Dentro e nos arredores do túnel, no José Menino, em Santos, a violência é invisível, sem registros oficiais (Alexsander Ferraz/ AT) Em meio ao caos da cracolândia, onde a vulnerabilidade é regra e a sobrevivência é diária, a violência contra as mulheres se impõe como uma realidade constante, ainda mais intensa pelos efeitos das drogas a que estão submetidos seus agressores. Sem que os casos tenham registros oficiais, a situação se torna invisível para a sociedade e para os órgãos públicos municipais e estaduais. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Essa é uma das constatações de um estudo inédito feito pelo servidor público Paulo Rogério Alves Rodrigues, que atua no atendimento à população em situação de rua na área conhecida como cracolândia, dentro e perto do túnel do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), no José Menino, em Santos. O estudo — intitulado Violências Consentidas. As Mãos Invisíveis do Estado e do Mercado na Produção de Violência contra a Mulher Usuária Compulsiva de Drogas na Cracolândia do Bairro José Menino, em Santos —, foi desenvolvido no mestrado profissional em Psicologia, Desenvolvimento e Políticas Públicas, elaborado com orientação do professor Hélio Alves, na Universidade Católica de Santos (UniSantos). Paulo ouviu 20 mulheres usuárias de drogas, de 20 a 50 anos, entre dezembro de 2023 e janeiro de 2024, com um questionário de perguntas abertas e múltipla escolha. Todas disseram já ter sofrido agressões verbal, física e/ou psicológica, e 85% responderam tê-las sofrido mais de uma vez. Motivação Paulo Alves, na função há mais de uma década, explica que o motivo para escolher essa temática no mestrado profissional decorreu da observação e do convívio com aquela população. “Muitas têm marcas pelo corpo e falam sobre isso, mas eu queria ter dados mais concretos e técnicos para avaliar qual era o tamanho desse cenário.” A cracolândia do VLT tem, em sua maioria, pessoas em situação de rua. Segundo censo de 2018 com essa população, a maioria é de homens (82%). No estudo, Paulo Alves cita pesquisas científicas que ligam a violência aos efeitos provocados pelo uso de drogas como o crack: impulsividade, transtornos de atenção e hiperatividade, transtorno de personalidade antissocial e potencialização da agressividade. “Assim como culturalmente se culpa a vítima pelo sofrimento, o poder e a sociedade depositam nela toda responsabilidade por se expor: ‘Elas estão ali porque querem’, repete o senso comum. É como se a condição de viver em área livre e ser dependente química justificassem sua expulsão do estado democrático de direito. A Lei Maria da Penha e a Delegacia da Mulher não chegam à cracolândia porque, a priori, elas foram coletivamente condenadas a uma espécie de prisão perpétua social”, diz Paulo no trabalho. Paulo Alves (à esquerda), autor do estudo, ouviu mulheres usuárias de drogas; ele e Hélio (à direita) propõem observatório (Arminda Augusto/ AT) Invisíveis “São mulheres invisibilizadas, que não existem nas estatísticas de violência e, portanto, não têm acesso a direitos e serviços básicos de proteção”, diz Hélio Alves, psicólogo, professor universitário e orientador do estudo. Das entrevistadas, apenas 20% disseram ter encontrado apoio após a violência e, dessas, 75% afirmaram que veio dos amigos. Além disso, 80% disseram ser obrigadas a fazer sexo, 75% não superaram a violência e 70% têm a sensação permanente de ameaça. Observatório Paulo e Hélio entendem que, para atenuar o problema e dar encaminhamento adequado, seria necessária uma espécie de observatório, que oferecesse informações científicas complementares, para contribuir na melhora do atendimento do serviço público à população em situação de vulnerabilidade social. Funcionaria em parceria com a universidade, produzindo dados que sustentassem políticas específicas.