Hermínia foi casada com Manoel por 58 anos; ela conseguiu realizar o sonho deles (Arquivo pessoal) Não era um clássico nem uma partida decisiva. Tratava-se de um jogo contra o Novorizontino, pelo Campeonato Paulista. Ainda assim, a tarde de sábado, no dia 10 de janeiro, ganhou um significado especial para Hermínia Sartori de Souza, de 79 anos. Moradora de Piraju, no interior de São Paulo, ela realizou um sonho guardado por toda a vida: ver o Santos Futebol Clube de perto, na Vila Belmiro, estádio que sempre acompanhou pelo rádio e pela televisão. (Veja vídeo abaixo) Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Por 58 anos, a dona de casa compartilhou a paixão pelo Peixe com o marido, Manoel Vieira de Souza, tão fanático quanto ela. O desejo do casal era conhecer o estádio juntos, mas o tempo não permitiu. Manoel morreu dois meses antes da visita, em 10 de novembro de 2025. “Gostaria que meu esposo estivesse junto. Não deu para ele ir, mas chorei de alegria por conseguir”, contou Hermínia à reportagem de A Tribuna. O passeio foi organizado pela filha, a assistente social Eliseth Sartori de Souza, de 47 anos, pela nora, Ana Carolina de Lima, de 39 anos, e pela neta, a professora Priscila de Lima Ramalho, de 34. A ideia era tirar Hermínia da rotina do luto e levá-la para alguns dias de descanso no litoral. “Eu nunca tinha ido para Santos. Cheguei lá e amei. As pessoas são muito educadas. Fui à praia, andei de balsa, vi os navios. Para mim, já estava ótimo”, relembra. A família ainda visitou o Museu Pelé, onde Hermínia acreditava que o passeio terminaria. Após comprar uma camisa oficial, tirar fotos e relembrar momentos históricos do clube, ela se preparava para ir embora quando foi surpreendida. Já dentro do carro, a filha anunciou o verdadeiro destino: a Vila Belmiro. “Eu chorei na hora”, recorda. Uma vida inteira de Santos Hermínia cresceu em um sítio em Tejupá, cidade vizinha de Piraju, a cerca de 430 quilômetros de Santos. O amor pelo futebol nasceu ainda na infância, ouvindo partidas pelo rádio com o pai, corintiano. “Eu discutia com ele. Eu falava que nunca seria corintiana. Eu sou santista”, afirma, orgulhosa. O destino quis que o companheiro de vida também carregasse o mesmo escudo no peito. No início do relacionamento, ela não sabia que Manoel era santista, a descoberta veio já no namoro. Desde então, o Santos acompanhou o casal até o fim. Pé quente Ao entrar no estádio, Hermínia não conteve as lágrimas. A cena imaginada por décadas finalmente se materializava. “Eu chorei de alegria. Era o meu sonho. Eu nasci santista e casei com um santista”, diz. Para ela, a coincidência das datas fez tudo parecer ainda mais simbólico. “Dava a impressão de que ele estava ali perto de mim”, conta, como se Manoel ocupasse o assento ao lado. Mesmo sozinha na arquibancada, Hermínia fez festa. “Fiquei sozinha, mas fiz minha festa sozinha”, brinca. A competitividade aflorou logo após o apito inicial. “Eu pulei, gritei, torci mesmo. Até chamei o juiz de ladrão”, diz, aos risos. O início do jogo não foi favorável, e ela chegou a temer que a estreia na Vila Belmiro terminasse em derrota. “Pensei: ‘Será que vou embora com meu time perdendo?’ Não. Vai ganhar”. E ganhou. O Santos venceu por 2 a 1, garantindo à torcedora a fama de pé quente. O que fica De volta para casa, o luto ainda se faz presente. “A gente viveu tanto tempo juntos… de repente um vai embora e o outro fica”, desabafa. Ainda assim, a tarde histórica ajudou a atravessar a dor. “É difícil, mas voltei feliz. Feliz por ver meu time ganhar”, afirma. Hermínia garante que nunca esquecerá aquele dia e já projeta novos sonhos. O próximo? Ver Neymar jogar de perto. E se surgir a chance, ela não pensa duas vezes: “Quem é que não quer? Nunca é tarde”. -Idosa na Vila Belmiro (1.498277)