Natural da ilha portuguesa, Maria Carmina, de 75 anos, partilha seu conhecimento no projeto Ponto de Contato (Alexsander Ferraz/AT) Os morros de Santos têm, juntos, 36 mil habitantes, segundo dados da Prefeitura. Cada um tem suas características, suas histórias e sua gente. Mas no Morro São Bento, a história é bordada com carinho e cuidado. A luta é para que uma antiga tradição, a das bordadeiras da Ilha da Madeira, não se perca. Uma oficina cultural procura desenhar um futuro para essa tradição, com apoio de quem aprendeu com os antepassados que vieram de Portugal em busca de uma nova vida em terras brasileiras. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Meu contato é muito por ser um artista que borda, olha para a cidade e as pessoas que bordam e achar que, na iminência dessa história estar acabando, precisava tentar fazer alguma coisa para que pelo menos essa história fosse preservada”, relata o artista visual Julian Campos, que coordena o projeto Ponto de Contato. Segundo ele, a aproximação às bordadeiras começou em 2017, quando conheceu Isabel da Paixão de Andrade, uma das bordadeiras originais do São Bento. “Ela me falou uma coisa que me marcou: quando morresse, essa tradição do bordado em Santos ia acabar junto com ela, porque filhas e netas, em geral, não puderam aprender. Eu, como artista, carreguei um pouco isso”, relata. “Comecei a me questionar sobre o trabalho dessas mulheres e quem eram elas”. Movimento Julian Campos cita que, nos anos 1980, chegou a haver 300 bordadeiras no São Bento, número confirmado pela própria Prefeitura. “Esse grupo foi diminuindo e a Cidade não soube muito preservar essa história”. O livro Bordadeiras do Morro São Bento - A Vida Tecida entre o Linho e as Linhas, escrito pela jornalista Gisela Kodja e lançado em 2008, é um dos marcos de preservação da memória. A obra traz os relatos das bordadeiras remanescentes até então – uma delas era dona Isabel. Para o artista visual, foi um exemplo da necessidade desse olhar carinhoso com a arte. “Em Santa Catarina, o bordado é patrimônio estadual. Nosso trabalho é um lembrete para que essa história não morra, e refletir se outras coisas não estão também se perdendo sem a gente perceber”. Projeto reaviva memória da arte O projeto Ponto de Contato vem reacendendo a memória de uma das tradições mais significativas da cultura santista. Entre as participantes, está Maria Carmina de Andrade Sebastião, de 75 anos, filha de Isabel da Paixão. Natural de Campanário, na Ilha da Madeira, ela aprendeu a arte ainda criança e celebra a oportunidade de partilhar, entre fios e afeto, o conhecimento. “Aprendi a bordar ainda pequena, com minha mãe. Ela deu muitas aulas e eu, agora, estou transmitindo o que ela fazia, com muito orgulho. Ensino o bordado da Madeira, para não perder a tradição”. Valor Segundo ela, trata-se de uma arte delicada, cuja confecção é demorada. “Estou amando a mentoria, porque elas (alunas) conhecem o meu bordado. Para mim, é uma bênção. Fico em casa, bordo sozinha, e lá vejo minhas amigas. Todo trabalho é valorizado”, sintetiza.