só piorava”, afirma a irmã. Sem recursos, a família não conseguiu buscar por um atendimento particular. “Ela apresentava falta de ar, tosse com sangue e muita fraqueza. Mesmo assim, nunca pediam exames aprofundados e sempre negavam internação". Mesmo com o agravamento evidente dos sintomas, a internação, segundo a família, foi negada em diversas ocasiões. Tomografia, massa no pulmão e o pedido de biópsia rasgado Com o avanço dos sintomas, Nayara precisou ser internada em junho, no Hospital Irmã Dulce, em Praia Grande, onde ficou por 22 dias. Uma tomografia revelou a presença de uma massa no pulmão e 1,6 litro de líquido foram drenados. “Houve um pedido de biópsia feito por uma médica do plantão. Mas um outro médico disse que não havia necessidade, rasgou o pedido e deu alta para ela se tratar em casa com antibiótico novamente”, afirma a irmã. A melhora durou pouco. Dias depois, Nayara voltou a piorar. Investigação tardia Em setembro, debilitada, Nayara foi levada à UPA Central de Santos, onde ficou internada por dez dias até ser transferida ao Hospital dos Estivadores. Ali, segundo a família, pela primeira vez houve uma investigação completa: biópsia, broncoscopias, exames diários e novos exames de imagem. “Eles fizeram tudo o que puderam. Mas já era tarde. A bactéria estava resistente a tudo por causa do excesso de antibióticos desses meses todos". O sofrimento da jovem durante o período de internação foi extremo: “Ela chorava de dor. Eram três drenos, sonda, vários acessos venosos. Ela tinha medo de ser intubada e não voltar. Foi intubada no dia 15, teve uma parada cardíaca no dia 19 e não resistiu". O resultado da biópsia, confirmando a presença do microrganismo agressivo, saiu horas antes da morte, relata a irmã. “O problema não é o vape. É a negligência” Para a família, a tentativa de reduzir tudo ao dispositivo eletrônico mascara o que consideram o verdadeiro problema: “Negaram internação, negaram exames, negaram investigação. Rasgaram um pedido de biópsia. A superbactéria surgiu porque o tratamento foi errado por muito tempo”. Procura por justiça A família já busca orientação jurídica e pretende levar o caso às autoridades. “Estamos procurando ajuda, mas é difícil. Cada vez que contamos, revivemos tudo”, diz Talita. O que eles mais desejam, agora, é que a morte de Nayara provoque mudanças. “Não queremos que outra família passe por isso. Minha irmã pediu ajuda. Tinha tempo de tratar. Mas não a deixaram viver”, lamenta Talita. Repostas Em nota, a Prefeitura de São Vicente informou, por meio da Secretaria de Saúde (Sesau), que o atendimento prestado à paciente no Pronto-Socorro Central, em 31 de agosto, seguiu os protocolos recomendados pelo Ministério da Saúde, sendo conduzido por equipe médica e seguindo critérios técnicos de urgência e emergência. Na ocasião, "a paciente passou por uma avaliação completa, incluindo exame clínico, verificação dos sinais vitais, exames laboratoriais e radiografia de tórax. Os resultados dos exames não mostraram sinais de gravidade, nem indicaram a necessidade de internação imediata". Ainda segundo a pasta, de acordo com os protocolos para doenças respiratórias, como pneumonia e suspeita de tuberculose, a internação só é indicada quando há sinais de emergência, como falta de ar grave, risco de infecção generalizada ou queda importante da pressão. "Nenhum desses sinais estava presente. E diante do quadro instituído, o tratamento ambulatório foi apropriado, com orientação médica completa e indicação para retorno em caso de piora, conduta prevista e recomendada em protocolos nacionais para situações desse tipo". A Sesau reforçou que o atendimento ocorreu em 31 de agosto, enquanto o óbito aconteceu em 19 de novembro, quase três meses depois. "Nesse intervalo, a condição clínica da paciente pode ter evoluído, como ocorre em diversas doenças respiratórias de evolução prolongada, especialmente quando associadas a infecções crônicas, agravamentos progressivos ou complicações tardias". Em nota, a Prefeitura de Praia Grande, por meio da Secretaria de Saúde Pública, e a Biogesp informou que a referida paciente deu entrada no Pronto-Socorro Central e de lá foi encaminhada para o Hospital Municipal Irmã Dulce, onde permaneceu internada e recebeu todos os cuidados necessários da equipe de saúde, tendo realizado uma série de exames para investigação das causas dos sintomas que ela apresentava. Após o período de internação e melhora clínica, a paciente recebeu alta e foi encaminhada para dar continuidade em atendimento ambulatorial na unidade de saúde do seu município de origem. Já a Secretaria de Saúde de Santos lamentou o falecimento e informou que a paciente, moradora de São Vicente, deu entrada na UPA Central de Santos em 1º de outubro, realizou exames laboratoriais e de imagem e, após o resultado dos exames, foi solicitada vaga de enfermaria no dia seguinte. O leito foi cedido pelo Complexo Hospitalar dos Estivadores em 5 de outubro. O Complexo Hospitalar dos Estivadores informou que conduziu todos os esforços e cumpriu os protocolos de atendimento previstos para o caso. Disse ainda que, durante o período de internação, "a paciente foi atendida de forma integral, de acordo com as melhores práticas, com o empenho de equipes especializadas e os recursos necessários". O hospital complementou que, com relação ao quadro clínico de pacientes, as informações são protegidas pela legislação e pelo sigilo médico, mas atualizadas diariamente para os familiares.