Construção do Pavilhão dos Tuberculosos, nas encostas do Morro do Fontana, no início da década de 1910 (Reprodução) A tuberculose, por séculos temida como peste branca ou doença do peito, encontrou na cidade de Santos, no início do século 20, um dos mais notáveis centros de combate e tratamento no Brasil: o Pavilhão dos Tuberculosos da Santa Casa de Misericórdia. A cidade, que enfrentara sucessivas epidemias de febre amarela, varíola, tifo, coqueluche e outras doenças infectocontagiosas ao longo do século 19, ainda enfrentava, nos primeiros anos do século 20, sérios desafios em termos de saúde pública. O clima quente e úmido da região, aliado às precárias condições sanitárias, à rápida expansão urbana e às duras jornadas de trabalho no porto — principal atividade econômica local — criavam um ambiente propício para a disseminação da tuberculose, que à época ainda não possuía tratamento eficaz ou cura conhecida. Nesse contexto, os santistas, mais especificamente a Irmandade da Misericórdia, que mantinha o principal hospital da cidade, determinou a construção de um pavilhão isolado, junto à encosta do Morro do Fontana, inaugurado em 1914, dando início a uma das ações mais amplas e eficazes no combate à doença em território brasileiro. A doença e o desafio sanitário A tuberculose, causada por bactérias do gênero Mycobacterium, já assolava a humanidade há milênios. No Brasil, disseminou-se com força desde o período colonial, favorecida pelas más condições de higiene e desconhecimento sobre sua transmissão. Em Santos, os primeiros registros oficiais surgiram em 1854. A Santa Casa de Misericórdia já atuava no combate à moléstia desde ao menos 1875, tratando os doentes em alas separadas — uma medida que, embora necessária, era precária e gerava desconforto. A construção do Pavilhão A necessidade de um hospital de isolamento levou a Irmandade a lançar uma campanha de arrecadação de fundos em 1906. Doações de figuras como Francisco Marcos Inglez de Souza (presidente da Associação Comercial de Santos) e o empresário Francisco Serrador (dono do Teatro Coliseu) somaram esforços à vontade institucional. Em 1909, com a aprovação do projeto arquitetônico assinado por Egídio Martins Ferreira e João Bernils, elogiado por médicos e engenheiros as obras foram iniciadas, enfrentando desafios geográficos e estruturais. Com dificuldades de financiamento público, a Santa Casa optou por aquisições diretas e importações de material hospitalar da Europa. A instalação foi finalizada em 1912, com equipamentos modernos e um elevador de duas cabinas (único em Santos, no estilo do Elevador Lacerda, de Salvador). A inauguração oficial ocorreu em 9 de março de 1914, sendo o médico Raymundo Soter de Araújo o primeiro responsável clínico. A inauguração do Pavilhão ocorreu em 9 de março de 1914 (Reprodução) Atuação, epidemias e reconhecimento O novo hospital para tuberculosos iniciou as atividades com 27 pacientes e atingiu 36 até o fim do primeiro ano. Em 1915, 255 enfermos foram atendidos, mas ainda com uma taxa de mortalidade alta, de 41%. A cobertura do terraço, projetada por Ramos de Azevedo, e a instalação de novos equipamentos marcaram os anos seguintes. Durante a epidemia de gripe espanhola, em 1918, a seção foi preservada da contaminação graças ao rigor dos protocolos adotados. Nos anos 1920, o médico e poeta José Martins Fontes assumiu a chefia do Pavilhão, mantendo o padrão de cuidado humanizado. Entre 1926 e 1927, foram registrados 448 internamentos. Em 1928, o Pavilhão escapou ileso do desmoronamento do Monte Serrat, que atingiu o prédio principal da Santa Casa. Sala dos inaladores: equipamentos foram importados da Europa (Reprodução) Reformas e homenagens Na década de 1930, o prédio passou por reformas completas, implementando práticas sanatoriais modernas. Médicos como Paulo de Oliveira Santos Dias, Alberto Aulicino e Dirceu V. dos Santos participaram da reestruturação. Em reconhecimento à dedicação de Raymundo Soter de Araújo, o hospital foi renomeado como Pavilhão Dr. Soter de Araújo, perpetuando sua memória no seio da instituição. Expansão, campanhas e assistência Com a crescente demanda, novas enfermarias foram adicionadas e uma cozinha independente foi criada. Campanhas como a Semana Pró-Tuberculosos arrecadaram fundos para melhorias. Em 1937, uma nova máquina de raios X foi adquirida. Já em 1939, o pavilhão operava com 200 leitos, atendendo também a pacientes transferidos para o Sanatório da Santa Casa em Campos do Jordão, aberto em 1935. Nacionalização e fim das atividades Nos anos 1940, reformas no prédio incluíram nova pintura e ampliação da capacidade. A falta de um dentista foi solucionada com a nomeação de Alcebiades Pelosi em 1943. Em 1945, com a inauguração do novo hospital no Jabaquara, a Santa Casa iniciou negociações para transferir o pavilhão ao Governo do Estado. Apesar de um convênio firmado em 1945, os serviços só foram efetivamente transferidos em 1948, após atrasos burocráticos. Ainda assim, a Santa Casa continuou por anos arcando com os custos de manutenção e enfrentando críticas quanto à instalação de doentes infectocontagiosos junto aos demais pacientes. Uma das figuras importantes do período foi a enfermeira norte-americana Hella Haseneajer, que atuou na capacitação de profissionais e na supervisão técnica dos serviços. Declínio e desaparecimento A partir da década de 1950, com a centralização dos serviços de combate à tuberculose em instituições especializadas e políticas públicas estaduais, o Pavilhão foi gradualmente esvaziado. Seus últimos vestígios físicos resistiram até o início da década de 1960, quando foram demolidos. SERGIO WILLIANS É JORNALISTA E PESQUISADOR DA HISTÓRIA DE SANTOS. CONHEÇA SEU TRABALHO NO SITE WWW.MEMORIASANTISTA.COM.BR.