Santos tem menor perda de água entre cidades da Baixada Santista

Embora tenha melhor colocação do Brasil, mais de 14% de tudo o que sai pelos canos para distribuição ainda é perdido no caminho

Por: Sheila Almeida & Da Redação &  -  16/06/19  -  23:08
O consumo adequado deve variar entre 30 e 40 ml por quilo/dia
O consumo adequado deve variar entre 30 e 40 ml por quilo/dia   Foto: Reprodução

Santos é a cidade com menor Índice de Perda na Distribuição (IPD) de água potável do Brasil. Mas o número não é perto do zero: 14,33% de tudo o que sai pelos canos para distribuição é perdido no caminho, seja em vazamentos, fraudes ou ligações clandestinas.


Além dos impactos ambiental e financeiro, os dados – do Instituto Trata Brasil – mostram a desigualdade da região no tema: enquanto Santos é a cidade com menor IPD do País, São Vicente e Guarujá estão abaixo da média nacional nessa lista.


No Brasil, a média de perda é de 38,3%. São Vicente chega a perder 56,6% do total que seria faturado pela Sabesp. Esse índice é próximo da média do sexto pior estado do Brasil no quesito, Rondônia (veja no infográfico). Guarujá também não vai bem. Tem IPD de 48,9%. Ou seja, quase a metade da água que sai para distribuição é perdida.


Dos nove municípios da região, Praia Grande também entra na lista, com 34,3% de perdas – um pouco menos da média nacional e de números bem parecidos com o do Estado de São Paulo. O Painel Saneamento disponibiliza hoje estudos de 254 localidades brasileiras. Até o fim de 2020 serão 893.


A Sabesp tem um centro que estuda a questão. Não conseguiu levantar qual a porcentagem de perdas na região, mas sabe que, no caminho de distribuição da água, 70% do que é perdido na Baixada Santista é fruto de fraudes ou ligações clandestinas. A quantidade poderia abastecer quase 100 mil pessoas por um mês.


Distribuição e faturamento


O pesquisador do Trata Brasil, Pedro Scazufca, explica que são consideradas perdas o que é associado a vazamentos comerciais ou residenciais, problemas técnicos ou fraude do consumidor e o roubo de água por submoradias e áreas de invasão.


“Se você pensar nas crises de abastecimento de água, como seria se tudo estivesse regularizado? Poderia chegar mais água nas casas das pessoas e aumentar ganhos da concessionária, para que pudessem ser feitos investimentos. Isso sem falar do ganho ambiental”, explica.


Segundo ele, também é preciso pensar na perda de faturamento, medida pelo que a concessionária deixou de arrecadar devido à perda na distribuição.


“Os municípios teriam que definir planos municipais de saneamento e metas às concessionárias. Para a sociedade é importante que se conscientize para que o serviço seja eficiente”.


De acordo com o gerente da Divisão de Controle de Perdas da Baixada Santista, o engenheiro Marcelo Tadeu Muniz Pereira, a Sabesp mantém um trabalho permanente para combate às perdas. O Programa Corporativo de Redução de Perdas de Água na região prevê a troca de ligações domiciliares, hidrômetros, redes de água e também pesquisa vazamentos não visíveis com uso de equipamentos específicos.


Pereira diz que cada município tem suas metas de redução dentro de seus contratos. Atualmente a Sabesp já assinou com as quatro cidades citadas e negocia com as cinco demais da região. Mas, segundo ele, as metas são desafiadoras.


“Entre as melhorias de 2018 em toda a região se destacam a expansão e reforço das redes de distribuição, com 72,3 quilômetros de novas tubulações, além da troca preventiva de hidrômetros e vistorias prediais para detecção e reparo de vazamentos”.


Três pontos precisam ser observados


Investimento, planejamento e manutenção são as três chaves para reduzir as perdas e ter mais eficiência no uso consciente da água. A afirmação é de Emerson de Souza, vice-presidente da Itron para América Latina – empresa de tecnologia ligada a questão.


Segundo ele, Santos tem particularidades que precisam ser consideradas. Um exemplo é o sistema de drenagem desenvolvido no século 20, além de um plano de saneamento reconhecido internacionalmente. Mas, ao olhar para o lado, a situação é tão crítica quanto no resto do País.


“São necessárias ações básicas, porque vemos que, através dos anos, o caminho trilhado vai no sentido contrário das metas”. Faltam fiscalização e padrão na regulamentação”, diz. Souza lembra que não só a Sabesp deve ser cobrada, mas também as empresas.


“Honestamente, sabemos que o cidadão tem o seu papel quando não rouba água, mas o problema mais amplo é o das empresas e indústrias quando também fazem isso. Elas precisam investir em pesquisa, em tecnologia e em investigação de suas dependências. Porque vazamento as pessoas só descobrem quando parte do solo cede ou se vê a água”, diz Souza.


Cidades planejam ações para melhorar situação


A Sabesp é a responsável pelas perdas da água até a entrega, mas não sozinha. Enquanto a situação das moradias irregulares persistir, municípios também dividem a responsabilidade.


Em São Vicente, onde o índice de perdas de água na distribuição é maior, a Prefeitura ressalta que, até um passado recente, a cidade não tinha amparo jurídico para que a Sabesp voltasse a investir no Município. O motivo era a inscrição no Cadastro de Inadimplentes do Estado de São Paulo (Cadin Estadual).


Na prática, a condição impedia o município de pleitear e receber recursos dos governos do Estado e Federal. Após regularizar a situação no início de 2017, obteve em junho do mesmo ano a Certidão Negativa de Débito – o que não acontecia desde 2013.


Também por isso, desde 2013, o Índice de Perdas na Distribuição (IPD) vicentino foi o único das quatro cidades estudadas pelo Trata Brasil que piorou: 5,8% em cinco anos.


A Prefeitura diz contar com o investimento de R$ 550 milhões no setor, durante os 30 anos de contrato com a Sabesp. Também afirma que somará esforços na urbanização de locais com moradias irregulares.


Em Guarujá, o contrato com a Sabesp tem previsão de que a empresa invista R$ 770 milhões e garanta 4% de repasse de sua receita – o equivalente a R$ 6 milhões por ano – à Cidade.


Segundo a Prefeitura, esses valores serão empregados, principalmente, em regularização fundiária, saneamento básico e redes de macro e microdrenagem.


Em Praia Grande, as metas de redução e controle de perdas são gradativas. Para o ano 2020 já é esperada uma redução de 6% por ligação ao dia. Para 2046 a meta é que a redução chegue a 17% (totalizando IPD de aproximadamente 17%, como a segunda melhor do Brasil atrás de Santos, se os índices se mantiverem).


Em Santos, onde o saneamento é preocupação há mais de 100 anos com Saturnino de Brito, a Prefeitura auxilia.


Com 12 meses de atuação, o grupo técnico de controle de ocupações irregulares da Secretaria de Serviços Públicos já contabilizou mais de 220 demolições. As invasões podem ser denunciadas pelos telefones 153 ou 162.


Logo A Tribuna