O trecho entre as estações Conselheiro Nébias e Valongo, englobam a segunda etapa do VLT, ainda sem data para funcionar (Sílvio Luiz/AT) O trecho entre as estações Conselheiro Nébias e Valongo, em Santos, da segunda etapa do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) deve custar quase o triplo do valor previsto inicialmente e voltou a ficar sem data definida para o início da operação. Um novo termo aditivo ao contrato de concessão foi assinado pelo Governo Estadual e pela concessionária BR Mobilidade, e prevê aporte de R\$ 395,183 milhões para a instalação de sistemas de sinalização e equipamentos necessários para começar a circular. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O documento indica que a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), responsável por entregar as obras civis e sistemas, não concluiu sinalização e sistemas dentro do prazo contratual. As obras físicas do VLT — iniciadas quase cinco anos atrás — já terminaram, mas a falta dessa infraestrutura impede o funcionamento do novo trecho. A EMTU está em liquidação, e as atribuições de planejamento e fiscalização foram transferidas para a Agência Reguladora de Transporte do Estado (Artesp). O aditivo transfere para a BR Mobilidade a responsabilidade de concluir a implantação de sinalização, energia, telecomunicações, controle semafórico, arrecadação e sistemas complementares, como detecção de incêndio e wi-fi. A empresa deverá avaliar equipamentos já adquiridos pela EMTU, reaproveitando o que for possível, e revisar projetos e instalações. De acordo com a Artesp, o VLT está na fase de testes da via permanente e da rede aérea — o que começou a ser feito em 20 de setembro do ano passado, há quase 11 meses. Após essa etapa, ocorrerá a instalação dos sistemas operacionais. A previsão é que a operação com passageiros comece ainda neste semestre, de forma gradual e integrada com os demais modais. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse, em fevereiro, que isso se daria agora, em agosto (veja A Tribuna não Esquece). O valor do aporte foi calculado após estudos da concessionária e aprovados pela Artesp, que reconheceu um desequilíbrio econômico-financeiro provisório no contrato, de R\$ 362 milhões, em valores de janeiro. Com atualização para o primeiro ano contratual, o valor chegou aos R\$ 395 milhões. Quando começou, em setembro de 2020, com execução pela Álya Construtora, o custo previsto da obra era de R\$ 217,7 milhões, segundo reportagem de A Tribuna na época. Com o novo aditivo, o total investido na segunda etapa do VLT chegará a R\$ 612 milhões. Prefeitura acompanha A Prefeitura de Santos diz manter diálogo com o Estado e a Artesp, cobrando agilidade na conclusão do projeto, e reforçou que a entrega da segunda etapa é fundamental para reduzir o tempo de deslocamento e ampliar a integração com as linhas municipais de ônibus — 37 das 41 linhas já são integradas ao VLT. Segundo a Administração, medidas para reduzir transtornos durante as obras foram adotadas, como flexibilização de regras de estacionamento, manutenção do atendimento por ônibus em toda a região e fim das interdições viárias no trecho. A BR Mobilidade foi contatada, mas não enviou resposta até o fechamento desta edição. Comerciantes e passageiros estão frustrados Frustração é a palavra que define o sentimento de comerciantes e usuários de transporte público diante da demora para o início da operação comercial da segunda fase do VLT, no Centro. Thais (à esquerda superior): “Era para estar passando”. Latrova (à direita superior): “A demora é grande”. Mastellari (à esquerda inferior): “O pior dos dois lados”. Sara (à direita inferior): “Me sinto abandonada” (Daniel Rodrigues/AT) Sócio de uma loja de variedades, Daniel Luiz Soares Mastellari, de 44 anos, afirma que o movimento piorou durante as obras. “Com esse atraso, vai demorar mais para voltar à normalidade. Já há carros com restrição de circular e estacionar, e o VLT não está funcionando. Temos o pior dos dois lados: nem as vagas de antes nem o VLT prometido.” O comerciante de uma loja de malas, Paulo Levi Latrova, de 73 anos, relata que “havia expectativa de que o VLT ajudasse, mas a demora é grande. Já vai fazer um ano que as obras acabaram, e ele não está rodando”. Dona uma loja de artigos de limpeza, Thais Birckett, de 40 anos, critica o excesso de testes. “Já era para estar passando. Quando começar, vai aumentar a visibilidade para o comércio. A obra trouxe frustração e prejuízo; lojas fecharam por falta de acesso.” A usuária e analista sênior de logística internacional Fabiana Cristina Boldino, de 40 anos, de Praia Grande e que trabalha no Centro, conta que “meu trajeto de ônibus leva até duas horas. Com o VLT, poderia cair para 40 minutos”. Sara Pereira de Souza, de 30 anos, ajudante de despachante aduaneiro e que trabalha no Centro, comenta se sentir “abandonada, porque a obra demorou demais”. Comentário Omissão, desleixo, desrespeito Por Rafael Motta, editor Inexplicável é força de expressão. Deve haver motivo para se ter feito uma obra de tal envergadura sem se instalar ou nem sequer prever a sinalização do trajeto. Também pode se responder por que o complemento custará mais do que a obra e triplicará seu custo final. Mas o Estado nada desvenda: só expõe cifras e listas de tarefas a serem cobertas por elas. Num escândalo como este, nem sinal dos deputados estaduais, na teoria fiscais dos atos do Executivo. Não estranhará se o novo trecho do VLT operar só no ano eleitoral de 2026, num convite a um desrespeito por parte de gente que posará de benfeitora ao inaugurá-lo.