(Adolphe Braun/Wikipedia) Santos, meados de 1823. Entre o vaivém de embarcações e o ritmo tranquilo da Vila do Porto de Santos — que ainda levaria mais de uma década para se tornar cidade (1839) —, um passageiro singular desembarcava após longa travessia pelo Atlântico. Seu nome era Giovanni Maria Mastai-Ferretti, de 30 anos, um sacerdote franciscano nascido na região de Ancona, na Itália, que havia sido ordenado apenas quatro anos antes e seguia em missão apostólica para o Chile. A parada em Santos era, enfim, estratégica. Afinal, após pouco mais de 30 dias de navegação em condições adversas, com os desconfortos típicos das longas travessias marítimas do século 19 — calor, enjoo, umidade e pouco espaço —, o corpo exigia o descanso providencial. Quando estivessem revigorados, deveriam encarar a segunda etapa da viagem, que tomaria ao menos mais quarenta dias em alto-mar. A Santos de então, com seus pouco mais de quatro mil habitantes, vivia ainda seus primeiros passos como entreposto comercial de maior porte, com embarcações europeias aportando em frequência irregular e com as primeiras cargas de café chegando do interior em lombos de mulas, atravessando o labirinto de manguezais que separava o Porto Geral de Cubatão, do Valongo. Morada provisória Recebido por frei Antônio de Assunção, líder do Convento Franciscano do Valongo, Ferretti encontrou abrigo e acolhimento entre os muros de pedra e os silêncios contemplativos do espaço religioso. O convento, com sua rotina modesta e seu serviço à fé, tornar-se-ia por alguns dias o porto do descanso daquele homem enviado para longe de casa. A passagem do padre italiano pela vila, sobretudo, ficaria marcada por seus gestos de simplicidade e respeito. Durante sua estadia, o franciscano participou ativamente da vida religiosa da vila. No dia 8 de dezembro, presidiu a procissão da Imaculada Conceição, acompanhado por outros religiosos. Visitou os arredores de Santos e foi guiado, em parte de sua jornada, pelo pai de João Manuel Alfaia Rodrigues (que nasceria apenas em 1850), figura de destaque na vila santista. Ferretti demonstrou sensível interesse pela realidade local, visitando a comunidade mais pobre da região. Sua postura discreta e atenta deixou uma impressão duradoura entre religiosos e leigos, que enxergaram nele um espírito de humildade, firmeza e serena dignidade. No final do ano, o padre italiano seguiu viagem ao Chile, onde permaneceu até 1825. No retorno à Europa, iniciou uma trajetória de ascensão na hierarquia eclesiástica. De sacerdote a santo padre De volta à terra natal, Ferreti seria nomeado arcebispo de Spoleto em 1827 e, cinco anos depois, de Ímola. Giovanni destacava-se por sua postura conciliadora e liberal. Por conta disso, em 1840, foi elevado a cardeal, ganhando destaque na Santa Sé. Com a morte do papa Gregório XVI, em 1846, ele participaria do conclave que definiria o novo pontífice da Igreja Católica. Após quatro escrutínios e muitas articulações, seu nome acabou sendo escolhido. Desta forma, Ferretti tornou-se o 255º papa da história, adotando o nome de Pio IX. Sua eleição foi recebida com imensa festa em Santos, que já na condição de cidade se orgulhava de ter sido o primeiro porto da América a acolher aquele que conduziria a Igreja por 31 anos — o mais longo pontificado até os tempos modernos. Homenagem e memória Décadas depois, a lembrança da passagem do Santo Padre por Santos foi eternizada por iniciativa dos franciscanos do Valongo. Uma placa foi instalada na igreja, com dizeres do papa Pio X, sucessor de Ferretti. “O padre João Mastai Ferreti, depois com o nome de Pio IX, de passagem para o Chile, em missão apostólica, morou alguns dias neste convento, sendo Santos o primeiro porto da América visitado pelo único pontífice que até hoje veio ao Novo Mundo” - isso só foi quebrado em 1968, com a visita de Paulo VI à Colômbia. No Brasil, isso só veio a ocorrer em 1980, com João Paulo II. A articulação para essa homenagem partiu do comendador João Manuel Alfaia Rodrigues, filho do homem que guiara Ferretti pela vila em 1823. Alfaia estava em Roma para representar a Ordem Terceira de Santos nas comemorações do jubileu da Imaculada Conceição, sendo a única Ordem Terceira brasileira representada na ocasião e recebida pelo papa Pio X, por intermédio do embaixador Bruno Chaves, como consta no arquivo da própria Ordem. Curiosidade Além de ser o Papa com o mais longo pontificado da história (1846 a 1878, com 11.559 dias), Pio IX também foi o primeiro Santo Padre a ser fotografado, em 16 de outubro de 1873. Memória Com a recente morte do papa Francisco, o 266º pontífice da história da Igreja, vale lembrar que o 255º — Pio IX — foi o primeiro homem que viria a ocupar o trono de Pedro a visitar um porto sul-americano. E o fez justamente aqui, em Santos, ainda vila, em um descanso breve que atravessou os séculos com discreta grandiosidade. E talvez, ao contemplar o sol que se deitava sobre o lagamar do Valongo, ele tenha intuído o que só o tempo revela: que até os maiores caminhos começam em pausas pequenas. Porque mesmo os santos — sobretudo os santos — também precisam dormir. SERGIO WILLIANS É JORNALISTA E PESQUISADOR DA HISTÓRIA DE SANTOS. CONHEÇA SEU TRABALHO NO SITE WWW.MEMORIASANTISTA.COM.BR