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Domingo

26 de Janeiro de 2020

Vou sair pra catar gente! Projeto estampa diversidade nos muros de Santos

Iniciativa de ocupação fotográfica busca democratizar e discutir o acesso à arte. Documentário retrata as etapas do projeto e terá primeira exibição neste sábado (7)

Vou sair pra catar gente! A frase pode soar estranha a princípio, mas ela dá título ao projeto de ocupação fotográfica em Santos, pelo olhar da fotógrafa Biga Appes, de 59 anos. Personalidades da região estampam muros que antes passavam despercebidos pelos moradores da Cidade. Ela escolheu os participantes para exibir a diversidade e registrou cada um à sua maneira. A iniciativa foi contemplada no Programa de Apoio Cultural Facult 2017, com verba de R$ 12 mil.   

"Fizemos seis ensaios fotográficos com 'ativistas' da cidade especialmente para o projeto, além de imagens de acervo. A ideia é democratizar e discutir o acesso à arte, o espaço público, trazer representatividade por meio das imagens e provocar reflexões no meio urbano".

Colagem no Canal 3, esquina com a Rua Alexandre Herculano. (Foto: Biga Appes)

Os fotografados representam diversidade de vivências e luta de causas. Foram seis personalidades da região escolhidas por Biga. “Renata Carvalho é uma atriz trans de Santos, super estudiosa e fala sobre transxesualidade. Muito representativa. A Preta-Rara é uma rapper, recentemente lançou o livro ‘Eu, Empregada Doméstica’. A Priscila Ribeiro é atriz, agora também conselheira tutelar de Santos, feminista! Chico Melo é um artista plástico maravilhoso, nordestino que traz toda uma história no trabalho. Geraldo Varjabedian é um ativista ambiental, super intenso no que faz. Lúcia Lux e Maurão são um casal de negros. Todos representam a diversidade e a fotografia une essas linguagens”.

Rapper Preta Rara foi uma das fotografadas para o projeto. (Foto: Biga Appes)

 

Além dos ensaios com as personalidades da região, Biga também agregou fotos tiradas em outros momentos para integrar o projeto. Foram cerca de 55 fotos coladas em formato lambe-lambe nos muros de Santos (confira abaixo os locais). A técnica foi escolhida por ser prática e de baixo-custo. “Esse formato de lambe-lambe eu vejo bastante em São Paulo. É bem bonito de expor o trabalho e acessível a todos. Assim dá para demonstrar que a arte não está restrita em museus, galerias... está nas ruas também”, enfatiza. 

Renata Carvalho é fundadora do Movimento Nacional de Artistas Trans - MONART. (Foto: Biga Appes)

Mas como a técnica lambe-lambe pode durar pouco em decorrência de chuvas ou das fotos serem retiradas dos muros, e o Facult exige uma contraproposta para beneficiar a sociedade, Biga e a equipe do projeto realizaram o ciclo de oficinas de Sensibilização à Fotografia - Um Olhar Sobre o Autorretrato na Vila Criativa da Vila Progresso e do Morro Penha, e para a comunidade do Morro da Nova Cintra. “Foi bem bonito. As fotos da oficina também estão nos muros”, diz. 

"Documentário-poético-caiçara"

A última ação da iniciativa será neste sábado (7) com a exibição do documentário Vou Sair Pra Catar Gente. Um documentário-poético-caiçara, como descreve Cibele Appes, responsável pela direção e roteiro do filme. A sessão é aberta ao público e está marcada para às 16h, no auditório Jornalista Carlos Mauri Alexandrino da Vila Criativa do Morro da Penha (Rua Newton Braga, s/nº). A narrativa mostrará os bastidores das fotografias e de todas as etapas do projeto, eternizando o que foi realizado. 

Documentário vai retratar as etapas do projeto. (Foto: Biga Appes) 

Também está prevista a exibição do filme no próximo dia 20, a partir das 19h, no Museu da Imagem e do Som (MIS). Depois desta data, estará acessível ao público no Youtube e em outras mídias sociais.

"Catadora de gente"

O nome do projeto surgiu há cerca de 28 anos, pelo interesse da fotógrafa por pessoas. “Isso aconteceu quando minhas filhas eram pequenas. A gente estava em viagem e apareceu um menino indígena pequeno, ele não falava nada, se chamava Willian. Eu fui fazer uma foto dele e ele fez uma cara de bravo, aí uma das minhas filhas ficou olhando para mim e olhando para ele. E eu falei: Vou sair pra catar gente ou um índio chamado Willian. Desde então falo essa frase. O projeto surgiu daí, e essa é minha vontade, continuar catando gente. Eu sempre falo que sou uma catadora de rua. O cotidiano me interessa muito”, explica.

Locais com as colagens

Pompeia - Rua Marquês de São Vicente, no trajeto do VLT, próximo ao canal 1 
Morro da Penha - Vila Criativa do Morro da Penha – Rua Newton Braga, 39
Vila Progresso - Vila Criativa da Vila Progresso – Rua Três, s/nº
Vila Mathias - Rua Anhanguera, 20, ao lado do ateliê Gravurar, de Márcia Santtos
Boqueirão - Rua Liberdade, 44, no ateliê 44
José Menino - Rua Gaspar Ricardo, no trajeto do VLT, próximo à UME José da Costa Sobrinho  
Encruzilhada - Rua Carvalho de Mendonça, esquina com a rua Pérsio de Queiroz Filho
Gonzaga - Avenida Washington Luiz com rua Alexandre Herculano
Valongo - Rua Marquês de Herval com rua São Bento (em frente ao Burako´s Bar) e rua Visconde de Vergueiro com rua São Bento (ao lado do Boteco Valongo)

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