Sonhando com medicina, promotor de Santos encara Enem pela 6ª vez: 'Não vou desistir'

Após perder uma filha para a microcefalia e sofrer com negligência médica, Diego Fernando quer ser médico para ajudar o próximo

Um sonho sem fronteiras, com anos de persistência e que se tornou razão de vida. É com esse propósito que o promotor de vendas Diego Fernando Silva de Lima, de 30 anos, vai prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela sexta vez. Morador do bairro Caruara, na Área Continental de Santos, ele sonha cursar medicina para acabar com a negligência médica em hospitais, a qual já conviveu de perto.

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Diego Fernando e a esposa, Thalita Menezes, se tornaram pais da pequena Nicoly em 2011, mas a menina nasceu com microcefalia e faleceu com apenas três meses de vida. Ele recorda que, durante o período, enfrentou negligência médica em hospitais públicos. Assim, ele se apaixonou pela medicina e agora lutará até o fim para salvar vidas.

"Vi muita negligência médica, além de pouco aparato do nosso sistema de saúde. Todos sabem como é difícil chegar no hospital e ser mal atendido pelo médico. Foi aí que nasceu o amor por medicina. Perdendo a minha filha, tive forças para procurar ajudar outras pessoas. Tem que quebrar esse ciclo dentro dos hospitais. O cuidado com o próximo é essencial“, afirma Diego, que teve o segundo filho no ano seguinte.

A caminhada rumo aos consultórios conta com cinco participações no Enem. Na primeira, em 2015, Diego realizou o exame para se formar no Ensino Médio, após também prestar o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). Ambos exames oferecem a jovens e adultos que não concluíram os estudos a oportunidade de conseguir o certificado de ensino fundamental ou médio.

Além dos exames, Diego já prestou diversos vestibulares, mas sem obter a nota suficiente para ser aprovado em medicina, um dos cursos mais concorridos do Brasil. O morador de Santos chegou até a ir para a Argentina, em 2019, quando tentou entrar para a Universidade Nacional de Rosário. Sem conseguir conciliar família, estudos, distância e saudade, retornou para o Brasil três meses depois.

“Desistir não vou, jamais, porque eu tenho amor a profissão. Me apaixonei de uma forma que é pra vida toda. Eu vou ser médico. Não tem primeira ou segunda opção. Eu só vejo a medicina como realização de vida. Se não for medicina, acho que não existe um sentido pra mim. É amor a vida. É saber que posso ajudar pessoas que precisam mesmo", destaca o promotor.

O 'cantinho de estudos' de Diego Fernando, morador da Área Continental de Santos (Foto: arquivo pessoal)

Rotina de estudos

Durante os percursos de ônibus para diferentes mercados os quais presta serviço, Diego aproveita a viagem para estudar, com auxílio do celular. À noite, ele revisa conteúdos antes de dormir. 

No fim de semana, sem se preocupar com o trabalho, é quando ele pega 'mais pesado' nos estudos. Ele afirma que chega a estudar até 8 horas diárias, quando está com pique.

“Dentro do percurso de uma loja pra outra, eu vejo vídeos, faço simulados nos aplicativos, baixo audiobooks, vejo revisões, e assim é meu estudo na semana. Cada percurso, de uma loja pra outra, dura uma hora. Tenho mais ou menos seis horas de estudo nesse ritmo. Quando chega a noite, dou uma revisada em alguma matéria. No fim de semana, vejo dicas de redação e cronogramas de estudos que mandam nos grupos”, explica.

Diego Fernando viajou para Rosário, na Argentina, visando conseguir uma vaga para medicina (Fotos: arquivo pessoal)

O promotor de vendas também tentou fisioterapia e chegou a cursar um semestre de educação física, mas a paixão pela medicina falou mais alto. Ele recorda que os próprios professores de educação física o incentivaram a abandonar o curso e lutar pelo próprio sonho.

“Enquanto tiver sopro de vida no meu corpo, vou lutar por medicina. Juntei três meses de salário pra comprar um notebook ‘mais ou menos’, guardei dinheiro pra colocar internet na minha casa, corri atrás de livros e grupos de pessoas que pudessem me ajudar. Não garanto que esse ano eu vou conseguir, mas a luta é frequente até conquistar”.

E quanto vencer a luta, Diego já sabe para quem vai o prêmio. Assim como outros estudantes aprovados, ele quer disponibilizar todo o material de estudo que acumulou nos últimos anos para que outros estudantes possam trilhar o mesmo caminho.

“Eu espero que, quando eu passar, todo o material que eu tenho, tanto em PDF, Google Drive, eu possa passar pra alguém que tenha o mesmo intuito que eu”, finaliza o morador do litoral paulista.

Diego Fernando ao lado da esposa, Thalita Menezes, e o filho Caleb Henrique (Foto: Arquivo pessoal)
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