É preciso tomar alguns cuidados para não contrair doenças na praia; veja a seguir (Alexsander Ferraz / AT) No verão de 2025, o litoral de São Paulo enfrentou um problema que chamou atenção das autoridades de saúde, dos serviços de emergência e dos frequentadores das praias: o registro de um surto de gastroenterite com sintomas intensos de diarreia, vômitos e mal-estar geral, associado à presença de norovírus entre banhistas e também ao aumento de praias impróprias para banho na Baixada Santista. Em janeiro deste ano, boletins da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) indicaram que 51 praias do litoral paulista estavam classificadas como impróprias para banho, o que significa que os indicadores microbiológicos de contaminação por bactérias fecais excederam os limites permitidos para atividades recreativas no mar — um sinal de risco maior de contrair virose na praia e outros problemas de saúde para quem entra na água. Com o início da nova temporada de verão, a pergunta que fica é: há risco de pegar 'virose' na praia? Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O Ministério da Saúde classifica os norovírus e rotavírus como agentes importantes das gastroenterites agudas, com transmissão pela via fecal-oral, ou seja, por meio da ingestão de água ou alimentos contaminados ou por contato com superfícies ou pessoas infectadas. A infraestrutura de saneamento deficiente e a grande concentração de pessoas em períodos de férias tornam ainda mais favorável a propagação desses agentes. Em meio a esse contexto, o infectologista Evaldo Stanislau chama a atenção para um equívoco comum na linguagem popular ao chamar todos esses quadros de “virose”. “Virose não é um termo adequado. É um termo inespecífico, genérico e muitas dessas infecções não têm origem viral, elas podem ter origem, por exemplo, bacteriana”, explica. Stanislau reforça que é mais preciso identificar o quadro clínico pelo sintoma ou sinal que o caracteriza, como um “surto de diarreia, um surto de conjuntivite, um surto de micose na pele”. Risco no mar e fora dele O médico enfatiza que a água do mar só reflete um risco para a saúde quando está contaminada por esgoto ou outros resíduos humanos. “A água do mar evidentemente reflete o risco na medida em que ela seja contaminada por esgoto”, afirma, lembrando que, apesar de o ambiente marinho ter elementos que dificultam a proliferação de microrganismos, a presença de esgoto misturado à água aumenta substancialmente a probabilidade de contato com agentes infecciosos. Stanislau detalha que não são apenas os banhistas que podem ser afetados. A aglomeração de pessoas em apartamentos e alojamentos com infraestrutura inadequada de higiene, o mau acondicionamento de alimentos e, em especial, a procedência duvidosa da água ou do gelo usados em bebidas também favorecem a disseminação de microrganismos. O infectologista observa que “o consumo de água de fonte não adequada", inclusive "na forma de gelo”, é um fator de exposição que muitas vezes passa despercebido pelos frequentadores das praias, assim como a manipulação de alimentos por pessoas que não higienizam adequadamente as mãos. Segundo Stanislau, agentes como norovírus e rotavírus — este último com vacina disponível no calendário do Sistema Único de Saúde (SUS) — são responsáveis por grande parte dos quadros de diarreia, principalmente em crianças, enquanto bactérias como Salmonella e E. coli podem causar intoxicações alimentares e gastroenterites bacterianas que se propagam também pelo consumo de alimentos contaminados. O médico destaca ainda que na areia da praia podem ocorrer micoses e bicho geográfico, e que a transmissão de conjuntivite pode estar relacionada ao contato de mãos contaminadas com os olhos. Os sintomas mais comuns desses quadros incluem diarreia aquosa, vômitos, náuseas, dores abdominais, febre e, em alguns casos, irritação ocular ou manchas na pele causadas por infecções superficiais. Embora a maioria dos quadros seja autolimitada e dure alguns dias, crianças menores de 2 anos, idosos e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos mais vulneráveis, com maior risco de desidratação e complicações mais severas se não houver atenção médica adequada. Evite Para proteger a população durante períodos de maior frequência de banhistas, as orientações oficiais das secretarias de saúde e da própria Cetesb incluem a consulta regular aos boletins de balneabilidade antes de entrar no mar e evitar o contato com água de praias classificadas como impróprias, especialmente após chuvas fortes, quando a contaminação tende a se intensificar. Além disso, recomenda-se a higiene rigorosa das mãos com água e sabão ou álcool em gel, a ingestão de água potável de procedência conhecida, a atenção à procedência do gelo e dos alimentos consumidos na praia e a conservação adequada destes itens sob refrigeração. Stanislau reforça que “exigir sempre que os ambulantes, as pessoas que manipulam alimentos, estejam em boas condições de higiene e usem álcool em gel ou lavem as mãos adequadamente” pode reduzir substancialmente os riscos de contaminação. O Ministério da Saúde e as secretarias de saúde reforçam que a hidratação contínua é essencial em casos de gastroenterite, e que deve ser feita com pequenos volumes frequentes de líquidos, podendo incluir água, soluções de reidratação oral ou isotônicos, especialmente em crianças menores, idosos ou em pessoas que apresentam vômitos persistentes. A busca por atendimento médico é recomendada quando houver sinais de desidratação, vômitos incontroláveis ou sintomas que não melhoram após alguns dias.