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Quarta-feira

20 de Novembro de 2019

Uma obra de arte a serviço da educação

Prédio da Escola Acácio de Paula Leite Sampaio, em Santos, é fruto de criativo e histórico trabalho dos arquitetos paulistanos Décio Tozzi e Luis Carlos Ramos

São Paulo, 1963. Os arquitetos Décio Tozzi e Luis Carlos Ramos estavam debruçados sobre os croquis que acabavam de concluir, depois de muito maturar sobre o que oferecer aos santistas como solução de abrigo ao Instituto Municipal de Comércio. Embebidos dos preceitos da moderna arquitetura paulista, notadamente da estética crua do brutalismo, que privilegia a construção de espaços de forma organizada para a boa prática das atividades humanas, Tozzi e Ramos se entreolharam e sorriram, satisfeitos com o resultado materializado de suas mentes abertas. Não só ofereciam uma saída para a instalação definitiva do instituto, como brindavam Santos com um estudo de urbanização de um importante trecho da Vila Nova, propondo a edificação não só de um prédio, mas de um campus educacional que prometia novos rumos aos jovens santistas.

A proposta era promover a transformação da paisagem urbana numa região que começava a ganhar contornos de decadência (as elites já deixavam a Vila Nova rumo aos bairros da orla desde os anos 1920). O ponto central dessa metamorfose se concentrava no edifício idealizado para a Escola Municipal de Comércio, que se situaria numa esplanada interligada a outras quadras por meio de plataformas elevadas sobre as ruas Braz Cubas e Sete de Setembro.

O edifício central, que viria a se tornar a Escola de Comércio Acácio de Paula Leite Sampaio, foi, então, erigido em concreto, com salas tipo anfiteatro, ateliê flexível para aulas práticas, áreas administrativas, sanitários e cantina. O maior diferencial do projeto ficou por conta da iluminação interna, aspecto determinante para o seu enaltecimento por parte da comunidade internacional de arquitetura.

Tozzi e Ramos utilizaram preceitos físicos para fazer com que a luz natural penetrasse no alto da edificação e percorresse os andares de baixo, refletindo nas paredes de concreto até alcançar o plano de estudos dos laboratórios.

Acácio e Avelino, irmãos e sobreviventes

A viabilização das ideias concebidas pela dupla, no entanto, concentrou-se apenas no projeto do Acácio, que ainda assim demorou a vingar. Foi somente em 1969, na gestão do prefeito Silvio Fernandes Lopes, que o prédio foi concluído. Naquele mesmo ano era terminada a obra da Escola Municipal Avelino da Paz Vieira, projeto da Prodesan concebido também nos moldes brutalistas, ainda que com outra estética.

O Avelino apresentava salas com janelas voltadas ao exterior e ventilação cruzada, enquanto o Acácio possuía espaços interiores mais próximos a uma clausura, com luz difusa e ventilação vindas do teto, com uso de sheds. Embora projetados por grupos distintos, os prédios foram, de certa forma, vislumbrados por Tozzi e Ramos. Eram uma espécie de irmãos.

Capacitação profissional

A Escola de Comércio Acácio de Paula Leite Sampaio era herdeira do Instituto Municipal do Comércio, entidade que capacitava jovens secundaristas (atual Ensino Médio) ao mercado de trabalho, em especial nas atividades do Porto. As aulas aconteciam no período noturno da Escola Municipal Olavo Bilac, na Vila Belmiro. Com o crescimento da demanda, nos anos 1960, a Prefeitura mandou erguer uma edificação para a instituição. Contratou Tozzi e Ramos para a tarefa.

Após inaugurado, em 13 de abril de 1969, o prédio iniciou suas atividades dentro da proposta pedagógica de Ensino Técnico. As aulas eram noturnas, das 19h30 às 23 horas. Com o tempo, o espaço ganhou um escritório modelo de contabilidade, sala de projeção de vídeos e laboratórios. Os alunos eram diplomados após três anos de estudos e qualificados em Ciências Contábeis. A capacidade era para cerca de 500 estudantes.

Tombamento e fim das atividades

Em 2007, a Secretaria de Educação de Santos solicitou a abertura de estudo de tombamento da edificação de Tozzi e Ramos, que foi oficializada anos depois pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico de Santos. As atividades da escola acabaram paralisadas em 2013. No ano seguinte, a Prefeitura passou a gestão da unidade ao Centro Paula Souza. No entanto, a parceria não vingou, e o prédio acabou fechado.

Em outubro último, a edificação histórica voltou a ganhar nova chance de uso, com o repasse do prédio à Câmara de Santos. O Legislativo pretende utilizar o precioso espaço para o cumprimento de sua finalidade: a educação voltada à cidadania plena. Nada melhor do que um lugar onde a luz esparge para todos os lados para instigar nos jovens santistas a reflexão e boas práticas comuns.

Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho em www.memoriasantista.com.br.

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