Zona Noroeste de Santos: paixão dos moradores

Região completa 44 anos neste domingo, sem festa, mas com muitas histórias para contar

O asfalto e os muros altos das casas da Rua José Dias de Moraes, no Bom Retiro, nem de longe lembram o cenário da década de 1960, quando dona Terezinha da Silva Souza, de 77 anos, escolheu esse bairro da Zona Noroeste para morar. A dona de casa acompanhou de perto quase seis décadas de transformações, da lama à pavimentação, passando pela implantação de postes e a substituição das pequenas cercas que rodeavam as moradias. De lá para cá, sempre teve uma certeza: lugar bom de morar é ali. 

“Durante muitos anos colocamos cadeiras na porta para bater papo. Hoje me dia fazemos isso menos, por causa da malandragem, mas ainda é um lugar tranquilo. Os vizinhos são unidos e a gente sabe que pode contar com todos. Não trocaria a Zona Noroeste por nada”.  

Terezinha mora com o marido, o aposentado Adalberto José de Souza, de 77 anos, e os dois filhos. “Aqui temos plantas no quintal e a Terezinha conversa com elas todo dia”, brinca Adalberto. “Mudar daqui, só se for para ali”, sorri o aposentado, apontando para a esquina.  

De bike pela ZN 

Figura conhecida, Manoel dos Santos, de 74 anos, é visto com frequência pedalando sua bicicleta pelos bairros Areia Branca, Castelo, Bom Retiro e Rádio Clube, onde mora. Vive na Zona Noroeste há mais de 60 anos. Nela, encontrou seus amores e construiu uma grande família: casou cinco vezes e tem dez filhos.  

Manoel, seis décadas de ZN e muitas pedaladas pela região (Matheus Tagé/AT)

“Aqui tem hospital, igreja, distrito policial. Tudo o que a gente precisa. Não há lugar melhor, conheço todo mundo e considero a ZN uma família”. Nesse aniversário de 44 anos da Zona Noroeste, Manoel dispensa bolos e festas e ainda sonha com um presente que nunca veio: o fim das enchentes. “É a única coisa que estraga a Zona Noroeste. São muitos anos e ninguém resolve. Se não fosse isso, era o melhor lugar do mundo”. 

Doce lar 

Nascida, criada e casada na Zona Noroeste, a dona de casa Tânia Guimarães Freire, de 57 anos, hoje moradora no Castelo, lembra com carinho da infância no Santa Maria, das brincadeiras no Jardim Botânico e no Centro Esportivo e Recreativo M. Nascimento Jr. Agora, curte também os desfiles das escolas de samba. Sua casa virou um camarote para a Passarela Dráuzio da Cruz. 

Tânia está na Zona Noroeste desde a infância (Foto: Matheus Tagé/AT)

“Nossa Zona Noroeste cresceu muito, está ficando populosa demais. Mas isso é sinal de desenvolvimento. Um lugar onde tudo era mangue, hoje tem com prédios e muita gente de fora vindo morar aqui. É um lugar gostoso de se viver, se diminuíssem as enchentes ficaria melhor ainda”.  

Trabalho a fazer 

Sobre as enchentes, a Prefeitura de Santos afirma, em nota, estar implantando um conjunto de ações pelo Programa Nova Entrada de Santos. “Executou galerias de grandes dimensões, refez drenagens com dimensões avantajadas, adaptando os sistemas antigos à atual realidade das áreas municipais, para que façam a condução das águas pluviais em índices, de volume e velocidade necessários para evitar alagamentos”.  

De olho no futuro, Zona Noroeste faz 44 anos neste domingo (Matheus Tagé/AT)

A Administração Municipal lembra que o fim dos históricos alagamentos ainda depende da conclusão de investimentos por parte do Estado e da União na entrada de Santos. Um dos principais pontos é a construção de uma estação elevatória, no fim da Via Anchieta, para dar vazão à água da maré e da chuva em um dos pontos mais críticos de históricos alagamentos. 

O projeto foi executado pela Ecovias e está sendo analisado sob o aspecto econômico pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp). Ainda não foi informado prazo para que os trabalhos sejam feitos. 

Sem festa 

Neste ano, por causa da pandemia, a Prefeitura não realizará o tradicional desfile cívico-militar em comemoração ao aniversário da Zona Noroeste. Segundo a Administração Municipal, considerando o Censo Demográfico de 2010, a Zona Noroeste contabilizava 82.133 habitantes, correspondendo a 19,5% da população de Santos. Atualmente, a estimativa é que cerca de 100 mil habitantes morem nos bairros da área.  

A ocupação de parte dos 16 bairros que formam a Zona Noroeste teve início na década de 1920, passando por uma intensificação três décadas depois. A contagem oficial e a data de comemoração do aniversário da Zona Noroeste são simbólicas, com celebração sempre no último domingo de agosto, devido à Lei Municipal 4.047, de 1976. 

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